Desde seu primeiro episódio, a série ‘For All Mankind’, produzida pelo Apple TV+, reescreve a história da exploração espacial com ousadia quase arqueológica. O enredo parte de uma premissa singular: e se a União Soviética tivesse chegado à Lua antes dos Estados Unidos, alterando para sempre o equilíbrio geopolítico da Guerra Fria e o destino da humanidade entre as estrelas?
O universo alternativo criado pelos roteiristas transforma a derrota americana em catalisador de uma corrida tecnológica sem precedentes, onde a NASA se reinventa sob pressão. O que na realidade terminou com o pouso da Apollo 11 em 1969, na série se converte em um despertar coletivo que acelera décadas de inovação e coloca mulheres, imigrantes e dissidentes no centro da narrativa cósmica.
Segundo o portal Space.com, a trama atravessa seis décadas de eventos alternativos, misturando figuras históricas e personagens fictícios num mosaico que desafia a cronologia real. O cosmonauta soviético Alexei Leonov, que na vida real realizou a primeira caminhada espacial em 1965, torna-se o primeiro homem a pisar na Lua em junho de 1969, enquanto Neil Armstrong e Buzz Aldrin sofrem um acidente quase fatal antes de regressarem à Terra.
Logo depois, surge Anastasia Belikova, a primeira mulher a caminhar sobre o solo lunar, antecipando em décadas a presença feminina no espaço. Na realidade, a russa Valentina Tereshkova havia sido pioneira em 1963, mas jamais chegou à Lua, o que torna o arco da série uma homenagem distorcida e visionária às mulheres esquecidas da corrida espacial.
A partir dos anos 1970, a ficção acelera o relógio da história, encerrando a Guerra do Vietnã antes do tempo e elegendo Ted Kennedy presidente em 1972, uma realidade que o escândalo de Chappaquiddick havia tornado impossível. A base lunar Jamestown nasce em 1973, transformando a Lua num palco de tensões políticas e tecnológicas que ecoam as disputas terrestres.
Enquanto na vida real o programa Apollo se encerrava em 1972, a série estende suas fronteiras e transforma o satélite em território de soberania compartilhada. O colapso moral de Watergate é reescrito com o perdão presidencial de Nixon por Kennedy, num gesto de reconciliação que o mundo real jamais testemunhou.
Nos anos 1980, a ficção introduz Ronald Reagan antes do tempo, e até o ex-Beatle John Lennon é poupado do atentado que o matou em Nova York. O Papa João Paulo II, por outro lado, é assassinado em plena Praça de São Pedro, gesto simbólico de ruptura entre fé e poder que jamais ocorreu fora da tela.
Em 1983, o programa espacial atinge um ponto de inflexão com o lançamento do Sea Dragon, um foguete nuclear que inaugura a era das viagens interplanetárias. Sob o comando do fictício astronauta Ed Baldwin e da real Sally Ride, primeira mulher americana no espaço, a NASA se militariza e transforma a órbita lunar em zona de dissuasão armada.
Essa militarização culmina num tratado lunar entre Reagan e o premier soviético Yuri Andropov em 1984, dividindo formalmente a Lua entre as duas potências. O gesto, que viola o Tratado do Espaço Exterior de 1967, simboliza o triunfo da ficção sobre o direito internacional e questiona até que ponto o poder pode se estender além da Terra.
A terceira temporada transporta o público para Marte, com missões conjuntas entre NASA, URSS e até a Coreia do Norte, que na narrativa se torna pioneira na chegada ao planeta vermelho. A personagem Danielle Poole, astronauta afro-americana, e o soviético Grigory Kuznetsov acreditam ser os primeiros humanos em solo marciano, apenas para descobrir que o norte-coreano Lee Jung-Gil os precedera secretamente.
Enquanto a série estabelece a base Happy Valley e retrata o nascimento do primeiro humano fora da Terra, a realidade segue longe desse feito. A NASA ainda se prepara para a missão Artemis, que pretende retomar a presença humana na Lua antes de sonhar com Marte.
Nos anos 1990 e 2000, ‘For All Mankind’ transforma a política americana em um tabuleiro de ficção especulativa, elegendo Ellen Wilson como a primeira mulher e presidente abertamente gay dos Estados Unidos. Em seu mandato, são legalizados o casamento igualitário e a colonização comercial da Lua, com corporações como Helios, Exxon e Halliburton disputando território no vácuo lunar.
O século XXI alternativo da série é um espelho distorcido do nosso: Al Gore vence George W. Bush, John Lennon canta no Super Bowl, e uma civilização floresce em Marte enquanto a Terra se debate com crises ecológicas e políticas. A ficção se torna manifesto, um lembrete de que a tecnologia e a ideologia caminham lado a lado na construção — ou destruição — do futuro.
Agora, na quinta temporada, ambientada em 2012, a colônia marciana explora o asteroide Goldilocks, rico em irídio, e planeja erguer um elevador espacial que conectará o planeta ao cosmos. A série, já renovada para uma sexta e última temporada, promete concluir essa epopeia alternativa com a pergunta que ecoa desde 1969: e se a imaginação tivesse vencido a política?
‘For All Mankind’ é mais do que ficção científica; é uma crítica ao monopólio narrativo da história e uma meditação sobre o poder de reescrever o passado. Ao distorcer o real, ela ilumina o possível — e demonstra que toda utopia nasce do gesto de desafiar o impossível.
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