Nova lei agrícola avança no Congresso, mas especialistas apontam falhas diante da crise estrutural no campo americano
A agricultura dos Estados Unidos enfrenta um momento de profunda incerteza. Enquanto os corredores do Congresso em Washington se perdem em debates cíclicos, o coração produtivo do país sofre com uma erosão que vai além da terra. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou uma nova lei agrícola que agora tramita no Senado. No entanto, especialistas e produtores alertam que o texto falha ao não encarar o declínio sistêmico do setor.
A agricultura americana está em crise e, infelizmente, resolver esse problema exigirá muito mais do que a nova lei agrícola pode oferecer.
Historicamente, o debate sobre a “Farm Bill” — que ocorre a cada cinco anos — foca em divisões partidárias previsíveis. De um lado, os democratas pressionam por maior assistência alimentar; do outro, os republicanos buscam cortes nesses programas enquanto defendem subsídios robustos.
Todavia, essa polarização mascara uma realidade incômoda: o modelo atual prioriza grandes corporações e monoculturas em detrimento da segurança alimentar nacional e da sustentabilidade do pequeno produtor.
À primeira vista, os números da produção americana impressionam qualquer observador. Os Estados Unidos ocupam o posto de terceiro maior produtor agrícola global e a segunda posição em exportações.
Entretanto, essa pujança esconde uma especialização perigosa. O sistema concentra-se massivamente em culturas comerciais, como milho e soja, voltadas para combustíveis, ração animal e mercados externos.
Enquanto os silos transbordam de grãos para exportação, as mesas americanas dependem cada vez mais de outros países. Atualmente, os Estados Unidos importam 59% das frutas frescas e 35% das verduras consumidas internamente.
Esse cenário revela um sistema que deixou de ser concebido para atender às necessidades básicas de sua própria população. Consequentemente, o país troca diversidade nutricional por volume de commodities, sacrificando a resiliência local em nome de um mercado global volátil.
Para entender como chegamos aqui, precisamos olhar para as políticas de décadas atrás. Durante o governo de Richard Nixon, o secretário Earl Butz articulou o lema “crescer ou desaparecer”. Ele eliminou proteções do New Deal que equilibravam o mercado e apoiavam pequenos agricultores.
Desde então, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) incentiva um sistema altamente concentrado, focado exclusivamente na produção de calorias baratas.
Essa lógica industrial transformou o campo em uma fábrica a céu aberto. Contudo, essa eficiência tem um custo ambiental e social altíssimo.
A agricultura intensiva extrai nutrientes vitais do solo de forma agressiva. Por isso, os produtores precisam de quantidades cada vez maiores de produtos químicos para manter os mesmos níveis de colheita.
Além da degradação da terra, surgem preocupações graves sobre a toxicidade desse modelo, exemplificadas pelos processos judiciais contínuos contra gigantes como a Monsanto.
Ironicamente, os agricultores americanos nunca foram tão produtivos. A colheita de outono do ano passado estabeleceu novos recordes de volume. Apesar disso, os lucros estão desmoronando. O excesso de oferta, somado ao aumento vertiginoso dos custos de insumos, criou uma armadilha financeira. Como resultado direto, as falências agrícolas saltaram 46% entre 2024 e 2025, atingindo marcas que não víamos desde a crise da década de 1980.
Ademais, fatores geopolíticos agravaram a situação. A guerra na Ucrânia e, mais recentemente, o conflito no Irã fizeram os preços dos fertilizantes dispararem.
Em resposta, o governo Trump anunciou um resgate de US$ 12 bilhões, somando-se aos US$ 30 bilhões já distribuídos anteriormente. Entretanto, muitos críticos argumentam que esses pacotes de socorro são apenas paliativos. Eles não resolvem a vulnerabilidade estrutural de um sistema que depende de energia cara e de mercados estrangeiros que, como a China, buscam ativamente a autossuficiência.
Muitos agricultores expressam o desejo de cultivar alimentos diferentes e diversificar suas terras. No entanto, o sistema de incentivos atua como um freio. Os subsídios e seguros agrícolas são calculados por hectare e favorecem as grandes áreas de monocultura. Assim, quem decide plantar uma variedade maior de vegetais acaba recebendo menos apoio financeiro e enfrentando mais riscos.
Além disso, a concentração no setor varejista dificulta a vida dos pequenos. As grandes redes de supermercados preferem fechar contratos gigantescos com processadores industriais.
Essa estrutura desincentiva tipos de agricultura menores, mais diversificados e sustentáveis. Portanto, o livre mercado, muitas vezes defendido como a solução, acaba sufocando a inovação e a sustentabilidade no campo sob o peso de monopólios corporativos.
Um exemplo nítido dessa tensão sistêmica aparece na disputa sobre a “Proposição 12” da Califórnia. Essa lei estadual exige padrões mais humanos e elevados na produção de carne suína. Como a Califórnia representa um mercado gigantesco, cerca de 27% dos produtores — em sua maioria independentes — já se adaptaram às regras. Todavia, a nova lei agrícola federal busca proibir os estados de estabelecerem tais exigências.
Se o Congresso derrubar essas normas estaduais, os maiores beneficiados serão os gigantes do setor, como a Smithfield. Vale notar que a Smithfield é uma empresa de propriedade chinesa e a maior produtora de carne suína nos Estados Unidos.
É um contrassenso evidente: o governo gasta bilhões para proteger a soberania nacional, mas legisla para favorecer corporações estrangeiras contra pequenos produtores locais. “Nossos indicadores de sucesso estão equivocados”, observa Andy Green, ex-conselheiro sênior de agricultura do governo Biden.
Para que a agricultura americana recupere sua saúde, é necessário abandonar a obsessão pela produtividade de curto prazo. Precisamos de uma transição para modelos que valorizem a saúde do solo e a autonomia do agricultor. Afinal, a segurança nacional depende da capacidade de produzir comida de verdade para o próprio povo, não apenas combustível para máquinas ou ração para exportação.
Em suma, a crise atual é um alerta sobre os limites de um modelo puramente extrativista e corporativo. A nova lei agrícola, ao ignorar essas raízes profundas, apenas adia o inevitável. Precisamos reformular o USDA e os mecanismos de crédito para que o pequeno agricultor tenha uma chance real de sobreviver e prosperar.
Sem uma mudança radical na filosofia agrária, o solo americano continuará a se esgotar, levando consigo a estabilidade econômica e alimentar do país. Assim como grande parte do sistema alimentar americano, é uma situação que faz pouco sentido e exige coragem política para ser transformada.


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