O BRICS reúne hoje 10 membros e responde por cerca de 35% do PIB global — mas não consegue emitir uma única frase conjunta sobre os ataques ao Irã, membro do bloco desde 2024. A ausência de um posicionamento oficial chama a atenção, especialmente em um contexto onde o bloco se apresenta como defensor do direito internacional e da multipolaridade global.
Historicamente, o BRICS tem se posicionado contra intervenções estrangeiras sem a devida autorização do Conselho de Segurança da ONU. No ano passado, durante a Guerra dos Doze Dias, o grupo criticou os ataques de Israel e dos EUA ao território iraniano. No entanto, desta vez, o silêncio persiste, mesmo após semanas dos ataques.
A razão para essa inércia está no funcionamento do BRICS, que opera por consenso. Para que uma declaração conjunta seja emitida, é necessária a aprovação de todos os seus membros. Conversações lideradas pela Índia, que atualmente preside o grupo, estão em andamento para tentar alcançar um consenso, mas esbarram em complexas relações diplomáticas entre os países membros.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Randhir Jaiswal, afirmou que seu país busca uma declaração conjunta, mas enfrenta dificuldades devido às relações diretas de alguns membros com o conflito. O processo de expansão do BRICS, que incluiu o Irã, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Arábia Saudita, complicou ainda mais a situação. Esses países têm históricos de rivalidades, tanto religiosas quanto políticas, o que dificulta a obtenção de um consenso.
Enquanto a Arábia Saudita ainda não formalizou sua adesão ao bloco, os EAU já são membros plenos, assim como o Irã. Para que uma declaração conjunta seja emitida, é preciso que ambos concordem com o texto, o que não é tarefa fácil, dado o contexto de retaliação iraniana que atingiu territórios dos EAU e da Arábia Saudita.
Além disso, a Índia tem se aproximado cada vez mais de Israel nos últimos anos. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, visitou Israel pouco antes dos ataques ao Irã e expressou apoio a Israel. Essa proximidade torna ainda mais difícil para a Índia liderar uma declaração crítica aos ataques de Israel e dos EUA.
O impasse atual no BRICS evidencia os desafios do processo de expansão e as dificuldades em manter uma posição unificada em questões internacionais complexas. A crescente divergência de interesses entre os membros pode comprometer a capacidade do BRICS de atuar como um contrapeso eficaz à hegemonia ocidental.
Por que isso importa? A incapacidade do BRICS de se manifestar sobre o conflito no Irã revela as complexidades de um bloco que se expandiu rapidamente, mas que agora enfrenta desafios internos significativos. Para manter sua relevância e influência global, o BRICS precisará encontrar formas de superar suas diferenças internas e reafirmar seu compromisso com o direito internacional e a multipolaridade. Isso é crucial não apenas para analistas de geopolítica, mas para qualquer pessoa interessada em entender como as dinâmicas de poder global podem afetar a estabilidade internacional e o equilíbrio econômico.
Com informações de theconversation.com.


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