A lista de fracasso dos Estados Unidos

REUTERS

Por João Claudio Platenik Pitillo

Os EUA retomaram ataques limitados no Irã, apesar de um memorando de entendimento entre Washington e Teerã que precisa ser aprovado pelo presidente Trump e pelo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. Trump pode afirmar repetidas vezes que venceu esta guerra, mas há pouquíssima chance de os líderes iranianos abandonarem sua busca por armas nucleares e encerrar o seu apoio aos aliados anti-sionistas no Oriente Médio. Igualmente improvável é a normalização das relações com Israel e a adesão do Irã aos Acordos de Abraão. Atualmente, o resultado mais provável é um conflito de baixa intensidade que se prolongue por vários anos, semelhante ao que aconteceu no Iraque entre a guerra de 1991 e a invasão estadunidense de 2003. Em outras palavras, uma questão inacabada.

Mas, quais as razões que levaram os Estados Unidos a fracassarem contra o Irã? Este não foi um incidente isolado pelo qual o incompetente Trump possa ser culpado sozinho. Esta guerra é apenas a mais recente de uma série de expedições estadunidenses que se arrastaram por anos, acabando por se voltarem contra o próprio Estados Unidos ao fortalecerem seus inimigos. Da Coreia ao Irã, a política militar estadunidense desde a Segunda Guerra Mundial tem sido uma série de erros e cálculos equivocados, nos quais sucessos táticos foram seguidos por derrotas estratégicas.

Trump, assim como o presidente Obama antes dele, foi eleito para seu primeiro mandato, em parte porque era visto como uma alternativa aos falcões que desencadearam “guerras intermináveis” no Afeganistão e no Iraque. Contudo, Trump não mudou esse paradigma nesse seu primeiro mandato e logo foi sucedido por Joe Biden, que também se lançou em uma aventura bélica ao apoiar à Ucrânia. Da mesma forma que Obama lançou novas campanhas militares estadunidenses na Líbia e na Síria. Novamente Trump surgiu, agora para o seu segundo mandato, criticando a postura de Biden com relação à Ucrânia e assim que venceu, desencadeou uma guerra no Irã, que está gerando consequências negativas imediatas para a economia global devido ao aumento dos preços do petróleo.

Além de se mostrar interminável, a guerra contra o Irã está produzindo consequências muito mais sérias do que o impacto global das guerras na Coreia, no Vietnã e no Afeganistão na época em que foram travadas. A gravidade do momento coloca a prova a capacidade econômica dos países do Ocidente Coletivo, que não tem respondido adequadamente aos reflexos na elevação do preço do petróleo. Isto é, sem conseguir energia barata, o neoliberalismo está próximo de uma crise global, acelerada por Trump e sua aventura no Golfo Pérsico.

Obama, eleito em parte por sua oposição à desastrosa guerra de George W. Bush no Iraque (que continua com uma postura anti-estadunidense), posteriormente arrastou os Estados Unidos para novas aventuras militares na Líbia e na Síria. Em 2011, a OTAN, liderada pelos EUA, derrubou o líder líbio Muammar Gaddafi. Como resultado, a Líbia permanece dividida e caótica até hoje. Na Síria, Washington, desde 2014, vem conduzindo uma campanha militar perversa e de baixa intensidade contra ambos os lados da guerra civil: militantes islâmicos de um lado e o governo de Bashar al-Assad do outro. A estratégia estadunidense mais uma vez se mostrou contraproducente, já que o atual presidente da Síria é o senhor da guerra da Al-Qaeda, Ahmed al-Sharaa, que estava na Lista Global de Terroristas Especialmente Designados pelo EUA até 2025.

Isso nos leva à Guerra do Afeganistão (2001-2021), a guerra mais longa da história estadunidense. O objetivo da guerra era derrubar o grupo islâmico Talibã, que havia dado abrigo a Osama bin Laden e seus aliados antes dos ataques de 11 de setembro. Como resultado, após anos de luta sob as administrações Bush, Obama, Trump e Biden, esta última produziu uma retirada caótica em agosto de 2021. O Talibã saiu vitorioso, assumindo o poder e estabelecendo um regime islâmico repressivo, privando mulheres, minorias étnicas e dissidentes de seus direitos e realizando açoites e execuções públicas.

A frequência com que as principais guerras estadunidenses terminaram com a ascensão e o fortalecimento dos inimigos dos EUA são surpreendentes. Após a morte de mais de 80.000 soldados estadunidenses, bem como milhões de coreanos e indochineses, os comunistas norte-coreanos, aliados a Pequim e Moscou, governam a Coreia do Norte, enquanto os comunistas vietnamitas governam um Vietnã unificado. A Síria e o Afeganistão estão sob o controle de ex-jihadistasanti-estadunidenses.

A essa humilhante lista de fracassos estratégicos estadunidenses, a Ucrânia poderá ser adicionada em breve. Em 2022, quando a Rússia lançou sua operação militar, o presidente Joe Biden declarou: “Pelo amor de Deus, este homem não pode permanecer no poder”. Hoje, Putin permanece no poder — e Biden não. O conflito na Ucrânia, prolongado pela ajuda militar e econômica ocidental à Kiev, provavelmente terminará em breve, deixando a Rússia no controle da Crimeia e da maior parte da região leste do país. Esta será mais uma derrota estratégica vergonhosa e custosa para os Estados Unidos, assim também como o Irã.

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

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