Menu

Governo planeja reforçar Desenrola 2.0 com dinheiro esquecido em contas bancárias

50 Comentários🗣️🔥 Mulher segura um comprovante ou extrato, em imagem que remete a transações financeiras. (Foto: redir.folha.com.br) O governo federal estuda recorrer aos valores esquecidos por correntistas em contas bancárias para elevar a capacidade de garantia do Fundo de Garantia de Operações. O instrumento sustenta a renegociação de dívidas do programa Desenrola 2.0. A proposta […]

50 comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
Mulher segura um comprovante ou extrato, em imagem que remete a transações financeiras. (Foto: redir.folha.com.br)

O governo federal estuda recorrer aos valores esquecidos por correntistas em contas bancárias para elevar a capacidade de garantia do Fundo de Garantia de Operações.

O instrumento sustenta a renegociação de dívidas do programa Desenrola 2.0. A proposta mira cerca de R$ 10 bilhões que, após novo chamamento público, poderiam ser transferidos ao Tesouro e depois injetados no fundo.

Assim o Estado assegura a cobertura de eventuais calotes assumidos pelos bancos durante as rodadas de desconto. A ideia nasceu no Ministério da Fazenda, comandado por Fernando Haddad, e foi discutida no Palácio do Planalto com participação de assessores diretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O ponto central é garantir que, se o consumidor renegociar sua dívida com abatimento de até 80% e ainda assim não pagar, o FGO honre o saldo sem deixar prejuízo às instituições financeiras. Os recursos em jogo referem-se a saldos inativos por mais de um lustro cujos titulares não responderam ao edital previsto na Lei 14.973, aprovada em 2024.

A lei deu prazo de 30 dias para a retirada do dinheiro. Findo o período de consulta, os valores sem dono passariam ao controle da União, podendo ser apropriados pelo Tesouro para compor superávit primário ou outras finalidades de interesse público.

Na ocasião, o Banco Central vetou o uso dessa receita para melhorar o resultado fiscal, argumentando que, segundo normas internacionais de contabilidade, somente receitas resultantes de esforço tributário contam para o primário. Como o FGO é um fundo privado alimentado por aportes governamentais, técnicos da Fazenda defendem que uma nova rodada de consulta não fere esse entendimento e permite destinar o dinheiro a uma política pública de alívio ao endividamento.

Mesmo assim, integrantes da Casa Civil alertaram para o risco de judicialização, temendo questionamentos sobre a constitucionalidade da apropriação automática dos saldos. Segundo debate interno relatado pela coluna de Monica Bergamo na REDIR, o Planalto enxerga na medida um estímulo adicional para que bancos ampliem cortes nos débitos sem receio de inadimplência futura.

O desenho do Desenrola original já previa garantias estatais, mas a insuficiência de recursos do FGO limitou a escala das renegociações. Isso levou o governo a explorar fontes alternativas de capitalização.

Com o novo aporte, técnicos calculam que o fundo poderá multiplicar por três a capacidade de cobertura, elevando o alcance do programa. O movimento reduz também o risco sistêmico de crédito em um momento de juros ainda elevados.

Entre economistas desenvolvimentistas, a iniciativa é vista como forma de usar a poupança ociosa da sociedade para estimular o consumo e restaurar a adimplência de milhões de famílias. Líderes bancários ouvidos reservadamente avaliam que a solução reduz a incerteza regulatória, pois mantém o aporte fora do Orçamento e respeita o arcabouço fiscal.

Entidades de defesa do consumidor defendem que o edital de convocação seja amplamente divulgado, garantindo que titulares legítimos façam o resgate antes de qualquer transferência ao Tesouro. Parlamentares da base governista articulam movimento para proteger a proposta de contestações judiciais, destacando que a própria lei de 2024 autorizou a União a apropriar-se dos valores após esgotadas as tentativas de notificação.

Se confirmado, o uso do dinheiro esquecido poderá transformar um recurso inativo em benefício social, auxiliando a reverter o ciclo de endividamento. Lula deve definir os próximos passos da iniciativa em breve.


Leia também: Governo Lula lança Desenrola 2.0 com uso do FGTS e juros mínimos de 1,99% ao mês


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


,
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Pedro

03/05/2026

Ana Souza, é isso mesmo, parece improviso. Trabalho de motorista de app e sei bem como é difícil juntar dinheiro. Se o governo pegar esses valores esquecidos pra bancar garantia de empréstimo, quem vai ter acesso? O pobre que deve até o nome no SPC continua pagando juro de agiota, enquanto banco grande se livra do prejuízo. No fim, a gasolina sobe e o IPVA não dá desconto.

