No dia 17 de abril a Universidade Federal de São Paulo apresentou pesquisa que identifica a cela onde agentes da ditadura militar simularam o suicídio do jornalista Vladimir Herzog. Ele foi torturado e assassinado no dia 25 de outubro de 1975 nas instalações do DOI-Codi de São Paulo, órgão de repressão subordinado ao Exército.
Deborah Neves, doutora em história e pós-doutoranda na Unifesp, coordenou o estudo que comprova a materialidade das fraudes executadas por agentes do Estado. O trabalho integrou evidências documentais, laudos periciais e análises arquitetônicas para reconstruir os fatos.
A cela ocupada por Herzog localizava-se no primeiro andar do prédio dos fundos na Rua Tutóia, 921, onde funciona a 36ª Delegacia de Polícia. A preservação das estruturas originais permitiu confrontar o espaço físico com a fotografia divulgada pela ditadura em 1975.
Elementos como o ponto exato de fixação de um ferrolho na alvenaria coincidem com detalhes visíveis nas imagens da época. Essa correspondência confirmou a cela especial número 1 como o local onde o corpo foi posicionado para a encenação.
O estudo examinou os laudos periciais dos cadáveres de José Ferreira de Almeida, morto em agosto de 1975, e do próprio Vladimir Herzog. Depoimentos do fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, responsável por registrar a cena forjada, também foram incorporados à investigação.
Inconsistências entre as descrições dos peritos e os elementos da fotografia atrasaram a localização precisa. A janela, listada como vitrô nos documentos oficiais, aparecia na imagem como bloco de vidro.
Deborah Neves localizou informações decisivas no livro «A Casa da Vovó: uma biografia do DOI-Codi», de Marcelo Godoy. A obra detalha a morte do tenente da Polícia Militar José Ferreira de Almeida, igualmente atribuída a suicídio nas mesmas dependências.
A semelhança dos procedimentos adotados nos dois casos orientou o cruzamento dos laudos. A menção a blocos de vidro na janela do tenente revelou-se fundamental para apontar a cela correta.
Os corpos de Almeida e Herzog foram encontrados no mesmo espaço. A identificação só foi possível pela articulação entre arqueologia forense, pesquisa histórica e análise arquitetônica.
Cláudia Plens comandou o trabalho de arqueologia forense. Alessandro Sbampato realizou a avaliação das estruturas enquanto Deborah Neves conduziu a pesquisa documental e histórica.
Apenas uma sala no prédio reuniu todas as correspondências necessárias entre documentos, imagens e vestígios físicos. Ela situa-se no final do corredor do primeiro andar do edifício dos fundos, conforme detalhou o Opera Mundi.
Fonte original: Agência Internacional

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