Menu

Inteligência artificial já consegue projetar toxinas e vírus letais e acende alerta global de biossegurança

5 Comentários🗣️🔥 Ilustração de uma pessoa interagindo com interfaces digitais que exibem estruturas moleculares e um vírus. (Foto: nature.com) A revolução da inteligência artificial aplicada à biologia abriu uma fronteira perigosa que tira o sono de cientistas e especialistas em biossegurança ao redor do mundo. Ferramentas capazes de desenhar proteínas sob medida, prever a evolução […]

5 comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
Ilustração de uma pessoa interagindo com interfaces digitais que exibem estruturas moleculares e um vírus. (Foto: nature.com)

A revolução da inteligência artificial aplicada à biologia abriu uma fronteira perigosa que tira o sono de cientistas e especialistas em biossegurança ao redor do mundo. Ferramentas capazes de desenhar proteínas sob medida, prever a evolução de vírus e auxiliar na criação de novos compostos farmacêuticos podem, nas mãos erradas, acelerar drasticamente o desenvolvimento de armas biológicas inéditas e praticamente indetectáveis.

Uma extensa reportagem publicada pela revista científica Nature ouviu mais de vinte cientistas e pesquisadores de políticas públicas e revelou um consenso preocupante sobre os riscos emergentes. O biólogo estrutural Martin Pacesa, da Universidade de Zurique, na Suíça, resumiu o temor da comunidade científica ao afirmar que, teoricamente, já seria possível desenvolver toxinas no nível da ricina ou de outros agentes letais que seriam virtualmente indetectáveis.

O caso que reacendeu o debate envolve um estudo publicado por cientistas chineses, que desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial para desenhar conotoxinas, pequenas proteínas presentes no veneno de caracóis marinhos para as quais não existe antídoto. O químico computacional Weiwei Xue, da Universidade de Chongqing e coautor do trabalho, defendeu que a pesquisa tem finalidade estritamente farmacêutica, voltada à descoberta de novos medicamentos contra a dor crônica.

A preocupação central, segundo o pesquisador James Black, da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, se divide em duas frentes principais de risco. De um lado, indivíduos operando em laboratórios improvisados podem usar chatbots para aprender a produzir ameaças já conhecidas como o antraz. De outro, atores mais sofisticados, como Estados ou grupos terroristas bem financiados, podem combinar inteligência artificial generalista com softwares biológicos especializados para desenhar armas inteiramente novas.

Um relatório das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos ofereceu certo alívio ao concluir que ainda existem barreiras significativas para que a inteligência artificial seja usada para potencializar patógenos pandêmicos. A principal limitação é a escassez de dados de alta qualidade conectando propriedades como virulência e transmissibilidade às sequências genéticas dos patógenos, além da dificuldade prática de produzir e testar esses agentes em laboratório.

Um preprint recente já demonstrou, no entanto, que a inteligência artificial conseguiu projetar genomas de vírus inteiramente novos, dos quais cerca de 5% funcionaram quando foram efetivamente sintetizados em laboratório. Os vírus daquele estudo específico foram desenhados para infectar bactérias e não seres humanos, mas o experimento serve como prova de conceito sobre o potencial da tecnologia.

Pesquisadores da gigante tecnológica Microsoft, liderados pelo cientista-chefe Eric Horvitz, conduziram um experimento revelador sobre as falhas dos sistemas de proteção atuais. A equipe usou ferramentas de código aberto para redesenhar 72 moléculas biológicas perigosas e gerou 76 mil variantes sintéticas que conseguiram driblar os filtros de quatro empresas que sintetizam ácidos nucleicos, expondo brechas graves no sistema global de triagem.

Seth Donoughe, diretor de inteligência artificial da organização sem fins lucrativos SecureBio, em Cambridge, demonstrou em pesquisa recente que modelos de linguagem de ponta permitiram a indivíduos com treinamento biológico mínimo igualar ou superar cientistas com doutorado em tarefas como solucionar problemas em protocolos de virologia. O dado expõe um nivelamento perigoso entre amadores e especialistas que pode encurtar drasticamente a curva de aprendizado para a produção de agentes patogênicos.

A questão geopolítica do controle dessas tecnologias é especialmente sensível, já que a China recebe mais de 30% das encomendas globais de síntese de DNA. Segundo Weiwen Zhang, biólogo sintético da Universidade de Tianjin, o governo chinês já solicitou que as empresas de síntese implementem mecanismos de triagem, embora a medida ainda não tenha sido tornada obrigatória por lei.

O biofísico computacional David Baker, da Universidade de Washington, em Seattle, ganhador do Prêmio Nobel por seu trabalho pioneiro em desenho de proteínas, ponderou que os benefícios para o mundo ainda superam amplamente os perigos. Brian Hie, biólogo computacional da Universidade Stanford, na Califórnia, defendeu que a abertura dos modelos contribui para uma maior segurança, já que permite que pesquisadores da área estudem livremente as vulnerabilidades dos sistemas.

O debate sobre como regular essas tecnologias emergentes ainda está longe de um consenso internacional. Enquanto Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e Nova Zelândia estudam exigências obrigatórias de triagem para encomendas de ácidos nucleicos, a maioria absoluta dos países ainda não possui qualquer tipo de regulamentação sobre o tema, deixando lacunas globais que podem ser exploradas por atores mal-intencionados.


