O presidente da Rússia, Vladimir Putin, declarou que o Ocidente está perdendo sua posição de domínio no cenário internacional, enquanto nações do Sul Global emergem como protagonistas de uma nova ordem multipolar. Em mensagem ao Fórum Diálogo Aberto, o líder russo apontou que o mundo presencia a formação de uma arquitetura global mais equilibrada, fundamentada na soberania e na autodeterminação dos povos.
Putin enfatizou que países que preservam sua independência política, econômica e cultural estão assumindo papéis centrais, traçando caminhos de desenvolvimento alinhados aos seus próprios valores e prioridades. Ele destacou que essa mudança reflete o declínio de normas e práticas internacionais impostas por potências ocidentais, que, segundo suas palavras, cedem espaço a novos polos de crescimento e influência.
Conforme relatado pelo portal Sputnik International, o presidente russo observou que os eventos recentes evidenciam transformações irreversíveis em áreas como economia, finanças, tecnologia e demografia. Para ele, tais mudanças sinalizam o surgimento de um sistema mundial mais justo, menos atrelado a um único centro de poder.
O líder do Kremlin defendeu que um modelo sustentável de desenvolvimento global deve repousar sobre igualdade e respeito mútuo entre as nações. Ele argumentou que nenhum país pode prosperar isoladamente ou às custas de outros, e que o equilíbrio global só será alcançado com a consideração dos interesses de todas as partes.
As declarações de Putin reforçam a visão de Moscou sobre a consolidação de um mundo multipolar, uma ideia que também encontra eco em potências como China, Índia e Brasil, especialmente no contexto do BRICS. Essa perspectiva desafia o modelo unipolar liderado pelos Estados Unidos e seus aliados europeus, que por décadas moldaram as dinâmicas da economia e da política global.
Nos últimos anos, a ascensão do Sul Global tem se manifestado por meio de maior cooperação econômica entre países em desenvolvimento e pela criação de sistemas financeiros alternativos ao dólar. A ampliação do BRICS e o fortalecimento de parcerias estratégicas na Ásia, África e América Latina exemplificam essa redistribuição de poder no cenário internacional.
Analistas alinhados ao Kremlin interpretam o discurso de Putin como uma análise geopolítica e, ao mesmo tempo, uma estratégia para consolidar alianças fora da esfera ocidental. Eles acreditam que essa reconfiguração busca diminuir a dependência de instituições controladas pelo Ocidente, promovendo a autonomia de blocos regionais.
O posicionamento do presidente russo surge em um contexto de tensões contínuas com as capitais ocidentais, agravadas por sanções econômicas e atritos diplomáticos. Apesar disso, o Kremlin insiste que o futuro da governança global dependerá da cooperação entre nações soberanas e do reconhecimento do declínio do monopólio político e econômico ocidental.
Ao advogar por um mundo multipolar, Putin posiciona a Rússia como um dos principais atores nessa transição, articulando uma nova lógica de poder baseada na diversidade cultural e na equidade entre os Estados. Essa visão, compartilhada por muitos países do Sul Global, aponta para uma reordenação histórica das relações internacionais, desafiando a hegemonia que definiu o século passado.
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Letícia Fernandes
28/04/2026
Caro Ricardo Menezes, seu comentário revela uma compreensão bastante limitada do que significa a crise hegemônica do Ocidente. Você reduz a crítica de Putin a um mero “discurso de quem quer destruir a ordem liberal”, como se a ordem liberal em questão — aquela mesma que patrocinou golpes na América Latina, bombardeou o Iraque com base em mentiras e impôs pacotes de austeridade que destruíram economias inteiras — fosse algum tipo de paraíso político. O problema não é que Putin critique o Ocidente; o problema é que o Ocidente, ao longo das últimas décadas, forneceu material de sobra para essa crítica. Dizer que o Sul Global é um “clube de ditadores” é ignorar que a Índia, a Indonésia, o Brasil e a África do Sul são democracias eleitorais, com imperfeições, sim, mas que jamais invadiram países soberanos sob pretextos falsos ou impuseram sanções unilaterais que matam populações civis inteiras de fome.
O que está em jogo aqui não é uma disputa moral entre “democracia liberal” e “autoritarismo”, mas sim a materialidade das relações de poder. O Ocidente, com seus 30% do PIB global em 2023 contra 60% nos anos 1960, simplesmente não tem mais condições objetivas de ditar as regras do jogo sozinho. A ascensão do Sul Global não é uma invenção de Putin; é um dado concreto da economia-mundo capitalista, onde China, Índia, Brasil e os próprios Emirados Árabes Unidos já respondem pela maior parte do crescimento global. Chamar isso de “conversa fiada” como faz o Beto Engenheiro é negar a realidade. A questão não é se vão sair editais de ferrovia, mas sim quem controla as instituições financeiras que financiam essas ferrovias e sob que condições.
Tadeu tocou num ponto crucial: a ordem liberal nunca foi justa, ela foi apenas eficiente em manter a hierarquia centro-periferia. O FMI e o Banco Mundial, criados em Bretton Woods sob hegemonia americana, sempre impuseram aos países do Sul receitas de ajuste estrutural que beneficiavam o capital financeiro do Norte. Se agora o Sul Global começa a criar seus próprios bancos de desenvolvimento, como o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, e a negociar em moedas locais, isso não é “destruir a ordem liberal” — é a periferia tentando, pela primeira vez em 500 anos, sentar à mesa com algum poder de barganha. Quem acha isso ruim, Ricardo, geralmente é porque se beneficiava da mesa velha.
