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Seguradoras suspendem cobertura do tráfego no Estreito de Ormuz e ampliam risco de colapso energético global

O fluxo de navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz — uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio de petróleo do mundo — caiu drasticamente nos primeiros dias de março após seguradoras marítimas suspenderem coberturas de risco de guerra para a região. A decisão, tomada por alguns dos maiores clubes de seguro naval do […]

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Imagem: Reprodução/X

O fluxo de navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz — uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio de petróleo do mundo — caiu drasticamente nos primeiros dias de março após seguradoras marítimas suspenderem coberturas de risco de guerra para a região. A decisão, tomada por alguns dos maiores clubes de seguro naval do planeta, ameaça interromper parte relevante do comércio energético global e pode prolongar a instabilidade nos mercados de petróleo e gás por meses, mesmo que o conflito militar diminua.

Dados de monitoramento marítimo indicam que o número de embarcações que atravessam o estreito despencou em poucos dias. Informações de rastreamento por satélite e sistemas de identificação automática de navios apontam que as passagens diárias, que normalmente superam uma centena, caíram para poucas dezenas após a suspensão das apólices. Analistas do setor afirmam que cerca de 90% da frota mercante mundial depende de seguros de responsabilidade civil fornecidos por um pequeno grupo de clubes internacionais de proteção e indenização (P&I), o que torna o sistema altamente concentrado.

Sem essa cobertura, navios dificilmente podem operar. Portos, financiadores, armadores e empresas que contratam transporte marítimo geralmente exigem seguro ativo para autorizar viagens ou carregamentos. Na prática, a retirada dessas garantias torna o transporte comercial inviável, mesmo que a rota permaneça fisicamente aberta.

O Estreito de Ormuz liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é considerado o principal gargalo energético do mundo. Segundo estimativas da International Energy Agency e da U.S. Energy Information Administration, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia passam pela rota — aproximadamente um quinto do consumo global. A região também é vital para o transporte de gás natural liquefeito (GNL), especialmente das exportações do Catar.

Dados de monitoramento naval e relatórios de mercado indicam que dezenas de superpetroleiros permanecem parados dentro do Golfo Pérsico aguardando condições mais seguras para navegar. Ao mesmo tempo, navios transportadores de gás natural liquefeito teriam alterado rotas para evitar a área.

O impacto potencial vai além do petróleo. Parte significativa do comércio mundial de fertilizantes, enxofre e gás natural também depende da passagem por Ormuz. Analistas de mercado observam que interrupções prolongadas podem afetar cadeias agrícolas e industriais em diferentes regiões, pressionando preços de alimentos e energia.

A crise também ocorre em um momento de tensão no mercado europeu de gás. Após a redução das importações russas desde 2022, países europeus passaram a depender mais do gás natural liquefeito vindo do Golfo. O Catar, um dos maiores exportadores do mundo, envia praticamente toda sua produção por meio do estreito.

Mesmo que rotas alternativas existam, sua capacidade é limitada. Oleodutos que ligam campos petrolíferos do Golfo ao Mar Vermelho ou ao Oceano Índico podem transportar apenas uma fração do volume normalmente escoado por Ormuz. Estimativas do setor indicam que esses sistemas conseguem desviar entre 4 e 6 milhões de barris por dia, muito abaixo do fluxo habitual da região.

No mercado financeiro, a reação inicial foi moderada. O petróleo Brent registrou alta, mas permaneceu abaixo de níveis observados em crises anteriores. Parte dos investidores ainda aposta que o impacto será temporário e que o comércio marítimo voltará ao normal após o fim das operações militares.

Analistas de energia e transporte marítimo, porém, alertam que a reativação do sistema de seguros pode demorar mais que o próprio conflito. Diferentemente de um bloqueio naval, que depende da presença de forças militares, a retomada das coberturas exige avaliações de risco, renegociação de contratos de resseguro e recomposição de capital pelas seguradoras.

Precedentes recentes indicam que mercados de seguro marítimo podem levar meses ou até anos para normalizar após crises de segurança. Ataques a navios no Mar Vermelho desde 2023, por exemplo, elevaram significativamente os prêmios de risco e reduziram o tráfego na região.

Se a suspensão das apólices se prolongar, especialistas afirmam que o impacto sobre o comércio energético e sobre os preços globais de petróleo e gás pode ser maior do que o inicialmente previsto pelos mercados.

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Lucas Allabi

Jornalista formado pela PUC-SP e apaixonado pelo Sul Global. Escreve principalmente sobre política e economia. Instagram: @lu.allab

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