Ana Souza

03/05/2026

Parece mais um improviso do que um plano. Se o dinheiro é do cidadão, devolver já deveria ser obrigação do banco, não moeda de troca pra programa de governo. Mas também não dá pra demonizar qualquer tentativa de ajudar quem tá endividado — a Nadia tem razão sobre os juros serem o verdadeiro câncer.

Nadia Petrova

03/05/2026

Cecília, você foi certeira: enquanto o governo faz malabarismo contábil com trocados esquecidos em banco, ninguém toca no elefante na sala — juros reais estratosféricos e um sistema financeiro que lucra com calote. A ironia é que o mesmo Estado que agora “redescobre” esse dinheiro é o que sempre defendeu sigilo bancário absoluto contra qualquer auditoria. Se fosse pra usar criatividade fiscal, que taxassem de uma vez os lucros extraordinários dos bancos, não?

Cecília Ramos

03/05/2026

João Augusto, você trouxe um ponto essencial: o Estado fica fazendo malabarismo com dinheiro esquecido enquanto não enfrenta o verdadeiro problema, que é o sistema financeiro empurrando crédito podre e juros abusivos pra quem já vive apertado. Como cristã, acho que justiça social não se faz com esmola de banco, mas com regulação de verdade e políticas que ataquem a raiz da desigualdade. Essa medida pode até aliviar um pouco, mas me preocupa virar só mais um remendo num modelo que continua explorando o pobre.

João Augusto

03/05/2026

O debate sobre o “dinheiro esquecido” revela algo que Gramsci chamaria de crise de hegemonia: o Estado tenta arbitrar entre capital financeiro e cidadãos endividados sem tocar na estrutura que produz o endividamento em massa. Enquanto isso, o sistema bancário opera com lucros recordes e juros que são verdadeira usura institucionalizada.

Celio Fazendeiro

03/05/2026

Essa turma do governo é uma vergonha, querem pegar dinheiro que não é deles pra bancar irresponsabilidade fiscal. Propriedade privada tem que ser respeitada, seja de rico ou pobre. Enquanto isso, o agro produz e o Brasil só atrapalha.

    Cláudio Ribeiro

    03/05/2026

    Célio, sua defesa da propriedade privada é coerente, mas o discurso de que “o agro produz e o Brasil atrapalha” ignora que o agronegócio brasileiro só existe porque o Estado financiou pesquisa, crédito subsidiado e infraestrutura por décadas. O que você chama de “irresponsabilidade fiscal” é, na verdade, o Estado tentando corrigir uma assimetria histórica em que o lucro foi privatizado e o endividamento das famílias, socializado.

Paulo Ribeiro

03/05/2026

Caro Márcio Torres, você tocou num ponto nevrálgico que merece um aprofundamento teórico. A discussão sobre o “dinheiro esquecido” não pode ser reduzida a um mero debate moral entre “devolver ao cidadão” versus “usar para o povo”. O que está em jogo aqui é a própria natureza do Estado burguês e sua função na reprodução do capital. Quando o Sargento Bruno invoca a “propriedade privada” como um absoluto, ele comete o equívoco de fetichizar uma categoria jurídica que, na prática, já foi solapada pelo próprio sistema financeiro. Os bancos, esses sim, já se apropriaram desses valores como lucro contábil há anos, utilizando-os como lastro para suas operações especulativas. O Estado, ao canalizar esses recursos para o Desenrola, não está “roubando” ninguém — está, na verdade, tentando corrigir uma distorção estrutural onde o capital financeiro sempre se apropria do fundo público sem contrapartida social.

O programa Desenrola, em si, é uma medida paliativa dentro da lógica do capitalismo dependente brasileiro. Gramsci já nos alertava sobre a “revolução passiva” como mecanismo pelo qual as classes dominantes incorporam demandas populares sem alterar a correlação de forças fundamental. O governo petista, ao recorrer a esses valores esquecidos, está operando dentro dos limites do possível num Estado que permanece subordinado aos interesses do capital financeiro. A verdadeira questão, que o João Pereira e o Tiago Mendes tangenciam mas não enfrentam, é: por que precisamos de um programa de renegociação de dívidas em vez de políticas que ataquem as causas do endividamento massivo? O superendividamento das famílias trabalhadoras não é fruto de irresponsabilidade individual, como quer o discurso meritocrático, mas sim da financeirização da vida sob o neoliberalismo tardio.