E, por fim, para a Ana Rodrigues e o Jeferson da Silva, que trazem a realidade do chão de fábrica e do aplicativo: vocês têm toda razão. Essa “nova ordem multipolar” não vai resolver automaticamente a exploração de classe. O capitalismo chinês explora operários tanto quanto o americano, e os sheiks dos Emirados vivem de trabalho escravo moderno de migrantes sul-asiáticos. A diferença é que, num mundo multipolar, o Brasil tem mais espaço para negociar sem ser estrangulado por sanções ou dívidas impagáveis. Mas a verdadeira transformação, essa sim, não virá de discursos de Putin nem de encontros de presidentes — virá quando a classe trabalhadora do Sul Global se organizar para exigir que essa nova ordem seja, de fato, mais justa para quem produz a riqueza. Até lá, ficamos entre a hegemonia ocidental decadente e uma multipolaridade ainda oligárquica. Mas, entre as duas, prefiro a que nos permite respirar um pouco mais.
Beto Engenheiro
28/04/2026
Tadeu, você tem razão sobre 2008 e a inflação, mas esse papo de “nova ordem” é conversa fiada pra vender jornal. O que realmente importa é se vão sair projetos de infraestrutura concretos disso. Enquanto não sair edital de licitação pra ferrovia ou rodovia, pode ser qualquer discurso bonito que não me tira do ceticismo.
Tadeu
28/04/2026
Ah, Ricardo, você fala como se a “ordem liberal” fosse essa maravilha. Ela que trouxe 2008, inflação global e juros nas alturas. Se o Sul Global quer sentar na mesa, que sente. Pelo menos alguém fora do G7 pode começar a falar de comércio justo em vez de tomar regra de banco central alheio.
Ricardo Menezes
28/04/2026
Mais um discurso de quem quer destruir a ordem liberal pra impor a própria tirania. Putin critica o Ocidente enquanto afunda a Rússia em corrupção e burocracia estatal. Esse tal “Sul Global” é só um clube de ditadores e estatistas que querem sugar o contribuinte. Enquanto isso, a esquerda brasileira aplaude e pede mais impostos, claro.
Jeferson da Silva
28/04/2026
Ana, você foi direto ao ponto. Enquanto esses caras debatem geopolítica de buteco, o chão de fábrica aqui no ABC já sentiu na pele o que é essa “nova ordem”: demissão em massa, terceirização e patrão querendo acabar com a convenção coletiva. Pode vir ordem multipolar, pode vir Putin, pode vir quem for – se não tiver sindicato forte e CLT valendo, o trabalhador continua sendo moeda de troca.
Ana Rodrigues
28/04/2026
Diego, você tocou num ponto que ninguém tá discutindo: enquanto o pessoal briga sobre quem é o vilão da história, o Brasil continua exportando soja e minério pelo mesmo preço de sempre. Pra nós que vivemos de aplicativo aqui em Curitiba, essa tal de “nova ordem mundial” só muda de nome, mas o custo de vida não baixa e o preço da gasolina continua nas alturas. No fim das contas, o que importa é se o arroz vai caber no bolso no fim do mês.
Diego Fernández
28/04/2026
Pois é, Karina, a hipocrisia é geral mesmo, mas o discurso do Putin não é sobre ser “moral”, é sobre constatar um fato: o domínio ocidental tá em crise porque o capitalismo financeirizado deles quebrou meio mundo. Enquanto isso, o Sul Global — incluindo o Brasil — continua pagando a conta com juros altos e FMI. Se a alternativa é uma ordem multipolar, que venha, porque a unipolar já nos mostrou o que é: golpe, guerra e austeridade.
Karina Libertária
28/04/2026
Gente, mas que surpresa: o Putin criticando o Ocidente. Ele que invadiu a Ucrânia, destruiu cidades e agora vem falar de “nova ordem mundial” como se fosse um líder moral. E esse papo de Sul Global é só cortina de fumaça pra regimes autoritários se unirem contra democracias liberais. Quem defende isso claramente nunca precisou investir em mercado de verdade ou depender de instituições sérias pra proteger patrimônio.
Evelyn Olavo
28/04/2026
Mateus, você foi cirúrgico. O problema não é a multipolaridade, é a hipocrisia de achar que o Ocidente é uma entidade moral superior. Enquanto isso, o Brasil continua sendo tratado como colônia exportadora de commodities, e aí o Sul Global vira ameaça. Mas, convenhamos, Putin de salvador da pátria também não cola — ele só quer um mundo onde a Rússia mande em vez dos EUA.
Marta
28/04/2026
Evelyn, minha filha, você acertou em cheio ao desmascarar essa hipocrisia do “Ocidente moralmente superior”. Vou além: essa tal “ordem baseada em regras” que eles tanto defendem é a mesma que autorizou invasões no Iraque com base em mentiras sobre armas de destruição em massa, que bombardeou a Líbia até virar um caos e que até hoje mantém sanções criminosas contra Cuba e Venezuela. Quando são os Estados Unidos ou a Otan fazendo isso, é “exportação da democracia”. Quando a Rússia age, é “violação do direito internacional”. Meninos mal-educados, todos eles.
Mas você também tem toda razão ao dizer que Putin não é nenhum salvador da pátria. Ele é um nacionalista russo que age pelos interesses do Kremlin, assim como os outros. A diferença é que, no mundo multipolar que está nascendo, não precisamos escolher entre ser capacho de Washington ou de Moscou. O Brasil pode — e deve — construir sua própria rota. O que o Sul Global está dizendo, e que esses liberais de butique não entendem, é que não aceitamos mais ser peões no tabuleiro alheio. Queremos sentar à mesa, não ser o jantar.
E olha, sobre o Brasil continuar exportando soja e minério enquanto importa tecnologia: isso não é culpa do Putin nem do Brics. É culpa de décadas de elite entreguista que acha que nosso destino é ser fazenda do mundo. O Brics, com seu Novo Banco de Desenvolvimento, ao menos tenta criar alternativas ao FMI que nos sufoca com juros. Não é perfeito, mas é melhor do que ficar de joelhos esperando o “mercado” nos salvar. Se dependesse dos meninos do Roberto Lima, estaríamos até hoje vendendo pau-brasil pra Portugal.
