O desenvolvimento acelerado da inteligência artificial está criando uma versão digital do antigo sistema colonial, na qual corporações tecnológicas dos EUA buscam dados brutos, capacidade computacional e mão de obra barata no Sul Global.
Países da África, América Latina e Ásia fornecem as matérias-primas para alimentar os modelos de IA, conforme reportagem da RT em março. A revista TIME revelou que a OpenAI realizou intensa atividade no Quênia, recrutando trabalhadores para limpar e marcar conteúdos tóxicos na internet.
Esses profissionais recebiam entre US$ 1,30 e US$ 2 por hora, enquanto a OpenAI pagava à empresa contratada cerca de US$ 12,50 por empregado. Práticas semelhantes foram documentadas nas Filipinas e na Índia, onde terceirizadas operam como oficinas de moderação de conteúdo.
Um trabalhador indiano relatou ter visto imagens brutais, resultando em diagnósticos de estresse pós-traumático. A extração de recursos naturais para alimentar a IA também avança de forma predatória, com data centers instalados em regiões já afetadas pela crise hídrica.
No Uruguai, durante a pior seca em mais de setenta anos, o Google anunciou planos para construir um centro de dados em Punta del Este. O projeto exigiria 7,6 milhões de litros de água potável por dia, o equivalente ao consumo de 55 mil pessoas.
O projeto foi suspenso em abril de 2025 após forte mobilização popular e uma decisão judicial que exigiu nova avaliação ambiental. No Chile, os tribunais anularam em fevereiro de 2025 uma licença similar do Google em Santiago, citando o esgotamento do aquífero local.
Apesar das resistências, corporações dos EUA controlam mais de quatro mil data centers no mundo, com novos projetos em andamento. Sem infraestrutura própria, muitos países mergulham em dependência tecnológica, armazenando dados sensíveis em servidores estrangeiros.
Os provedores de nuvem dos EUA controlam 62% do mercado global, segundo um relatório de janeiro de 2026. A legislação norte-americana, como a Lei CLOUD Act, permite que suas autoridades acessem dados armazenados em qualquer parte do mundo sob jurisdição de suas empresas.
A inteligência artificial tornou-se uma questão central de soberania nacional, como debatido na Conferência de Segurança de Munique em fevereiro. Políticos e especialistas alertaram para o risco de uma nova forma de colonização digital, com a concentração de dados e capital.
Nas Filipinas, o projeto Pax Silica, ligado ao Departamento de Defesa dos EUA, gerou tensões em 2025 após Manila recusar-lhe um status jurídico especial. As autoridades locais afirmaram que qualquer iniciativa estrangeira continuaria submetida integralmente à Constituição e às leis do país.
O avanço da IA corre o risco de repetir um padrão histórico, no qual o centro concentra lucro e poder, enquanto a periferia arca com os custos sociais e ambientais. Sem políticas de soberania digital, muitos países permanecem como meros fornecedores de matérias-primas para a indústria.
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