Mariátegui, ao analisar a realidade peruana, já nos ensinava que não se pode compreender um fenômeno social sem examinar suas raízes econômicas e históricas concretas. O dinheiro esquecido nos bancos é apenas a ponta do iceberg de um sistema onde 0,1% da população detém mais riqueza que 90% dos brasileiros. Enquanto discutimos se o governo deve ou não usar esses recursos para garantia de operações de crédito, os bancos continuam lucrando com spreads absurdos e com a apropriação de valores que, na prática, já consideram como seus. O debate deveria ser sobre a necessidade de um sistema financeiro público e democrático, que subordine a lógica do lucro às necessidades sociais. O Desenrola 2.0, com todos os seus limites, ao menos reconhece que o endividamento é uma questão coletiva, não individual — e isso, convenhamos, já é um avanço em relação ao discurso reacionário que culpa o pobre por sua própria miséria.

João Carvalho

03/05/2026

Sargento Bruno, o senhor tem razão em defender a propriedade privada, mas na prática a grana esquecida já virou lucro pro banco. Se o governo pegar esse dinheiro pra ajudar o povo a sair do vermelho, acho melhor do que deixar com os banqueiros, que só pensam no lucro deles.

    Márcio Torres

    03/05/2026

    João, você faz uma concessão retórica interessante ao Sargento Bruno, mas acaba caindo na mesma armadilha de quem acredita que o problema se resolve com uma simples troca de mãos: tirar dos bancos e dar ao povo. A questão é mais estrutural e menos moral do que parece. Dizer que o dinheiro esquecido “já virou lucro pro banco” é uma meia-verdade contábil. Esses valores estão registrados como passivo nos balanços das instituições financeiras, não como lucro realizado. O que os bancos fazem é provisionar esses recursos e, com o tempo, incorporá-los como receita operacional quando prescrevem os prazos legais de reivindicação. Mas aí está o ponto: se o governo simplesmente confisca esse passivo para abater dívidas do Desenrola, ele está, na prática, realizando uma transferência patrimonial forçada — e isso, por mais simpático que soe, é juridicamente frágil.

    A narrativa de que “os banqueiros só pensam no lucro” é um atalho emocional que nos impede de enxergar o verdadeiro problema. Bancos são agentes racionais dentro de um sistema de regras. Se as regras permitem que eles se apropriem de recursos esquecidos após determinado prazo, o problema não é a ganância deles, mas a legislação que autoriza essa apropriação. O governo, em vez de mudar a lei para devolver esses valores aos cidadãos ou criar um fundo público transparente, prefere fazer uma manobra contábil que maquia o déficit fiscal e ainda se apresenta como salvador dos endividados. Isso não é justiça social, é engenharia orçamentária de curto prazo.

    O que me incomoda nessa discussão é o falso dilema entre “bancos malvados” e “Estado bonzinho”. A história mostra que, quando o Estado assume o papel de redistribuidor de recursos mal contabilizados, raramente o resultado é eficiente. O dinheiro esquecido deveria, idealmente, ser devolvido aos titulares ou, na impossibilidade disso, ir para um fundo público com regras claras de auditoria e destinação. Usá-lo como garantia para um programa de renegociação de dívidas que já mostrou resultados ambíguos em termos de sustentabilidade fiscal é apenas mais um capítulo da mesma novela: o governo empurrando problemas com a vassoura mágica da criatividade contábil. Enquanto isso, a responsabilidade fiscal e o respeito ao direito de propriedade continuam sendo tratados como conceitos abstratos, bons para discurso, mas péssimos para a prática.

Tiago Mendes

03/05/2026

Sargento Bruno, discordo com todo respeito. Dinheiro esquecido em banco não é propriedade ativa de ninguém — é recurso que já virou lucro dos bancos. Se for usado pra tirar famílias do sufoco do endividamento, isso sim é respeito ao próximo. A Bíblia é clara: “reparte com o necessitado” (Provérbios 21:13).

João Pereira

03/05/2026

Sargento Bruno, respeito seu ponto sobre propriedade privada, mas vamos combinar: esses valores “esquecidos” já foram praticamente incorporados pelos bancos como lucro. Se o governo ao menos canaliza isso para um programa que tira gente do vermelho, já é menos pior do que deixar o dinheiro engordando o balanço dos mesmos bancos que cobram juros de 400% ao ano no rotativo.