Roberto Lima
28/04/2026
Caio, com todo respeito à sua erudição, mas esse papo de “nova ordem multipolar” é só um jeito bonito de dizer que o Putin quer enfraquecer os Estados Unidos pra aumentar o poder dele. O Ocidente tem defeitos, mas defende liberdade individual e mercado. O Sul Global que ele exalta é cheio de regimes que prendem empresário e fecham a economia. Enquanto isso, quem paga a conta é o agro brasileiro, que depende de exportação e de regras claras, não de discurso de ditador.
Mateus Silva
28/04/2026
Roberto, você acertou ao apontar que a agenda do agro depende de regras previsíveis, mas erra ao reduzir a multipolaridade a um capricho de Putin. A hegemonia ocidental não é uma abstração: é o mesmo sistema que impõe barreiras tarifárias ao etanol brasileiro enquanto subsidia seus próprios produtores. O problema não é questionar a ordem, é achar que o status quo nos defende.
Caio Vieira
28/04/2026
Prezados João Santos, Marcos Andrade Niterói e demais interlocutores desta fecunda arena dialética,
Permito-me adentrar esta discussão com a perspectiva de quem, há décadas, observa as metamorfoses da geopolítica mundial a partir dos trópicos. A fala de Vladimir Putin, longe de ser um mero exercício retórico de um estadista em crise, deve ser lida como um sintoma estrutural daquilo que Antonio Gramsci denominaria “crise de hegemonia”. O Ocidente, enquanto bloco histórico forjado no pós-Guerra Fria, já não consegue mais articular seus interesses particulares como universais — eis o cerne da questão. O Sul Global, categoria polissêmica que abriga desde a China desenvolvimentista até o Brasil de nossa mineiridade contraditória, não é um mero “outro” passivo, mas um campo de disputa onde se forjam novas correlações de forças. Ignorar essa movimentação tectônica é condenar-se a uma leitura provinciana da história, como se o mundo ainda girasse exclusivamente em torno do eixo Washington-Londres.
João Santos, seu ímpeto justiceiro é compreensível e, em certa medida, legítimo. A invasão da Ucrânia é, de fato, uma violação flagrante do direito internacional, e não se trata aqui de fazer apologia a regimes autoritários. Contudo, permito-me sugerir que a crítica moral, embora necessária, é insuficiente para apreender a totalidade do fenômeno. Reduzir Putin a um mero “bandido” é operar no mesmo maniqueísmo que o Ocidente sempre utilizou para justificar suas próprias intervenções — do Iraque à Líbia, passando pelas sucessivas ingerências na América Latina. A questão não é escolher entre “bandidos” de diferentes matizes, mas compreender como a arquitetura de poder global, hegemonizada por décadas por um punhado de nações, está ruindo sob o peso de suas próprias contradições. O Sul Global não é uma “cortina de fumaça”; é a expressão concreta de que o capitalismo, em sua fase financeirizada, já não consegue mais reproduzir a velha divisão internacional do trabalho sem gerar crises sistêmicas.
Marcos Andrade Niterói, você tocou num ponto nevrálgico ao mencionar o túnel Charitas-Cafubá. É exatamente aí que reside a dialética do desenvolvimento periférico. A cooperação Sul-Sul, quando pautada por planejamento estratégico e soberania popular, pode sim gerar infraestrutura que melhore a vida do povo — como a expansão do metrô ou a mobilidade urbana em Niterói. O problema é quando essa cooperação se transforma em mera transferência de tecnologia sem contrapartidas sociais, ou quando o Estado brasileiro, refém de uma elite rentista, utiliza esses acordos para alimentar o velho patrimonialismo. A crítica de Paulo Gestor RJ e Carlos Meirelles ao custo fiscal é pertinente, mas precisa ser qualificada: o gasto público não é intrinsecamente mau; o que corrompe é sua captura por interesses privados. A questão, meus caros, é forjar um projeto nacional-popular que articule desenvolvimento com distribuição de renda, e que saiba navegar as águas turvas da multipolaridade sem se deixar engolir por nenhum dos polos.
Por fim, permito-me uma provocação aos que veem no discurso de Putin apenas cinismo. Sim, há cinismo — como há em todo ator estatal. Mas o cinismo de Putin é sintoma de uma verdade mais profunda: a de que o Ocidente, ao longo dos últimos trinta anos, quebrou todos os seus próprios contratos sociais e geopolíticos. Da expansão da OTAN para leste, em clara violação a promessas feitas a Gorbatchov, ao golpe de 2014 na Ucrânia, passando pela pilhagem dos recursos africanos sob a bandeira da “democracia” — o establishment atlântico cavou sua própria crise de legitimidade. O Sul Global, com todas as suas contradições, é o terreno onde essa crise se explicita. Cabe a nós, intelectuais orgânicos do povo brasileiro, não nos contentarmos com a mera denúncia moral, mas oferecermos uma leitura materialista e solidária das lutas que emergem nesse novo cenário. Afinal, como diria o velho Marx, a história se repete — a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Que não sejamos meros espectadores dessa farsa, mas protagonistas de uma verdadeira emancipação.
João Santos
28/04/2026
Pois é, Marcos, mas enquanto o túnel Charitas-Cafubá sai, o Brasil fica fazendo média com ditador que invade país vizinho. Bandido bom é bandido preso, seja de fuzil ou de discurso bonito no Brics. Esse papo de Sul Global é só cortina de fumaça pra continuar roubando e desviando atenção do que importa: segurança e emprego aqui dentro.
Marcos Andrade Niterói
28/04/2026
Carlos, você tá certíssimo em desconfiar do custo, mas o erro é tratar toda cooperação Sul-Sul como gasto improdutivo. O túnel Charitas-Cafubá e a defesa do metrô subaquático aqui em Niterói mostram que planejamento sério e parcerias inteligentes geram resultado. O problema não é o Brics, é o governo estadual do Rio que larga a infraestrutura às traças enquanto lambe botas de Washington.
