Em um achado que parece emergir da fronteira tênue entre mito e ciência, arqueólogos descobriram no Egito uma múmia da era romana contendo um fragmento da Ilíada de Homero selado em seu abdômen. O texto, escrito em grego sobre papiro, descreve parte do Livro 2 da epopeia e lista as embarcações que marcharam contra Troia, unindo o imaginário épico à liturgia funerária do Nilo.
Segundo a Universidade de Barcelona, o papiro foi inserido no corpo durante o processo de mumificação, num gesto que mesclava erudição e fé. A múmia foi encontrada na necrópole de Al-Bahnasa, antiga Oxirrinco, um dos sítios arqueológicos mais férteis do Egito, onde desde o final do século XIX já vieram à luz cerca de 500 mil fragmentos de papiros.
A arqueóloga espanhola Esther Pons Mellado, co-diretora da missão em Oxirrinco, afirmou que o documento foi colocado sobre o abdômen como forma de proteger o falecido na travessia para o além. Ela explicou ainda que, sob o domínio romano entre 30 a.C. e 641 d.C., era comum depositar papiros no tórax ou abdômen das múmias, embora o significado simbólico dessa prática permaneça envolto em mistério.
O achado é considerado o primeiro caso conhecido em que um texto literário grego foi deliberadamente incorporado à mumificação. Para o linguista Ignasi-Xavier Adiego, professor da Universidade de Barcelona, a singularidade do caso reside no contexto funerário do papiro, pois os textos normalmente encontrados junto às múmias eram de caráter mágico ou protetivo, e não literário.
A identidade do indivíduo ainda é desconhecida, mas os estudos preliminares indicam tratar-se de um homem adulto. De acordo com Pons Mellado e a também arqueóloga Maite Mascort, o exame do corpo e do texto segue em andamento, e novas análises poderão revelar informações sobre o status social do falecido e sobre o papel da literatura nos rituais funerários romanos do Egito.
O sítio de Oxirrinco, localizado na margem oriental do deserto ocidental egípcio, carrega uma longa tradição de descobertas que redefiniram o entendimento do mundo helenístico e cristão primitivo. A cidade, que floresceu sob domínio grego e romano, transformou-se em um repositório de manuscritos, preservando desde tratados filosóficos até contratos civis, como se o deserto tivesse se tornado o arquivo secreto da Antiguidade.
Durante a escavação realizada entre novembro e dezembro de 2025, a equipe também desenterrou múmias adornadas com línguas de ouro e cobre. Segundo o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, acreditava-se que essas próteses metálicas permitiriam aos mortos comunicar-se com os deuses no além, uma vez que o ouro simbolizava a carne divina.
O uso de cobre em uma das línguas, contudo, intriga os pesquisadores, que buscam compreender se havia um significado ritual distinto para o metal menos nobre. Não se sabe se a múmia que continha o papiro da Ilíada também possuía uma dessas línguas metálicas, pois o corpo ainda passa por análises em laboratório especializado.
Para os antigos egípcios, o ato de envolver o corpo em faixas era mais do que preservação: era uma tentativa de diálogo com o cosmos. Inserir um fragmento de Homero nesse processo sugere que a poesia era compreendida não apenas como arte, mas como um código de passagem, uma senha poética para a eternidade.
O descobrimento, relatado pelo portal Live Science, reabre o debate sobre como o pensamento grego se infiltrou nas tradições egípcias, criando uma síntese espiritual entre Oriente e Ocidente. A múmia da Ilíada torna-se, assim, um símbolo de diálogo entre civilizações – um eco preservado em linho e silêncio, onde a palavra escrita se confunde com o rito da eternidade.
Os especialistas acreditam que o papiro possa ter sido transcrito por um escriba local educado na tradição helênica, o que reforça a ideia de um Egito romanizado, mas intelectualmente híbrido. A presença de Homero em um contexto funerário africano revela uma convergência de mundos, onde a narrativa da guerra de Troia se mistura aos cânticos do Nilo, e a epopeia se transforma em oração.
Essa fusão de culturas tem fascinado historiadores desde o século XIX, quando os primeiros papiros de Oxirrinco revelaram fragmentos de tragédias de Sófocles e Eurípides. Agora, o novo achado amplia o alcance desse espólio intelectual, mostrando que a literatura grega não apenas circulava entre os vivos, mas também acompanhava os mortos, como se a palavra fosse uma forma de ressuscitação simbólica.
O fragmento encontrado mede poucos centímetros, mas sua importância é imensurável. Ele funciona como uma cápsula temporal que testemunha o modo como o saber helênico foi reinterpretado no Egito romano, transformando a múmia em um palimpsesto de identidades e crenças.
Estudiosos ressaltam que a escolha da Ilíada pode não ter sido casual, já que o poema, centrado na glória e no destino, dialoga com a ideia egípcia de imortalidade e julgamento pós-morte. Assim, o texto de Homero, outrora recitado em ágoras gregas, ressurge embalado em linho e resina, como se o eco de Aquiles encontrasse repouso nas areias do deserto.
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