Sargento Bruno

03/05/2026

Mais uma manobra contábil desse governo para maquiar a realidade. Dinheiro esquecido é do cidadão, não do Estado. Em vez de devolver ao dono, querem usar como garantia para um programa que só incentiva a inadimplência. Cadê a responsabilidade fiscal e o respeito à propriedade privada?

Marta

03/05/2026

Gente, vamos com calma que a aula de história já vai começar. O Pedro Almeida ali em cima foi cirúrgico: não é gambiarra, é uma tentativa de fazer o sistema financeiro devolver um pouco do que sempre engoliu calado. Eu, que passei 35 anos dando aula em escola pública, vi de perto o que acontece quando uma família inteira entra no vermelho por causa de um juro compostos que ninguém explicou direito na escola. O dinheiro esquecido em banco não é “achado” do governo nem lucro do banqueiro, é suor do povo brasileiro que um dia caiu numa taxa abusiva e nunca mais conseguiu reaver.

Os meninos mal-educados do liberalismo econômico adoram repetir que “o pobre que deve é irresponsável”, mas esquecem de contar que o spread bancário brasileiro é um dos maiores do planeta. Enquanto isso, o mesmo sistema que cobra 400% ao ano no cheque especial usa o dinheiro esquecido como receita operacional. Usar esses valores como garantia para o Desenrola 2.0 é, no mínimo, uma forma de fazer justiça com as próprias mãos do Estado. Se o banco já considera aquele dinheiro como “lucro não realizado”, que seja usado para limpar o nome de quem foi empurrado para o endividamento por um modelo econômico predatório.

Agora, sobre o comentário do Carlos A. Mendes: com todo respeito, meu filho, mas “gambiarra contábil” é chamar o que? O sistema financeiro inteiro é uma gambiarra legalizada para transferir renda de quem trabalha para quem especula. Se o governo Lula está usando o dinheiro que os bancos já engoliram como garantia para renegociar dívidas, isso não é criatividade contábil, é engenharia social. O Desenrola já tirou milhões do vermelho. Se tiver que usar até o troco esquecido no caixa eletrônico para continuar esse trabalho, que use. O que não pode é deixar o povo se afogar enquanto o sistema financeiro nada de braçada.

E para encerrar: não venham com esse papo de que “o governo está gastando demais”. O governo está usando o dinheiro que já era do povo para salvar o povo. Se os bancos não querem perder a mamata, que devolvam voluntariamente os valores esquecidos. Enquanto não devolvem, o Estado faz o que sempre deveria ter feito: usar o dinheiro do sistema para proteger quem mais precisa. Isso não é esmola, é reparação histórica. E quem acha que endividamento é questão de “mérito” precisa voltar para a escola. Aula de história, de preferência.

Pedro Almeida

03/05/2026

O Mateus Silva tocou no cerne da questão: o sistema bancário brasileiro opera historicamente como um quasi-monopólio que se apropria de valores “esquecidos” como receita. A ideia de usar esses recursos como garantia para o Desenrola não é gambiarra, é uma tentativa de redirecionar ao menos uma fração desse excedente financeiro para aliviar a situação de quem foi empurrado para o endividamento por juros predatórios e ausência de políticas de crédito acessível. Se os bancos já contabilizam esse dinheiro como lucro não realizado, por que não usá-lo para reduzir o sofrimento social causado pelo mesmo sistema?

Mateus Silva

03/05/2026

O Roberto Lima repete o discurso do mérito individual como se o sistema bancário brasileiro não fosse um dos maiores concentradores de riqueza do planeta, com spread que é piada internacional. Usar dinheiro esquecido — que os bancos já consideram lucro não realizado — como garantia para renegociar dívida de quem foi empurrado para o endividamento por juros abusivos não é “caloteiro pagando com poupança alheia”, é no máximo uma engenharia financeira que expõe como o Estado sempre socorre banco, nunca o devedor.

João Carlos Silva

03/05/2026

Pois é, Carlos A. Mendes, você tocou num ponto importante. Essa história de usar dinheiro esquecido como garantia parece mais uma gambiarra pra fechar as contas do que uma solução de verdade. O pobre que deve continua se apertando pra pagar, e o dinheiro que podia ajudar geral some nesses esquemas. Tomara que pelo menos funcione pra quem tá sufocado com dívida, mas confiança mesmo eu não tenho não.