Carlos Meirelles
28/04/2026
Paulo Gestor RJ, você falou o que ninguém quer ouvir: a conta vai bater no bolso de quem trabalha. Esse discurso de “nova ordem multipolar” é bonito no palanque do Brics, mas na prática significa mais subsídios para estatais ineficientes e menos abertura comercial para o Brasil. Enquanto isso, o agro brasileiro perde mercado para a Rússia nos fertilizantes e para a China no minério – e quem paga o pato é o contribuinte que financia essa diplomacia de palanque.
Paulo Gestor RJ
28/04/2026
Bia Carioca, você resumiu bem. O Sul Global precisa de uma agenda própria, não de um novo patrão com sotaque diferente. Enquanto isso, fico aqui pensando na conta que vai chegar para o contribuinte brasileiro se a gente embarcar nessa dança sem calcular direito o custo.
Bia Carioca
28/04/2026
Dr. Thiago, você levantou o ponto mais incômodo e necessário dessa thread. O discurso anti-imperialista de Putin é um instrumento de política externa, não uma convicção democrática. O Sul Global precisa construir sua própria agenda multipolar, não se contentar em trocar de patrão.
Dr. Thiago Menezes
28/04/2026
John Marshall, você acertou em cheio. A tal “multipolaridade” de Putin é seletiva: vale para questionar a OTAN, mas não para justificar a anexação da Crimeia ou a invasão da Ucrânia. O discurso anti-hegemônico vira conveniente cortina de fumaça quando o próprio agressor é uma potência nuclear com ambições imperiais.
John Marshall
28/04/2026
Cecília, você tocou no ponto central. A multipolaridade que Putin defende é um oxímoro prático: ele quer um mundo com vários polos de poder, mas administrado por autocracias que veem a soberania como prerrogativa do mais forte. A ironia maior é que o Ocidente, com todos os seus defeitos, ao menos oferece um léxico de direitos e instituições que permitem criticá-lo. O Sul Global precisa construir algo melhor, não apenas um clube de déspotas reunidos em torno de ressentimentos comuns.
Cecília Torres
28/04/2026
O discurso de Putin sobre o fim da hegemonia ocidental é factualmente preciso se olharmos para indicadores econômicos — o PIB combinado dos Brics já supera o do G7 em paridade de poder de compra. Mas a ironia é que ele fala isso enquanto sua economia depende cada vez mais de exportações de energia e armamentos, e a Rússia perdeu influência real no Leste Europeu. Multipolaridade de verdade exige mais do que discursos no palanque.
Eduardo C.
28/04/2026
João Silva, você trouxe o equilíbrio que faltava na thread. O problema não é criticar a hegemonia ocidental, mas achar que qualquer alternativa é automaticamente virtuosa. Putin quer multipolaridade do jeito dele, que é substituir uma hierarquia por outra. O Brasil precisa aprender a jogar esse jogo sem se curvar a ninguém.
Zé Trovãozinho
28/04/2026
Maura Santos, você foi a única aqui que falou sem hipocrisia. O Ocidente perdeu completamente a autoridade moral para dar lição depois de décadas de bombardeio no Oriente Médio e golpes na América Latina. Se o Sul Global quer sentar na mesa, é legítimo — e o Brasil deveria estar nessa conversa, não de joelhos pros EUA.
João Silva
28/04/2026
Zé Trovãozinho, concordo que a hipocrisia ocidental é um fato histórico inegável, mas cuidado pra não cair no ufanismo acrítico: sentar na mesa do Sul Global é legítimo sim, desde que a gente não troque a subserviência a Washington por um alinhamento automático a Moscou ou Pequim — consciência de classe não pode virar passaporte pra novo colonialismo.
Maura Santos
28/04/2026
Putin falando de “nova ordem multipolar” é a mesma ladainha de sempre, mas ele não está errado sobre o declínio da hegemonia ocidental. Enquanto isso, a extrema-direita daqui fica de joelhos pros EUA e esquece que o Sul Global pode ser nosso maior aliado comercial e diplomático. Se fosse um governo Lula articulando essa parceria, já estariam chamando de “comunismo”, mas os Emirados são capitalistas e tão lá de boa com o Putin.
Fernando O.
28/04/2026
Cíntia, você tocou no ponto central: a seletividade é o grande problema. Putin critica a hegemonia ocidental enquanto esmaga a Ucrânia e prende opositores internos. Mas a real questão é que o Sul Global não é um bloco coeso de virtudes — tem autocracias, democracias frágeis e potências regionais com agendas próprias. A multipolaridade que ele vende é na verdade um mundo onde cada grande peixe quer seu próprio aquário para nadar sem ser incomodado.
Paula Santos
28/04/2026
Cíntia, você tem razão em apontar essa seletividade. Como cristã, acredito que não podemos aceitar discursos de poder de lugar nenhum — nem do Ocidente, nem de Putin. A verdadeira justiça não se constrói trocando um dominador por outro, mas buscando diálogo e respeito entre as nações, sem hipocrisia.
Cíntia Ribeiro
28/04/2026
Cecília, você equilibrou bem os dois lados. O problema é que essa crítica seletiva à hegemonia ocidental sempre serve de álibi para regimes que não toleram oposição interna. Putin fala em multipolaridade, mas na prática quer um mundo onde cada autocracia tenha seu quintal para reprimir sem ser questionada. O Sul Global que ele exalta não é o dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada, é o das elites extrativistas que trocam soberania energética por silêncio diplomático.
Cecília Silva
28/04/2026
Marina Costa, você foi certeira num ponto mas errou feio no outro. Sim, Putin é autoritário e a invasão da Ucrânia é criminosa, isso é fato. Mas reduzir o debate sobre hegemonia ocidental a “ditador dando lição de moral” é um desserviço. Enquanto você defende o status quo, são os países do Sul Global que continuam sendo bombardeados, invadidos e saqueados há séculos pelos mesmos que agora se dizem “defensores da democracia”. A esquerda brasileira não aplaude Putin, a esquerda brasileira aplaude a possibilidade de um mundo onde o Brasil não precise se ajoelhar pra ninguém.
