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China barra manobra nuclear de Washington e expõe vazio estratégico dos EUA

A tentativa dos Estados Unidos de arrastar Pequim para um acordo desigual expõe o vazio estratégico de uma potência que já não consegue impor sozinha as regras do jogo. Os Estados Unidos esbarraram na resistência chinesa ao tentar empurrar Pequim para um novo acordo nuclear trilateral em um momento de paralisia diplomática e crescente insegurança […]

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Imagem gerada por Ideogram, com prompt do portal O Cafezinho. 24/03/2026 20:34

A tentativa dos Estados Unidos de arrastar Pequim para um acordo desigual expõe o vazio estratégico de uma potência que já não consegue impor sozinha as regras do jogo.

Os Estados Unidos esbarraram na resistência chinesa ao tentar empurrar Pequim para um novo acordo nuclear trilateral em um momento de paralisia diplomática e crescente insegurança global.

Segundo especialistas citados pelo South China Morning Post, há pouquíssima chance de Washington convencer a China a aderir, no curto prazo, a qualquer novo pacto de controle de armas nucleares.

O impasse ganha peso extra porque o último acordo vinculante de controle nuclear do mundo expirou em 5 de fevereiro, deixando um vazio perigoso entre as maiores potências atômicas.

A avaliação foi apresentada em um briefing online na terça-feira e descreve um cenário de inércia, acusações cruzadas e ausência de iniciativa real entre Estados Unidos, Rússia e China. Em vez de uma negociação estruturada, o que se vê é um ambiente dominado por cálculo político e desconfiança estratégica.

Thomas Countryman, presidente do conselho da Arms Control Association, sediada em Washington, afirmou que não faltam boas ideias sobre como uma eventual cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping poderia avançar o desarmamento. O problema, segundo ele, é que nenhuma das três grandes potências nucleares está tomando medidas ativas para construir uma negociação significativa.

Countryman resumiu o momento como uma disputa para marcar pontos e transferir culpas, comparando a dinâmica a um jogo de basquete eterno sem vencedores. Na prática, a crítica atinge os três lados, mas pesa especialmente sobre a tentativa americana de transformar pressão pública em suposto avanço diplomático.

Na lógica atual da Casa Branca, sugeriu o especialista, bastaria Trump dizer a Xi que a China precisa entrar nas negociações para vender isso como sucesso político. Ou seja, a exigência pública em si já poderia ser tratada como vitória, mesmo sem qualquer progresso concreto em direção a um acordo.

Esse cálculo ajuda a entender por que Washington insiste em um formato trilateral que inclua Pequim e substitua o antigo tratado bilateral que expirou. O problema é que a proposta surge sem base de confiança e em meio a ameaças, o que reduz ainda mais a chance de adesão chinesa.

Depois da expiração do Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas, Trump passou a defender um acordo “melhorado” com participação da China. Em seguida, ameaçou retomar testes nucleares e acusou Pequim de ter realizado um teste secreto em 2020, acusação que a China negou de forma veemente.

Essa combinação de pressão, denúncia e retórica agressiva é vista por analistas como um obstáculo central para qualquer diálogo sério. Em vez de criar condições para negociação, Washington amplia o ruído político e reforça a percepção de que busca mais enquadrar a China do que construir um mecanismo estável de segurança.

A recusa chinesa, por sua vez, não decorre apenas de rivalidade geopolítica imediata. Ela se apoia em uma doutrina declarada de “defesa mínima” e no fato de que o arsenal nuclear chinês segue muito abaixo dos estoques mantidos por Estados Unidos e Rússia.

Enquanto americanos e russos possuem milhares de ogivas nucleares cada, estima-se que a China tenha pouco mais de 300. Nesse contexto, exigir de Pequim compromissos equivalentes aos das duas potências que dominaram o equilíbrio nuclear por décadas significa, na prática, congelar uma assimetria histórica em favor de Washington e Moscou.

É justamente esse ponto que torna a proposta americana difícil de vender como iniciativa equilibrada. Para a China, aceitar entrar em um arranjo desenhado pelos países com os maiores arsenais do planeta seria legitimar regras formuladas sem levar em conta a diferença real de capacidades.

Há ainda um problema político mais profundo. A exigência dos Estados Unidos ignora o histórico do próprio regime internacional de desarmamento e a cobrança recorrente de que as grandes potências cumpram suas obrigações sob o Tratado de Não-Proliferação.

Em vez de avançarem de forma consistente rumo ao desarmamento total, os Estados Unidos modernizaram seu arsenal com investimentos de trilhões de dólares. Ao mesmo tempo, tentam limitar a expansão da capacidade defensiva de um rival emergente, o que alimenta a leitura de que o objetivo é preservar vantagem estratégica, não reduzir riscos de maneira equitativa.

Por isso, a resistência chinesa é lida por muitos analistas como uma afirmação de soberania e de realismo estratégico. Pequim sinaliza que não aceitará ser incorporada a um sistema de controle que perpetue sua posição de desvantagem relativa e mantenha intacta a hierarquia herdada da era unipolar.

O impasse também revela uma mudança mais ampla na arquitetura internacional. A fase em que Washington conseguia definir sozinho os termos centrais da segurança global está cada vez mais contestada, sobretudo quando suas propostas não vêm acompanhadas de reciprocidade, credibilidade e disposição para concessões reais.

No campo nuclear, isso é especialmente grave. A estabilidade estratégica não pode depender apenas da vontade de uma potência ou de fórmulas concebidas para preservar privilégios acumulados ao longo de décadas.

A expiração do New START sem substituto à vista inaugura, pela primeira vez em muitos anos, uma etapa de incerteza nuclear sem amarras jurídicas claras entre os principais atores. Com o diálogo travado e a retórica endurecida, cresce o risco de uma nova corrida armamentista alimentada por suspeitas mútuas e demonstrações de força.

Para o Sul Global, a mensagem é dura. A ordem liderada pelos Estados Unidos mostra dificuldade até para produzir um bem público elementar, a segurança coletiva diante da ameaça de aniquilação nuclear.

Quando a diplomacia se reduz a ultimatos e ameaças, até temas de sobrevivência humana passam a ser tratados como instrumentos de disputa geopolítica. Nesse cenário, a multipolaridade aparece não como solução automática, mas como possibilidade de construir fóruns mais inclusivos e arranjos menos assimétricos.

A lição vale também para o Brasil, que historicamente defende o desarmamento nuclear e o fortalecimento do multilateralismo. Diante da volta da linguagem da força e da erosão dos mecanismos de controle, torna-se ainda mais urgente pressionar as grandes potências a retomar negociações verificáveis em espaços legítimos, começando pela Organização das Nações Unidas.

A paz não será reconstruída por acordos desequilibrados nem por exigências unilaterais travestidas de diplomacia. Se houver saída, ela passará por justiça estratégica, reconhecimento das diferenças reais de poder e disposição concreta para negociar regras que não sejam decretadas por um só lado.

Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Chico Wei | Revisão: Afonso Santos

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