3,5 toneladas de cerâmica recuperadas de um naufrágio na costa de Singapura revelam que a cidade-porto de Temasek, já em 1340-1352 d.C., mantinha ligações diretas com os principais centros de produção cerâmica da China. A descoberta arqueológica liderada pelo Dr. Michael Flecker, da HeritageSG, escancara um passado comercial até agora pouco documentado e eleva Temasek ao status de porto cosmopolita no século XIV.
Entre 2016 e 2019, arqueólogos trouxeram à tona cerca de 3,5 toneladas de fragmentos cerâmicos do naufrágio conhecido como Temasek Wreck. Desse total, aproximadamente 136 kg eram porcelana azul-e-branca da dinastia Yuan, organizados em mais de 2.350 fragmentos, incluindo algumas peças quase intactas. Esse subconjunto representa cerca de 3,9% do peso total da carga cerâmica. citeturn0search1turn0search2
O conjunto revelado mostra elevada diversidade estilística. Longquan celadon correspondeu a cerca de 44,5% da carga cerâmica, seguida de porcelana fina de Jingdezhen, peças Qingbai e cerâmicas de Fujian. A porcelana azul-e-branca estava entre essas últimas, destacando-se não pelo volume global, mas pela raridade e valor comparativo. citeturn0search1turn0search3
Os formatos mais comuns da porcelana azul-e-branca eram tigelas—que somaram cerca de 71,3% do peso desse tipo de peça—além de vasos e grandes potes decorativos. Quanto aos motivos decorativos, a temática de patos em lagoas de lótus superou elementos florais como buquês de lótus numa proporção próxima de 3 para 1. citeturn0search1
Para estabelecer a data do naufrágio, Flecker e sua equipe analisaram características artísticas passíveis de datação. Determinaram que os padrões decorativos observados emergiram após 1340 d.C., mas antes dos tumultos em Jingdezhen a partir de 1352 d.C., quando certas produções cerâmicas foram interrompidas. Isso fecha a janela cronológica para os anos entre 1340 e 1352. citeturn0search1turn0search2
Além da porcelana, foram recuperados artefatos terrestres em Singapura, como tigelas similares, contas de vidro, lâminas douradas e pulseiras negras. Esses objetos reforçam a conexão entre este carregamento marítimo e Temasek, e apontam para Quanzhou, em Fujian, como provável porto de origem da embarcação. citeturn0search1turn0search3
Raros foram os itens destinados a mercados distantes como Índia ou Oriente Médio: pratos gigantes de 40-50 cm, típicos desses locais, praticamente não aparecem nesse conjunto, o que sugere que o destino principal da carga era o próprio Temasek. citeturn0search1turn0search2
Mesmo sem restos estruturais conservados — degradados pelas correntes marítimas e organismos marinhos — os pesquisadores deduziram que o tipo de embarcação era um junco chinês, com base no conteúdo da carga. É o primeiro naufrágio em Singapura a ter datação tão precisa. citeturn0search3turn0search2
O impacto histórico é significativo. Revela que entre 1340-1352 d.C., Temasek já era um porto cosmopolita, com uma elite consumista exigente, sintonizada com os grandes centros produtores chineses. Essa precisão cronológica oferece à arqueologia cerâmica mundial um ponto de referência sem precedentes — permitindo rastrear com clareza as exportações Yuan. E fortalece o Sul Global como protagonista na história marítima internacional, desmontando a narrativa de que Singapura só “nasce” com o colonialismo britânico.
Este achado muda definitivamente a percepção sobre a importância marítima da Singapura pré-colonial e estabelece Temasek como um epicentro comercial de alcance global já no século XIV.
Com informações de www.earth.com.


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