Marta Souza
28/04/2026
Esse discurso de “nova ordem mundial” vindo do Putin é puro teatro para quem quer acreditar. Enquanto ele critica o Ocidente, a Rússia mantém um dos maiores aparelhos estatais de controle econômico do planeta, com monopólios de energia e intervenção pesada em todos os setores. Se o Sul Global quer realmente ascender, que comece baixando impostos e abrindo mercados, não repetindo o mesmo estatismo que já afundou meio mundo.
Mariana Oliveira
28/04/2026
Marta, seu comentário joga uma luz necessária sobre o cinismo geopolítico, mas a conclusão que você tira — de que a saída é baixar impostos e abrir mercados — me parece um desvio de rota que ignora a estrutura do problema. Você tem razão em apontar que o discurso de Putin contra a hegemonia ocidental soa vazio quando contrastado com o capitalismo de Estado russo, um modelo que concentra poder nas mãos de uma elite estatal-empresarial e sufoca a dissidência. Mas reduzir a crítica a uma defesa do livre-mercado como antídoto universal é repetir a mesma armadilha que Kimberlé Crenshaw, ao formular a interseccionalidade, nos ensinou a evitar: a de tratar sistemas de opressão como fenômenos isolados. A hegemonia ocidental não é apenas um conjunto de políticas econômicas liberais — é um projeto histórico de dominação racial, colonial e de gênero que moldou as regras do jogo global para beneficiar um punhado de nações. Quando você propõe “abrir mercados” como solução, está pedindo que o Sul Global aceite as mesmas regras que o Ocidente impôs via Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, regras que, como bell hooks denunciou, operam dentro de uma lógica patriarcal e racista de exploração. O problema não é o estatismo ou o liberalismo em si, mas quem controla os recursos e para quem.
A Rússia de Putin, de fato, não representa uma alternativa emancipatória — é um projeto autoritário que usa a crítica ao Ocidente para mascarar seu próprio imperialismo sobre nações como a Ucrânia, a Chechênia e a Geórgia. Mas a saída não é, como você sugere, simplesmente adotar o receituário neoliberal que já provou seu fracasso em aprofundar desigualdades no Brasil, na Argentina e na África. O Sul Global precisa de uma nova ordem que não seja nem a do capitalismo predatório ocidental nem a do autoritarismo estatal russo. Isso exige repensar a soberania econômica, o controle dos recursos naturais e a distribuição de poder de forma interseccional — considerando como raça, classe e gênero se entrelaçam nas cadeias globais de exploração. Baixar impostos e abrir mercados sem regular o capital transnacional é entregar o Sul Global de bandeja para as mesmas corporações que lucram com a guerra e com a extração de recursos em países periféricos. A crítica ao discurso de Putin é justa, mas a solução não está em voltar ao manual do Consenso de Washington. Está em construir alternativas que partam das necessidades das maiorias racializadas e empobrecidas, não dos interesses das elites — sejam elas russas, americanas ou brasileiras.
Carlos Oliveira
28/04/2026
Pois é, Lucas Alves, você tocou no ponto. O discurso do Putin contra hegemonia ocidental tem fundo de verdade sim, mas quando ele invade a Ucrânia e faz o mesmo jogo de poder que critica, fica difícil engolir. A gente precisa de uma esquerda que critique os dois lados com a mesma régua, não que escolha um tirano pra chamar de aliado. No fim do dia, quem se fode é o povo pobre de ambos os lados, enquanto os chefões sentam pra negociar gás e petróleo.
Marina Costa
28/04/2026
Ah, mas que surpresa, um ditador que oprime igrejas, persegue cristãos e mata inocentes na Ucrânia agora quer dar lição de moral no Ocidente. A esquerda brasileira adora aplaudir esse discurso contra o “imperialismo americano”, mas esquece que o regime de Putin é tão corrupto e autoritário quanto qualquer um que eles condenam. Enquanto isso, o Brasil precisa lembrar que nossa aliança deve ser com valores cristãos e liberdade, não com tiranos que usam o gás como arma.
Paulo Ribeiro
28/04/2026
Marina Costa, seu comentário levanta questões reais, mas as enquadra numa moldura ideológica que precisa ser desmontada. Você diz que a esquerda brasileira aplaude Putin enquanto ignora seu autoritarismo. Discordo frontalmente: a esquerda que se pretende crítica, a que bebe em Gramsci e Mariátegui, jamais romantiza regimes burgueses — sejam eles ocidentais ou orientais. Putin é um oligarca nacionalista, um capitalista de Estado que usa o discurso anti-imperialista como tática geopolítica, não como projeto de emancipação. O que vemos na Ucrânia não é uma guerra de libertação, mas uma disputa interimperialista por zonas de influência, exatamente como Lênin descreveu em “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”. A diferença é que, enquanto a OTAN expande suas bases sob o manto da “democracia”, Moscou reage com a brutalidade típica de um capitalismo periférico que tenta se afirmar como potência. Nenhum dos dois lados representa os trabalhadores.
Quanto à sua defesa dos “valores cristãos e da liberdade”, precisamos historicizar esse discurso. A mesma “liberdade” que você invoca é a que justificou o golpe de 2016 no Brasil, a que fecha igrejas evangélicas na Nicarágua enquanto financia ditaduras no Oriente Médio quando convém ao petróleo. O cristianismo que você defende, Marina, é o mesmo que abençoou a escravidão, a Inquisição e o genocídio indígena nas Américas. Não estou dizendo que a fé em si seja corrupta — longe de mim, como materialista histórico, desrespeitar a crença alheia —, mas sim que a religião institucionalizada sempre serviu de aparelho ideológico do Estado, como Althusser demonstrou. Quando você coloca a Rússia como “perseguidora de cristãos”, esquece que a Igreja Ortodoxa Russa é um dos pilares do regime de Putin, abençoando suas guerras e perseguindo minorias religiosas em nome de um “mundo russo” tão reacionário quanto qualquer fundamentalismo ocidental.