Carlos A. Mendes

03/05/2026

Pô, a ideia é boa em teoria, mas usar dinheiro esquecido como garantia me soa meio gambiarra contábil. Se o banco já considera aquilo como “não reclamado”, por que não devolve logo pro Tesouro ou usa num fundo social mais transparente? Fico com um pé atrás com esses malabarismos fiscais.

Roberto Lima

03/05/2026

Mais uma vez o governo querendo resolver problema de caloteiro com dinheiro de quem poupou. Enquanto isso, empresário que paga imposto certinho se vira pra sobreviver nesse país. Esse pessoal da esquerda adora inventar taxa e imposto, mas na hora de pegar dinheiro alheio são os primeiros. Brasil pra brasileiro de bem, não pra sustentar vagabundo.

    Carlos Henrique Silva

    03/05/2026

    Roberto, seu comentário repete um mantra que já ouvi dezenas de vezes em sala de aula e em debates públicos: a ideia de que existe um “brasileiro de bem” que paga imposto e um “vagabundo” que só quer calote. O problema é que essa dicotomia moral não resiste a cinco minutos de análise dos dados concretos do sistema financeiro brasileiro. Você menciona o empresário que “paga imposto certinho” — será que esse mesmo empresário paga os 40% de juros reais do rotativo do cartão de crédito quando atrasa um pagamento? Ou os 200% ao ano do cheque especial? Não, porque empresário tem acesso a crédito subsidiado no BNDES, a linhas de capital de giro com juros negativos em termos reais, enquanto o trabalhador que precisa parcelar a compra do mês é tratado como devedor contumaz. O sistema não é neutro: ele foi desenhado para que o grande capital nunca precise se sujeitar às mesmas taxas que esmagam o pequeno devedor.

    Agora, sobre o “dinheiro esquecido”: você acha mesmo que o governo está “pegando dinheiro alheio”? Esse dinheiro já é do Estado, Roberto. São recursos de tarifas bancárias, de taxas de juros abusivas, de cobranças indevidas que ficaram paradas em contas inativas por anos porque os bancos simplesmente não avisam os correntistas. O Banco Central estima que mais de R$ 8 bilhões estejam parados — e os bancos usam esse montante como funding gratuito para emprestar a juros estratosféricos. O governo, ao usar parte disso para abater dívidas de quem foi empurrado para o superendividamento por esse mesmo sistema, está apenas corrigindo uma distorção histórica. Não é “mão no dinheiro alheio”, é devolver ao cidadão aquilo que o sistema bancário tomou dele com juros compostos e multas abusivas.

    E aqui vai um ponto que seus colegas de thread ignoram: o empresário que “se vira” muitas vezes é o mesmo que contrata trabalhador PJ para não pagar direitos trabalhistas, que atrasa salário e depois negocia com juros de mercado. Não estou dizendo que todo empresário é mau-caráter — longe disso. Mas a narrativa de que o pequeno empresário é vítima do Estado e o devedor é vagabundo esconde que ambos são vítimas do mesmo sistema financeiro concentrado. O Banco do Brasil, o Itaú e o Bradesco tiveram lucro recorde em 2023, enquanto a inadimplência das famílias bateu recorde. Alguém está ganhando com essa história, e não é o “brasileiro de bem” que você defende.

    Por fim, Roberto, sugiro uma leitura de Gramsci quando ele fala de hegemonia cultural: a classe dominante não precisa de exército para governar, basta convencer o trabalhador de que seu inimigo é o vizinho que atrasou o cartão, e não o banqueiro que cobra 400% ao ano. O Desenrola não é esmola para caloteiro, é um paliativo diante de um sistema que transforma dívida em mercadoria. Se você quer um Brasil de fato para brasileiro de bem, comece defendendo regulação de juros, taxação de grandes fortunas e fim do privilégio bancário. Enquanto isso, chamar de “vagabundo” quem foi esmagado por esse sistema é apenas repetir o discurso de quem lucra com a miséria alheia.

Cecília Silva

03/05/2026

Carlos, você tocou no ponto que o Paulo e o Ricardo se recusam a enxergar. O sistema financeiro brasileiro é um dos maiores tomadores de dinheiro público, com juros que sufocam o trabalhador. Enquanto isso, quem tem dinheiro esquecido em conta geralmente é quem conseguiu poupar algum trocado, não banqueiro. O governo deveria era obrigar os bancos a devolverem esse dinheiro de forma simples, sem precisar de programa de renegociação pra justificar.

