Em encontro com representantes diplomáticos de mais de 40 países realizado em Brasília nesta terça-feira (21), o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) associou falsamente as urnas eletrônicas brasileiras à empresa venezuelana Smartmatic e pediu o envio do “maior número possível” de observadores internacionais para as eleições de outubro. O episódio reproduz, quase ponto a ponto, a reunião promovida pelo próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com embaixadores em julho de 2022 — encontro que resultaria, um ano depois, na condenação de Jair pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em sua inelegibilidade por oito anos, até 2030, por abuso de poder político.
A alegação falsa e a resposta imediata do TSE
Durante o evento, batizado “Debatendo o Brasil” e promovido pelo veículo The Brazilian Report, Flávio afirmou que “muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem” da Smartmatic, citando um documento da CIA divulgado na semana anterior sobre suspeitas de fraude no processo eleitoral venezuelano de 2012. A alegação é factualmente incorreta: o TSE reiterou, em nota atualizada em 8 de julho, que todo o sistema eletrônico de votação brasileiro foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral, com tecnologia nacional. A Smartmatic manteve apenas contratos pontuais de conexão de dados e voz com o tribunal — nunca desenvolveu ou operou urnas no país — e sequer venceu a licitação de fabricação de equipamentos para 2020, superada pela empresa Positivo.
Foi a quarta vez, desde 2017, que o TSE precisou desmentir publicamente essa mesma associação — usando, inclusive, o mesmo texto de nota empregado em 2020 e 2022.
O paralelo deliberado com 2022
O próprio Flávio recorreu, na fala, à mesma estratégia retórica usada por Jair Bolsonaro na reunião de 18 de julho de 2022 no Palácio da Alvorada: apresentar suspeitas vagas sobre o sistema eleitoral e, em seguida, negar estar questionando-o diretamente. “O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis”, declarou o senador, ecoando quase literalmente o discurso do pai três anos antes. Na ocasião, Jair também expressara “preocupação” com a segurança das urnas sem apresentar provas — episódio que a Justiça Eleitoral considerou, posteriormente, abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.
O evento contou com representantes das embaixadas dos EUA e da China, além de diplomatas de países como Irlanda, Reino Unido e Áustria — uma plateia internacional que amplifica o alcance de declarações sem fundamento factual sobre a integridade do próprio processo democrático brasileiro.
Reações institucionais e o risco de precedente
O presidente nacional do PT avaliou publicamente levar o caso à Justiça, classificando a postura de Flávio como reincidência de uma “cultura golpista” dentro do clã Bolsonaro. Organizações de checagem de informação e monitoramento de plataformas também classificaram como preocupante a manutenção, por parte de redes sociais, da transmissão do evento sem qualquer sinalização de conteúdo checado — um debate que já havia sido travado em 2022 e reaberto pela repetição do episódio quatro anos depois.
Um editorial do jornal O Estado de São Paulo, tradicionalmente crítico e de perfil liberal-conservador, classificou a conduta de Flávio como a reencenação de uma das práticas que consagraram seu pai como ameaça à democracia na Nova República, avaliando que o senador “herdou o golpismo” paterno. O texto lembrou ainda que, em entrevista à Folha de S.Paulo em junho de 2025, Flávio já havia admitido que um candidato apoiado por Jair teria a obrigação de garantir o cumprimento de um eventual indulto ao pai — mesmo que o STF declarasse a medida inconstitucional —, chegando a mencionar abertamente a possibilidade de “uso da força” caso essa hipótese se concretizasse.
Um padrão que preocupa às vésperas da convenção
O episódio ocorre a poucos dias da convenção nacional do PL, marcada para 25 de julho, num momento em que a pré-campanha de Flávio já vinha sendo descrita por reportagens anteriores como alinhada à mesma cartilha de contestação eleitoral usada em 2022 — com aliados do senador avaliando, segundo apurações da imprensa, que o STF atuaria de forma a prejudicá-lo na disputa. Para analistas de integridade eleitoral, a repetição pública e internacional dessas alegações, ainda em fase de pré-candidatura, é um sinal de alerta precoce sobre a disposição do campo bolsonarista de preparar, novamente, uma narrativa de fraude à espera de um resultado desfavorável nas urnas de outubro.


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