O cerne do problema é outro: você reduz a política a uma escolha entre dois males, um “Ocidente democrata-cristão” e um “Oriente autoritário”, quando a realidade concreta é a luta de classes. O Sul Global não está ascendendo para repetir o mesmo modelo predatório do Norte; está tentando — com todas as contradições, com todos os erros — construir uma alternativa à hegemonia que nos condena à periferia. O Brasil não precisa escolher entre ser satélite dos EUA ou vassalo da Rússia. Precisa, como diria Florestan Fernandes, romper com o subdesenvolvimento através de uma revolução democrática que coloque o povo no centro. Enquanto isso, criticar Putin é obrigação de qualquer esquerdista que se preze — mas criticá-lo com o mesmo fôlego com que criticamos Biden, Lula quando trai a classe trabalhadora, e a nossa própria burguesia nacional. Essa é a diferença entre um pensamento crítico e um mero anticomunismo travestido de defesa da liberdade.
Lucas Alves
28/04/2026
Cíntia, é exatamente essa contradição que me faz torcer o olho quando o pessoal da esquerda romantiza o Putin. O cara critica a hegemonia ocidental com uma das maiores reservas de gás do mundo nas costas e invade um país vizinho sob pretextos que qualquer aluno de primeiro semestre de economia desmonta em cinco minutos. Sul Global crescendo é fato, mas transformar autocracia em alternativa moral é piada de mau gosto.
Cíntia Alves
28/04/2026
Pois é, Mariana Lopes, você resumiu bem a dinâmica tóxica dessa thread. O Putin critica a hegemonia ocidental enquanto faz na Ucrânia exatamente o que condena nos EUA no Oriente Médio. Difícil levar a sério esse discurso de “nova ordem” quando vem de quem invade vizinhos e sufoca opositores em casa.
Cristina Rocha
28/04/2026
Cristina, 60, SP:
João Batista, você citou a Bíblia e tocou num ponto que me interessa profundamente como filósofa: a questão da origem do poder. Sim, tanto a ordem unipolar quanto a multipolar carregam as marcas de Caim, como você disse. Mas precisamos ir além da metáfora teológica e perguntar: o que exatamente estamos comparando? A hegemonia ocidental, que desde o século XVI opera com uma lógica colonial-patriarcal de extração de recursos e imposição cultural, não é a mesma coisa que a reação russa a essa hegemonia. Putin não é um salvador, longe disso — seu regime é oligárquico, nacionalista e militarista. Mas quando ele aponta que o Ocidente está perdendo o monopólio da narrativa, ele está descrevendo um fato material: a ascensão do Sul Global não é um favor de Moscou, é o resultado de décadas de lutas anticoloniais, do crescimento da China, da Índia, do Brasil, da África do Sul.
Mariana Lopes tem razão ao pedir que não transformemos isso em ringue de torcida. O problema é que, na esquerda brasileira, temos uma dificuldade histórica de fazer críticas simultâneas. Ou a gente abraça o Putin como anti-imperialista e engole a guerra na Ucrânia e a repressão interna, ou a gente abraça o Ocidente liberal e esquece que os mesmos países que condenam a Rússia são os que financiam o genocídio em Gaza e mantêm embargo contra Cuba há seis décadas. Isso não é dualismo, é materialismo dialético: precisamos analisar as contradições de cada polo de poder sem cair no maniqueísmo.
Tiago Mendes, você está certo ao lembrar dos relatórios da ONU sobre a Ucrânia. Mas me permita um desconforto: por que tantos progressistas brasileiros só lembram do direito internacional quando é contra a Rússia, mas ficam mudos quando a OTAN bombardeia a Sérvia em 1999, ou quando os EUA invadem o Iraque em 2003? A seletividade moral é o maior inimigo de uma análise coerente. O direito internacional foi criado pelas potências vencedoras de 1945 para servir a seus interesses — usá-lo como régua universal sem questionar sua origem é, no mínimo, ingenuidade política.
Lucas Gomes, você fez uma ponderação importante sobre a hipocrisia de criticar o imperialismo de Putin enquanto se silencia sobre a exploração ocidental na Amazônia. Mas discordo quando você sugere que a saída é ficar refém do mesmo Ocidente. A saída não é escolher entre dois imperialismos. A saída é construir uma terceira via: a autonomia dos povos do Sul Global, com soberania alimentar, energética e tecnológica. Isso significa não apoiar nem a hegemonia ocidental nem a versão russa dela. Significa apoiar os movimentos sociais na Ucrânia que lutam contra a invasão russa e contra o domínio da OTAN. Significa apoiar o povo palestino contra o genocídio sionista e criticar a autocracia de Putin. A esquerda brasileira precisa superar essa infância política de achar que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Não é. O mundo é mais complexo que uma partida de futebol entre EUA e Rússia.
João Batista
28/04/2026
Mariana Lopes, você tocou no ponto certo. A Bíblia já nos ensina que “nenhum reino dividido contra si mesmo subsistirá” — tanto o Ocidente unipolar quanto essa tal “nova ordem” do Putin carregam as mesmas marcas de Caim: sangue de inocentes e exploração dos pequenos. O Sul Global precisa de justiça, não de novos senhores.
Mariana Lopes
28/04/2026
Tiago, você está certo em cobrar coerência, mas a thread já mostra como esse debate virou ringue de torcida organizada. De um lado, quem trata o Putin como salvador da pátria; do outro, quem acha que o Ocidente é imaculado. A real é que o Sul Global existe e cresce sim, mas isso não significa que todo líder que fala contra o Ocidente seja automaticamente nosso aliado. O pragmatismo exige que a gente olhe caso a caso, sem coreografia ideológica.
Eduardo Nogueira
28/04/2026
Lucas Gomes, o “genocídio” que você menciona é invenção de think tank esquerdista. Putin pelo menos não queima bandeira do Brasil na cara dura. O Sul Global é só um nome bonito pra quem quer mandar os EUA pastar.