Ricardo Menezes

03/05/2026

Paulo Rocha falou tudo. Mais uma vez o governo querendo resolver problema de caloteiro com dinheiro de quem poupou. Enquanto isso, empresário que paga imposto certinho se vira pra sobreviver nesse país.

    Carlos Oliveira

    03/05/2026

    Ricardo, com todo respeito, mas chamar de “caloteiro” quem foi esmagado por juros de 400% ao ano no cartão de crédito é ignorar que o sistema financeiro brasileiro é o maior tomador de recursos públicos da história. Enquanto isso, o empresário que “paga imposto certinho” muitas vezes é o mesmo que sonega INSS e financia candidato que vota contra a regulamentação do trabalho por aplicativo.

Paulo Rocha

03/05/2026

Mais um jeitinho de pegar dinheiro alheio pra pagar mordomia de caloteiro. Esse governo não cansa de inventar taxa, imposto e agora quer meter a mão em dinheiro que nem é dele. Brasil pra brasileiro de bem, não pra sustentar vagabundo. Vai pra Cuba, Lula!

Cíntia Alves

03/05/2026

Cecília, você trouxe um ponto que me parece o cerne da questão: essa engenharia financeira transfere o risco para quem nunca foi consultado. O governo parte de uma premissa razoável (usar recursos ociosos para alavancar crédito), mas a forma como faz isso é tortuosa. Se o dinheiro é do cidadão, deveria haver um rito mais transparente de notificação antes de qualquer realocação, mesmo que temporária.

Cecília Torres

03/05/2026

Ana, o problema não é só a burocracia pra resgatar — é que essa conta nunca fecha direito. O governo pega um dinheiro que, por definição, não é dele, usa como garantia num programa que depende de adesão voluntária dos bancos, e no fim quem paga a fatura de eventual calote é o contribuinte que nunca esqueceu nada. Falta transparência sobre quanto efetivamente será usado e qual o percentual de recuperação esperado.

Ana Rodrigues

03/05/2026

Pô, Beatriz, você tem um ponto, mas na prática o que vai acontecer é que quem tem dinheiro esquecido vai ter que correr atrás pra provar que é dono, enquanto o governo já usa o valor como garantia. Já tive que perder uma manhã no banco pra resgatar R$ 30 de um talão antigo, imagina se vira um rolo desses. Pra mim, o Desenrola podia funcionar sem precisar inventar atalho com grana que nem é do governo.

Beatriz Lima

03/05/2026

O Helton Barros tem uma visão bonitinha, quase ingênua, de que dinheiro esquecido em banco é propriedade sagrada e intocável. Vamos aos fatos: esses valores não estão numa conta remunerada rendendo CDI pro titular. Estão parados, muitas vezes há mais de uma década, enquanto o banco os usa como lastro pra emprestar a juros de 300% ao ano no rotativo do cartão. Se o Estado não pegar essa sobra, o banco vai continuar lucrando em cima dela sem pagar um centavo de aluguel pro dono. A questão real não é se o governo pode usar — é se o banco pode reter indefinidamente.

A discussão jurídica aqui é fascinante. O STF já decidiu que dinheiro esquecido prescreve em favor do banco? Não. O que existe é uma prescrição da pretensão de cobrança, não a transferência de titularidade. Tecnicamente, o dinheiro continua sendo do correntista, mas se ele não reclama em 5 anos, o banco deixa de ser obrigado a devolver. É uma aberração lógica: o banco fica com o ativo, mas sem título de propriedade. O governo, ao usar isso como garantia no Desenrola, está basicamente fazendo o que o sistema financeiro já faz na prática — só que com um verniz de política pública.

O que me incomoda mais nessa thread é o falso dilema entre “propriedade privada inviolável” e “estado ladrão”. A Mariana Ambiental e o Lucas Pinto já mostraram que o problema é estrutural: o sistema permite que os bancos criem moeda a partir de depósitos esquecidos, multipliquem esse dinheiro em operações de crédito, e ainda cobrem tarifas de manutenção de conta que consomem o saldo. Se o governo quer usar R$ 8 bilhões esquecidos pra alavancar um fundo de garantia, isso é peanuts perto do que os bancos lucram anualmente com a assimetria de informação. O Helton deveria estar mais bravo com o Itaú do que com a Caixa.

