Uma pesquisa recém-divulgada na revista Science aponta que cerca de 41% das espécies de mamíferos selvagens envolvidas no comércio global para alimentação, peles, pesquisa científica e medicamentos tradicionais carregam pelo menos um patógeno capaz de provocar doenças em humanos.
Este trabalho, conduzido por uma equipe internacional de cientistas, marca a primeira análise quantitativa do papel do comércio de vida selvagem na disseminação de agentes infecciosos, reforçando a necessidade urgente de controles mais rigorosos para evitar surtos globais de doenças.
O estudo destaca que diversos surtos históricos de doenças em humanos têm origem no comércio de animais selvagens. Entre os exemplos estão a emergência do HIV, a epidemia de Ebola na África Ocidental em 2014 e a pandemia de COVID-19, que assolou o mundo a partir de 2020.
Arinjay Banerjee, virologista da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, ressalta que a transmissão de vírus de animais para humanos não é uma novidade, mas a inovação desta pesquisa está na medição precisa da escala desse fenômeno, oferecendo dados concretos para embasar políticas públicas.
Os registros abrangentes sobre patógenos no comércio de vida selvagem começaram a ser compilados de forma sistemática apenas nos últimos anos, impulsionados pela crise da COVID-19. Isso permitiu que Jérôme Gippet, ecologista da Universidade de Friburgo, na Suíça, liderasse uma equipe que correlacionou o comércio de animais com a prevalência de mamíferos portadores de patógenos.
Conforme Gippet, os resultados trazem a primeira evidência quantitativa global de que o comércio de vida selvagem amplifica significativamente os riscos de zoonoses, doenças transmitidas de animais para humanos.
A análise combinou quatro décadas de dados de três grandes bases sobre o comércio de vida selvagem com um banco de informações de 2021, elaborado por ecologistas que investigaram as origens da COVID-19. O foco recaiu sobre mamíferos, que representam cerca de um quarto das espécies comercializadas globalmente e possuem um histórico notável de transmissão de patógenos.
De um total de 2.079 espécies de mamíferos analisadas no comércio, os modelos da equipe indicam que 41% compartilham pelo menos um patógeno com humanos, um índice muito superior aos 6,4% observados entre mamíferos não comercializados.
Os pesquisadores desenvolveram modelos preditivos que avaliam os riscos de disseminação de patógenos por meio de interações comerciais, considerando variáveis como a história evolutiva das espécies, a proximidade com comunidades humanas, o consumo como alimento e o uso em experimentos científicos.
Um dado alarmante é que o comércio de animais vivos, em vez de produtos derivados, eleva consideravelmente a probabilidade de transmissão. Além disso, o tempo de permanência de uma espécie no comércio também influencia: a cada década de circulação comercial, uma espécie tende a compartilhar, em média, um patógeno adicional com humanos. O comércio ilegal, por sua vez, desempenha um papel menor, mas ainda relevante, nesse cenário de risco.
Jérôme Gippet expressa esperança de que os achados orientem a criação de regulamentações mais eficazes no comércio de vida selvagem, com foco na prevenção de novos surtos epidêmicos. Para detalhes adicionais sobre a pesquisa, é possível acessar informações complementares no site da Science, onde o estudo foi originalmente publicado.
Com informações de nature.com.


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