Tiago Mendes
28/04/2026
Eduardo, com todo respeito, mas reduzir o genocídio palestino a “invenção de think tank” é negar os relatórios da ONU, Anistia Internacional e até da própria Corte Internacional de Justiça. E sobre não queimar bandeira: o que Putin faz na Ucrânia com bombardeios a hospitais e escolas não é menos grave que um gesto simbólico — a diferença é que um a gente vê na TV, o outro a gente finge que não existe.
Silvia Ramos
28/04/2026
Nadia, você acertou em cheio. Essa tal “nova ordem multipolar” que o Putin apregoa é só mais uma desculpa para regimes que pisam na liberdade religiosa e perseguem cristãos enquanto fingem que são defensores dos “valores tradicionais”. O Brasil não precisa trocar um imperialismo por outro, ainda mais vindo de quem trata a família como peça de xadrez.
Lucas Gomes
28/04/2026
Silvia, você tem razão ao denunciar a hipocrisia, mas o erro é achar que a saída é ficar refém do mesmo Ocidente que financia o desmatamento na Amazônia e explora nossos recursos — a crítica ao imperialismo de Putin não pode vir acompanhada de um silêncio cúmplice sobre o genocídio climático que o capitalismo ocidental impõe ao Sul Global.
Nadia Petrova
28/04/2026
Fernanda, você resumiu bem o paradoxo: o “Sul Global” do Putin é um clube onde cabem desde monarquias do Golfo até a China, unidos pelo ressentimento, não por valores. O engraçado é ver gente aqui no Brasil comemorando essa “nova ordem” como se fosse uma vitória contra o imperialismo, quando na prática é só a troca de um centro hegemônico por outro, igualmente autoritário e bem menos interessado em direitos humanos.
Fernanda Oliveira
28/04/2026
Lucas Pinto, você tocou no ponto central que os outros ignoraram: o tal “Sul Global” de Putin é um guarda-chuva que abriga desde autocracias teocráticas até democracias falhas, unidas só pela insatisfação com a ordem vigente. Chamar isso de “valores” é generoso demais – é mais um realinhamento de poder bruto, com cada um puxando a brasa pro próprio assado.
Marcus Almeida
28/04/2026
João Carvalho, você até tenta soar ponderado, mas cai na mesma armadilha de sempre: reduzir a geopolítica a um jogo de xadrez sem alma. O Sul Global que Putin defende não é só sobre poder econômico, é sobre valores. Enquanto a esquerda brasileira abraça regimes que perseguem cristãos e destroem a família, o Ocidente que você critica ao menos preservou, por séculos, a base judaico-cristã da nossa civilização. O problema não é o declínio do Ocidente, é o Ocidente ter abandonado a Deus.
Lucas Pinto
28/04/2026
Marcus Almeida, seu comentário levanta um ponto que merece ser levado a sério, mas acho que você inverte a seta da crítica. Você diz que o Sul Global que Putin defende é sobre “valores” e que o problema é o Ocidente ter abandonado Deus. Só que a categoria “valores” nunca é neutra — ela opera como um dispositivo de poder. Quando você fala em “base judaico-cristã da civilização”, está invocando um bloco histórico que Gramsci chamaria de hegemonia cultural: um conjunto de crenças que serviu para naturalizar a exploração colonial, a escravidão e a acumulação primitiva do capital. Não é que o Ocidente “abandonou” Deus; é que a própria ideia de um Deus ocidental foi instrumentalizada para justificar a dominação. Putin, ao criticar essa hegemonia, não está defendendo uma “civilização cristã” alternativa — ele está explorando a contradição entre a retórica liberal dos valores universais e a prática imperialista.
O problema central é que você trata “valores” como se fossem uma essência atemporal, quando na verdade são disputados materialmente. O tal “Ocidente” que preservou a base judaico-cristã também queimou hereges, colonizou a América e bombardeou o Oriente Médio em nome da democracia. A esquerda brasileira que você critica não “abraça regimes que perseguem cristãos” — ela, quando coerente, denuncia a perseguição a qualquer grupo religioso ou étnico, inclusive cristãos, mas sem fetichizar uma suposta “civilização” que sempre tratou o Sul Global como reserva de recursos. O Sul Global que Putin descreve não é um clube de valores morais; é um bloco de países que perceberam que o discurso ocidental de “liberdade e família” sempre foi seletivo, aplicado com sanções e bombas quando convém.
Você termina dizendo que o problema é o Ocidente ter abandonado Deus. Discordo profundamente: o problema é que Deus, no Ocidente, nunca foi mais que um instrumento de dominação de classe e de império. O que Putin aponta é justamente o esgotamento desse modelo — não porque ele seja “tradicionalista”, mas porque o capitalismo ocidental, em sua fase neoliberal, já não precisa mais de Deus para se legitimar; ele se legitima pelo consumo, pela dívida e pela guerra híbrida. Se você quer defender valores, comece perguntando: de quem são os valores que realmente importam na hora de decidir quem vive e quem morre na Faixa de Gaza, no Iêmen ou no Congo? Aí você vai ver que o “Ocidente cristão” sempre teve duas caras — uma para a oração e outra para o fuzil.
João Carvalho
28/04/2026
Helton, discordo com todo respeito: chamar de “globalista” qualquer crítica que vem do Sul Global é um atalho raso. O que Putin descreve não é uma conspiração moral contra a família, mas um dado objetivo das relações internacionais — o declínio relativo do poder ocidental e a emergência de novos polos econômicos e políticos. Ignorar isso em nome de uma guerra cultural só enfraquece o debate sério sobre soberania e desenvolvimento.
Helton Barros
28/04/2026
Marina Santos, a senhora ainda acredita nesse papo de que Bolsonaro era aliado dos EUA? Ele foi o presidente que mais enfrentou a imprensa globalista e defendeu a família tradicional. Enquanto isso, o Lula beija a mão de ditadores e ainda solta bandido pra destruir nosso país. O Sul Global que Putin fala é o mesmo que o PT quer implantar aqui: um socialismo disfarçado de soberania.