Leia também: Inteligência artificial reescreve código da vida e cria bactéria com um aminoácido a menos


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

,
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Silvia Ramos

13/05/2026

Minha Nossa Senhora, que mundo tenebroso estamos construindo! O ser humano brincando de ser Deus, criando vírus e toxinas como se fosse um brinquedo. Isso me lembra a Torre de Babel, onde o homem quis alcançar os céus e Deus confundiu as línguas. O que esses cientistas pensam que estão fazendo? Não aprenderam com a pandemia que já tivemos? Oremos para que o Senhor tenha misericórdia de nós, porque se depender da sabedoria humana, vamos todos colher o que plantamos.

    Clarice Historiadora

    13/05/2026

    Sílvia, recorro a um clássico da sociologia do conhecimento, O Desencantamento do Mundo, de Max Weber: a ciência moderna não é uma brincadeira de deuses, mas sim o resultado de um processo histórico de racionalização que separou esferas de valor. Se a senhora prefere uma explicação teológica para fenômenos técnicos, tudo bem, mas lembre-se de que foi justamente o financiamento público em ciência básica que nos deu vacinas em tempo recorde — algo que, ironicamente, salvou muitos dos que hoje pedem oração em vez de regulação.

Carlos Meirelles

13/05/2026

Mais um motivo para o Estado não meter a mão no bolso do contribuinte com subsídios a pesquisas duvidosas. Se a iniciativa privada quer brincar de criar vírus, que arque com os custos e a responsabilidade, sem socializar o prejuízo quando algo der errado.

    Letícia Fernandes

    13/05/2026

    Caro Carlos Meirelles, seu raciocínio carrega um pressuposto tão ingênuo quanto perigoso: o de que a “iniciativa privada” opera numa bolha de autossuficiência, como se o capital pudesse existir sem a infraestrutura material e simbólica fornecida pelo Estado. Essa fantasia liberal de que o mercado “arque com os custos” ignora que a própria existência de uma empresa farmacêutica ou de biotecnologia depende de décadas de investimento público em ciência básica, formação de mão de obra qualificada em universidades estatais, regulação sanitária, e até mesmo do monopólio legítimo da violência que garante a propriedade intelectual. A pesquisa que permitiu à inteligência artificial projetar toxinas não brotou do nada num laboratório privado; ela se assenta sobre um arcabouço de conhecimento financiado com dinheiro público, desde os estudos de dobramento de proteínas até os bancos de dados genômicos mantidos por instituições como o NIH. Socializar os custos da formação do capital e privatizar os lucros — eis a verdadeira “brincadeira” que o senhor defende sem perceber.

    O problema central, no entanto, é mais profundo. Quando o senhor diz que o Estado não deve “meter a mão no bolso do contribuinte com subsídios a pesquisas duvidosas”, está operando com uma categoria abstrata de “contribuinte” que apaga as relações de classe. Quem paga a maior parte dos impostos no Brasil? A classe trabalhadora, via tributação regressiva sobre consumo. Quem detém os meios de produção e, portanto, decide o que é “pesquisa duvidosa”? Uma fração ínfima da burguesia que, na ausência de regulação estatal, tende a priorizar o lucro imediato em detrimento da biossegurança coletiva. A tragédia anunciada aqui não é o Estado gastar demais, mas gastar de menos e sem controle democrático. Sem um Estado forte que direcione o desenvolvimento científico para o bem comum — e não para o portfólio de acionistas —, o que teremos é exatamente o cenário que o senhor teme: o custo de um desastre biotecnológico será integralmente socializado, enquanto os lucros da “brincadeira” já foram privatizados. A história das pandemias, dos acidentes nucleares aos vazamentos de laboratório, nos ensina que o capitalismo nunca internaliza suas externalidades negativas; ele as transfere para a sociedade como um todo.

    Portanto, sua posição não é um antídoto contra a irresponsabilidade empresarial, mas sua condição de possibilidade. Ao defender a retirada do Estado como regulador e financiador da ciência, o senhor entrega o setor mais sensível da biossegurança às leis férreas da acumulação, onde o cálculo de risco-benefício sempre penderá para o lado mais lucrativo, não para o mais seguro. A questão não é se o Estado deve intervir, mas como e para quem. Um Estado capturado pelo capital privado, que financia pesquisas sem contrapartidas sociais, é um desastre. Um Estado que subordina a inovação tecnológica às necessidades da maioria, com controle público e transparência radical, é a única barreira minimamente civilizada contra a barbárie que a própria inteligência artificial já é capaz de projetar. A pena que sinto pelo seu argumento não é pessoal; é a pena de ver a ideologia liberal repetindo, em pleno século XXI, o mesmo canto de sereia que nos trouxe a crise climática, a desigualdade pandêmica e agora o espectro de um vírus desenhado por algoritmo.

    Pedro Almeida

    13/05/2026

    Caro Carlos, sua defesa de que o Estado deve se abster de financiar pesquisas ignora que foi justamente o investimento público em ciência básica, desde a Segunda Guerra com o Projeto Manhattan até os sequenciamentos genômicos financiados pelo NIH, que criou a infraestrutura intelectual e laboratorial sem a qual a iniciativa privada sequer teria como “brincar” com toxinas. O problema não é o Estado financiar, mas regulamentar com rigor democrático o que já é financiado com dinheiro público de forma indireta.


Leia mais

Recentes

Recentes