Durante décadas, o kraken habitou o imaginário humano como criatura mitológica capaz de arrastar navios para o abismo, mas a paleontologia acaba de oferecer um eco perturbador dessa lenda. Fósseis reexaminados indicam que um polvo colossal de até 19 metros de comprimento pode ter sido um dos maiores predadores dos mares no fim do Cretáceo.
Batizado de Nanaimoteuthis haggarti, esse cefalópode extinguido viveu há cerca de 84 milhões de anos e pode ter superado até mesmo o temido Mosasaurus hoffmani, réptil marinho que alcançava 17 metros. Com dimensões comparáveis às de um vagão ferroviário, ele desponta como o maior invertebrado não colonial já identificado na história da Terra.
A descoberta ganhou nova projeção após a publicação de um estudo em 23 de abril de 2026 na revista Science, que revisou fósseis encontrados na Formação Haslam, na Ilha de Vancouver, no Canadá. Segundo detalha o portal Discover Wildlife, a espécie havia sido descrita inicialmente em 2008 com base em duas mandíbulas inferiores parciais e classificada como uma lula-vampiro.
O material original foi reavaliado à luz de mais de uma dúzia de mandíbulas fósseis coletadas tanto na Ilha de Vancouver quanto em Hokkaido, no Japão, revelando um exemplar excepcionalmente preservado. Essa nova análise permitiu transferir definitivamente o espécime para o gênero Nanaimoteuthis e reconhecê-lo como um polvo cirrato, e não como parente das lulas-vampiro.
Os polvos cirratos distinguem-se por possuírem pequenas conchas internas e duas nadadeiras na cabeça, estruturas usadas para a locomoção nas profundezas oceânicas. Trata-se de um grupo exclusivamente marinho de águas profundas, geralmente encontrado abaixo de 300 metros e, em espécies atuais como o polvo-dumbo, até além de 7 mil metros.
Nanaimoteuthis é o membro mais antigo conhecido desse grupo e, paradoxalmente, um de seus gigantes mais descomunais. Sua espécie irmã, Nanaimoteuthis jeletzkyi, viveu entre 100 e 72 milhões de anos atrás e antes era estimada em 1,1 metro, mas novos cálculos sugerem que poderia atingir 7,7 metros.
Para estimar o tamanho de N. haggarti, os pesquisadores compararam a relação entre mandíbula, cabeça e corpo em polvos modernos, projetando essas proporções nos fósseis do Cretáceo. O resultado foi uma faixa impressionante entre 7 e 19 metros, sendo que mesmo a estimativa mais conservadora o coloca próximo da lula-colossal atual, Mesonychoteuthis hamiltoni, que pode chegar a 14 metros.
Até então, os maiores invertebrados não coloniais conhecidos eram o milípede gigante Arthropleura, com cerca de 3 metros, e o escorpião-marinho Jaeklopterus, com 2,5 metros. A comparação ressalta o salto evolutivo representado por N. haggarti, quase quatro vezes maior que o maior polvo vivo hoje, o polvo-gigante-do-Pacífico Enteroctopus dofleini, que atinge cerca de 5 metros com os braços estendidos.
Os fósseis indicam que esses gigantes habitavam o Pacífico Norte durante o Cretáceo Superior, quando esse oceano já era o maior do planeta e apresentava vastas plataformas continentais. Embora provavelmente não mergulhassem às profundidades extremas de alguns parentes atuais, tudo sugere que viviam em águas profundas o suficiente para raramente cruzar o caminho de predadores de superfície.
A dieta também ajuda a reconstruir seu perfil ecológico, já que padrões de desgaste nas mandíbulas fósseis revelam consumo frequente de presas de concha dura. Ammonites, abundantes nos mares do Cretáceo, figuram como candidatos prováveis, compartilhando o cardápio com crustáceos, moluscos e possivelmente outros cefalópodes.
Os pesquisadores identificaram longos arranhões distribuídos por amplas áreas da mandíbula, interpretados como sinal de uso dinâmico de toda a estrutura bucal para desmontar presas resistentes. Esse comportamento está associado, em cefalópodes modernos, a cérebros altamente desenvolvidos e níveis elevados de cognição, sugerindo que o colosso cretáceo era não apenas monumental, mas também estrategista nas sombras do oceano.
Quanto aos inimigos naturais, apenas os maiores predadores da época teriam condições de enfrentar um adulto plenamente desenvolvido, e ainda assim com risco considerável. Mosassauros e outros répteis marinhos tinham predileção por cefalópodes, mas a diferença de habitat entre águas rasas e profundas pode ter limitado encontros frequentes.
Ainda assim, a imagem de um confronto entre um polvo de 19 metros e um réptil marinho de dentes serrilhados permanece como uma das cenas mais cinematográficas da pré-história. A própria possibilidade de que alguns mosassauros realizassem mergulhos mais profundos, à semelhança de cachalotes modernos que descem mais de 3 mil metros para caçar lulas, mantém aberta a porta do assombro.
Nem todos, porém, aceitam sem reservas as dimensões propostas pelo estudo de 2026, já que estimar o tamanho corporal de cefalópodes a partir de mandíbulas envolve margens de incerteza significativas. Especialistas apontam que a relação entre partes duras e tecidos moles varia amplamente entre espécies, o que pode inflar projeções quando aplicadas a linhagens extintas.
Independentemente da controvérsia métrica, a existência de um polvo desse porte no Cretáceo altera a narrativa clássica de que os maiores predadores marinhos eram necessariamente vertebrados. Ela também ilumina a trajetória evolutiva dos cefalópodes, que surgiram no Cambriano há cerca de 530 milhões de anos, mas só deram origem aos polvos propriamente ditos no Jurássico Médio, há aproximadamente 155 milhões de anos.
A perda da concha, decisão evolutiva tomada por ancestrais semelhantes a lulas, pode ter sido a chave para a agilidade e a inteligência que hoje associamos aos polvos. No silêncio abissal do Pacífico do Cretáceo, essa escolha talvez tenha produzido algo mais do que um invertebrado gigante, forjando uma criatura que faz a mitologia parecer memória distorcida de um passado real.
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