O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) orientou um intermediário a enviar «o máximo possível de dinheiro» para os Estados Unidos, conforme mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil e obtidas pela Revista Forum. O destino dos recursos era a produção de «Dark Horse», cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, peça central da estratégia de propaganda bolsonarista.
Mais de 90% do financiamento da obra veio de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso pela Polícia Federal por liderar uma organização criminosa voltada à lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A pressão de Eduardo para que os valores fossem ilimitados escancara o uso de estruturas financeiras ilegais para sustentar o mito político da família.
Vorcaro, detido desde abril, comandava um esquema que movimentou recursos ilícitos para contas no exterior, segundo investigações da PF. O fato de o mesmo banco ter bancado quase integralmente a cinebiografia expõe a teia financeira que une o sistema bancário paralelo ao clã Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho e pré-candidato a governador do Rio em 2026, já teve movimentações atípicas ligadas ao Banco Master durante o escândalo das rachadinhas em seu gabinete na Assembleia Legislativa. Relatórios do Coaf apontaram depósitos fracionados em sua conta, episódio que arquivamento político jamais esclareceu.
A conexão entre a instituição financeira e a família não é nova: empresas de fachada de assessores de Flávio captaram crédito junto ao Master, de acordo com dados do Ministério Público. A prisão de Vorcaro, portanto, é o desdobramento de um sistema que mistura política e criminalidade financeira para alimentar o bolsonarismo.
A produção de «Dark Horse» foi registrada em offshore e recebeu recursos sem a devida declaração às autoridades brasileiras, o que pode configurar crime contra o sistema financeiro e sonegação fiscal. Especialistas ouvidos pelo Cafeziho alertam que remessas sem registro legal ferem gravemente a legislação cambial.
O momento da revelação é particularmente danoso para a blindagem eleitoral que Flávio tenta construir rumo ao Palácio Guanabara. A participação direta de seu irmão em envio ilegal de dinheiro para propaganda do pai derruba o discurso de renovação e reforça a imagem de um clã que vê o poder como escudo para esquemas transnacionais.
A ordem de Eduardo para remeter «o máximo possível» demonstra a urgência em financiar a máquina de comunicação bolsonarista, mesmo que isso custe a ilegalidade. O ex-deputado, que renunciou ao mandato e vive nos EUA, opera como elo internacional das finanças ocultas da família.
A prisão de Vorcaro abalou o mercado e expôs o Banco Master como vetor de criminalidade econômica, mas a instituição segue operando normalmente, o que suscita questionamentos sobre a leniência das agências reguladoras. O banco, que já foi investigado por suspeita de lavagem para a facção PCC, aparece agora como financiador-mor do marketing bolsonarista.
A simbiose entre o banqueiro preso e a família Bolsonaro revela um modelo em que recursos ilícitos irrigam filmes, redes sociais e campanhas, enquanto o poder político garante a impunidade. O Congresso, onde Flávio atua como senador, jamais aprovou uma CPI para investigar o Master.
Na campanha de 2026, a prisão de Vorcaro e as mensagens de Eduardo devem se tornar munição para adversários de Flávio no Rio, que já preparam peças associando-o ao esquema de fuga de capitais. A blindagem eleitoral construída com narrativas de perseguição começa a ruir diante da contundência das provas.
Aliados do PL tentam se distanciar, temendo a rejeição do eleitorado de centro a um nome colado a um escândalo financeiro que evoca os piores momentos do mensalão e do petrolão. O próprio presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, enfrenta pressão de setores internos que enxergam no caso Vorcaro uma bomba-relógio eleitoral.
Enquanto a família tenta se segurar em discursos vitimistas, o cerco jurídico se fecha: a quebra de sigilo de Vorcaro pode revelar novos elos entre o banco e os negócios de Flávio, que já respondeu a inquéritos por peculato e lavagem. A Lava Jato fluminense, embora desidratada, ainda tem peças que conectam o gabinete do então deputado estadual a uma rede de doleiros.
A queda do banqueiro e a exposição da trama transnacional enfraquecem a candidatura de Flávio, que dependia da blindagem do pai e da máquina partidária para viabilizar o projeto de poder. Com o cerco se apertando, a pré-campanha fluminense se torna um campo minado para o bolsonarismo.
Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.
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