Sargento Bruno
28/04/2026
Mariana Santos, você está certa sobre o capital financeiro, mas erra o alvo quando defende Lula. O Sul Global que Putin descreve é o mesmo que o PT abraçou enquanto vendia a Petrobras e entregava o pré-sal para estrangeiros. Enquanto isso, Bolsonaro ao menos enfrentava abertamente essa cartelização globalista e defendia nossos valores. Putin tem razão sobre a decadência ocidental, mas quem realmente resiste ao globalismo hoje é a direita patriota, não a esquerda que se alia a regimes teocráticos e socialistas.
Marina Silva
28/04/2026
Sargento Bruno, me explica como um presidente que chamou ditadura de “direita” e deu beijo em bandeira dos EUA é “resistência ao globalismo”?
João Batista Alves
28/04/2026
Rubens, meu filho, você tem toda razão em lembrar que discurso de soberania não enche barriga. Mas o problema é que o “respeito internacional” que você cita veio com um custo moral altíssimo: alianças com ditaduras e uma esquerda que ataca a família e a igreja. Prefiro um Brasil que se afaste dessa nova ordem globalista, mesmo que isso signifique menos “protagonismo”, do que ver nossos valores serem trocados por acordos comerciais com quem persegue cristãos.
Francisco de Assis
28/04/2026
João Batista, com todo respeito, mas esse papo de “ataque à família e à igreja” é o mesmo discurso que a direita usou pra eleger o Bolsonaro e entregar o Brasil de bandeja pro mercado. O Lula fez mais pelos pobres e pela soberania nacional do que qualquer governo que persegue minoria em nome de Deus.
Mariana Santos
28/04/2026
João Batista, essa narrativa de “ataque à família e à igreja” é o mesmo espantalho que a direita usa para nos fazer esquecer que o verdadeiro “globalismo” é o capital financeiro que exporta empregos e precariza a vida do trabalhador brasileiro — enquanto a China e a Rússia, por piores que sejam em seus regimes internos, ao menos não nos impõem a agenda de austeridade do FMI.
Maria Antonia
28/04/2026
Putin tem toda razão. O tal “Ocidente” acha que pode ditar regras pra todo mundo, mas o mercado e a realidade estão mostrando que o poder está se descentralizando. Quanto menos intervencionismo de potências falidas, melhor para a liberdade econômica e a soberania dos países emergentes.
Maria Aparecida
28/04/2026
Maria Antonia, amiga, concordo com a crítica à arrogância ocidental, mas cuidado: essa descentralização de poder que você comemora muitas vezes só troca um imperialismo por outro, e o povo pobre continua pagando a conta. Liberdade econômica sem justiça social é só licença pra explorar.
Clarice Historiadora
28/04/2026
Maria Antonia, você está certa na crítica à arrogância ocidental, mas discordo quando trata Putin como arauto da liberdade econômica. O modelo russo é um capitalismo de Estado oligárquico, onde a soberania nacional serve para blindar a corrupção e a repressão interna — não exatamente o paraíso da livre iniciativa que você imagina.
Rubens O Pescador
28/04/2026
Maria Antonia, lá na roça a gente aprendeu que discurso bonito de soberania não enche barriga. Nos anos Lula, o povo simples tinha o que botar no prato e o Brasil era respeitado sem precisar bajular ninguém — isso sim é descentralização de verdade, não essa conversa de mercado que só troca seis por meia dúzia.
Márcio Torres
28/04/2026
Maria Antonia, você toca num ponto central, mas acho que a análise precisa de uma camada extra de ceticismo — não contra sua crítica ao Ocidente, que é legítima, mas contra a idealização do “mercado” como força descentralizadora. O que vemos na prática não é o mercado livre pulverizando poder, e sim a substituição de um centro hegemônico (EUA/União Europeia) por uma concorrência entre oligopólios estatais e corporativos. A Rússia de Putin não é exatamente um exemplo de soberania econômica para países emergentes; é um modelo onde o Estado capturou os recursos estratégicos e os redistribui entre uma elite leal, enquanto a população arca com inflação e repressão política. A descentralização que você menciona beneficia, sim, alguns atores do Sul Global — mas frequentemente às custas de mais desigualdade interna e menos transparência.
O discurso contra o “intervencionismo ocidental” é sedutor e tem fundamento histórico, mas ele ignora que a Rússia também intervém — na Ucrânia, na Síria, na África via Grupo Wagner. A diferença é que a intervenção russa não vem com discurso de “direitos humanos” ou “democracia”, e sim com pragmatismo cru. Isso não é necessariamente melhor para a liberdade econômica dos países emergentes; é apenas um imperialismo menos hipócrita, o que não deixa de ser imperialismo. A soberania que Putin defende é a soberania do Estado russo sobre seus vizinhos e sobre sua própria população — não uma soberania compartilhada que fortaleça instituições multilaterais ou proteja os mais fracos.
O mercado, por sua vez, não tem agenda política, mas reage a incentivos. Se o poder se descentraliza, é porque os custos de manter a hegemonia ocidental aumentaram, não porque haja uma virtude moral nesse processo. Países como China, Índia e Brasil ganham espaço, mas cada um carrega suas próprias contradições — autoritarismo tecnológico, nacionalismo hindu, dependência de commodities. A liberdade econômica que você defende, se for apenas a ausência de intervenção ocidental, pode se traduzir em mais exploração local, mais corrupção e menos proteções trabalhistas. O ponto não é defender o Ocidente, que tem um histórico pavoroso de hipocrisia, mas sim evitar o erro de achar que o fim de uma hegemonia automaticamente gera um mundo mais justo. A história mostra que transições de poder costumam ser sangrentas e caóticas — e os pobres, como a Maria Aparecida lembrou, seguem sendo os primeiros a pagar a conta.