Celulares de Cláudio Castro vão para análise da PF e Alerj entra em alerta com avanço do caso Master

A apreensão dos celulares de Cláudio Castro colocou a política do Rio de Janeiro em estado de alerta.

Os aparelhos recolhidos pela Polícia Federal durante operação contra o ex-governador já estão sob análise dos investigadores e podem abrir uma nova frente de desgaste para aliados, ex-auxiliares e parlamentares ligados à antiga estrutura de poder do Palácio Guanabara.

A operação foi realizada no último dia 15 de maio, no âmbito da investigação sobre a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, mas ganhou novo peso político porque ocorreu poucos dias antes de outra ofensiva da PF atingir Castro no caso Banco Master. Na ação sobre a Refit, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Segundo a Agência Brasil, a PF apreendeu documentos, equipamentos eletrônicos e celulares durante a operação. O ex-governador foi um dos alvos, e agentes estiveram em seu apartamento na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.

A investigação da Refit apura suspeitas de ocultação patrimonial, dissimulação de bens e evasão de recursos ao exterior. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 52 bilhões em ativos financeiros, um valor que mostra a escala da operação e o tamanho do esquema investigado.

Castro afirmou, por meio de sua defesa, ter sido surpreendido pela operação e disse estar “convicto de sua lisura”. A Refit também nega irregularidades. É importante registrar que o ex-governador e os demais investigados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.

O problema político é que celulares costumam ser peças centrais em investigações dessa natureza. Eles podem revelar conversas, contatos, agendas, trocas de mensagens, arquivos, fotos, registros de deslocamento e eventuais vínculos entre agentes públicos, empresários e operadores. Por isso, a análise dos aparelhos aumenta a tensão na Assembleia Legislativa do Rio.

A Alerj entra em alerta porque parte das investigações envolvendo Castro toca diretamente decisões políticas e administrativas tomadas no estado. No caso Master, a PF apura aportes bilionários do Rioprevidência, fundo responsável por aposentadorias e pensões de servidores fluminenses, em estruturas ligadas ao banco de Daniel Vorcaro. A Exame informou que a nova operação mira aplicações de R$ 2,01 bilhões feitas desde julho de 2024, elevando o total investigado para cerca de R$ 3 bilhões.

Esse é o ponto mais sensível. O Rioprevidência não é um fundo qualquer. Ele administra recursos destinados a aposentados e pensionistas do estado. Quando quase R$ 3 bilhões desse patrimônio aparecem ligados a um banco investigado por fraude, o caso deixa de ser apenas financeiro e passa a ser uma crise pública.

A Folha já havia registrado, em janeiro, que a Operação Barco de Papel tragou Cláudio Castro para o escândalo do Master ao investigar suspeitas de irregularidades no Rioprevidência. A nova ofensiva da PF mostra que essa linha de apuração não perdeu força.

A pressão sobre a Alerj cresce porque deputados de oposição defendem a instalação de uma CPI para investigar os investimentos do estado no Banco Master. O tema já vinha sendo cobrado antes da nova operação, com parlamentares tratando o caso como um possível ataque ao dinheiro da aposentadoria de servidores.

A sequência de operações também enfraquece o capital político de Castro. Em menos de duas semanas, o ex-governador teve celular e tablet apreendidos em uma investigação sobre combustíveis e voltou a ser alvo em uma apuração sobre aportes bilionários no Banco Master. Dois setores estratégicos, energia e sistema financeiro, passaram a cercar seu legado administrativo.

Para o Rio, o caso é mais profundo do que a situação pessoal de Castro. O estado acumula histórico de crises envolvendo governadores, fundos públicos, incentivos fiscais, combustíveis, previdência e grupos econômicos com forte influência política. A análise dos celulares pode revelar se essas relações eram apenas institucionais ou se havia articulações mais sensíveis nos bastidores.

O alerta na Alerj tem razão concreta. Se os aparelhos trouxerem conversas com deputados, secretários, dirigentes de fundos, empresários ou operadores, a crise pode sair da esfera do ex-governador e alcançar o Legislativo fluminense. Nesse cenário, a CPI do Master deixaria de ser apenas uma pressão da oposição e poderia virar instrumento de sobrevivência política para parlamentares que queiram se afastar do escândalo.

O caso também ocorre em um momento de reorganização institucional no Rio. Castro renunciou ao cargo em março de 2026, e o TSE reconheceu a renúncia no acórdão de julgamento que tratou da cassação de seu mandato. O SBT News registrou que parte do debate jurídico envolve o caminho para uma eventual eleição indireta pela Alerj, o que aumenta ainda mais o peso político da crise.

A apreensão dos celulares, portanto, pode ser mais do que uma medida técnica. Pode funcionar como chave para reconstruir a rede de relações do antigo governo, especialmente se a PF conseguir cruzar mensagens com decisões administrativas, investimentos públicos e benefícios a grupos privados.

A pergunta que agora domina os bastidores é simples: o que há nos aparelhos de Cláudio Castro?

Enquanto a resposta não aparece, a Alerj se move em clima de cautela. O avanço da PF sobre os celulares do ex-governador pode transformar investigações que pareciam separadas em uma crise única sobre o funcionamento do poder no Rio.

O caso Master já expôs o risco de dinheiro público ser arrastado para operações financeiras suspeitas. A Refit revelou o peso de interesses privados no setor de combustíveis. Agora, os celulares de Castro podem mostrar se esses mundos se comunicavam por dentro da política fluminense.

No Rio, onde escândalos costumam começar em operações policiais e terminar em terremotos institucionais, a análise desses aparelhos pode ser o próximo capítulo decisivo.

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