No fim das contas, o Desenrola 2.0 é um band-aid num sistema de crédito podre, e usar dinheiro esquecido como garantia é criativo, mas não resolve a raiz do problema. O que precisava mesmo era de regulação que obrigasse os bancos a devolver esses valores automaticamente após 2 anos de inatividade, com correção, e não deixar o dinheiro apodrecer no balanço deles até virar “garantia soberana”. Mas aí, Helton, você ia perder a chance de reclamar que o governo está roubando seu dinheiro esquecido — que você nem sabia que tinha.

Sgt Bruno 🇧🇷

03/05/2026

Selva! Rick Ancap falou bonito, mas esqueceu que banco usa esse dinheiro parado pra lucrar sem pagar um centavo pro dono. Se é propriedade privada esquecida, que devolvam com correção então. Esse governo só sabe inventar taxa e confisco pra encobrir a própria incompetência.

    Lucas Pinto

    03/05/2026

    Sargento, você tocou num ponto que o pessoal da direita liberal nunca consegue responder sem apelar para a metafísica da propriedade: se o dinheiro está “esquecido” há anos, o banco já o transformou em lastro para empréstimos a juros compostos, lucrou com ele, e o “dono” original, quando aparece, recebe o valor nominal sem correção nem participação nos lucros que o banco teve com o dinheiro dele. Isso não é propriedade privada no sentido lockeano de “misturar o trabalho com a terra” — é um privilégio legal que permite ao sistema financeiro extrair renda de um recurso que, na prática, virou um fundo coletivo de garantia para a ciranda bancária. O Estado, ao realocar esse montante para o Desenrola, não está confiscando propriedade ativa; está questionando o direito de banco e correntista manterem uma relação de abandono que só beneficia o intermediário.

    Agora, sobre a “incompetência do governo”: esse discurso ignora que a chamada competência fiscal sempre foi uma ficção ideológica. Desde o Plano Real, o Estado brasileiro opera com um superávit primário que serve para pagar juros da dívida pública, enquanto a população trabalhadora financia o sistema com impostos regressivos. O Desenrola 2.0 é uma tentativa paliativa de conter a sangria do endividamento das famílias, que não é fruto de “irresponsabilidade” individual, mas da financeirização da vida cotidiana — salário que não cobre aluguel, plano de saúde e transporte, e o cartão de crédito vira a única tábua de salvação. Chamar isso de incompetência é fazer o jogo do moralismo liberal que criminaliza o pobre e naturaliza o lucro bancário.

    O que me irrita nesse debate é a recusa em enxergar a dimensão gramsciana da disputa: o senso comum hegemônico, reproduzido por você e pelo Rick, trata o dinheiro como uma coisa sagrada que não pode ser tocada, enquanto o banco, que é o verdadeiro agente do confisco, opera na invisibilidade. O Estado burguês, quando intervém a favor do capital financeiro, é chamado de “regulador”; quando tenta desviar uma migalha para aliviar a vida do devedor, vira “confiscador”. Não há incompetência aqui, Sargento — há um projeto de classe que precisa ser desnaturalizado. O dinheiro esquecido nos bancos é a metáfora perfeita do capitalismo contemporâneo: um recurso socialmente produzido, apropriado privadamente e, quando “sobra”, o Estado precisa disputá-lo com os rentistas. Se você quer coerência, exija que os bancos devolvam com correção monetária plena e ainda paguem multa por uso indevido. Mas enquanto isso não acontece, prefiro ver esse dinheiro amortizando dívida de quem foi expulso do mercado de consumo do que engordando o balanço do Itaú.

Helton Barros

03/05/2026

Mais um jeitinho desse governo de meter a mão no bolso de quem trabalhou honestamente pra juntar uma reserva. Dinheiro esquecido é do cidadão, não é xepa pra bancar perdão de dívida de quem nunca aprendeu a se virar. Enquanto isso, o brasileiro que paga imposto em dia que se vire.

    Mariana Santos

    03/05/2026

    Helton, você chama de “jeitinho” o que deveria ser chamado de política pública de reparação. Enquanto o sistema financeiro lucra bilhões com juros rotativos e tarifas abusivas, você acha justo que o mesmo cidadão que teve o nome sujo por um imprevisto médico ou desemprego seja tratado como “vagabundo”? O dinheiro esquecido é público por abandono, e usá-lo para limpar o nome de 12 milhões de brasileiros é menos imoral que deixar bancos lucrarem com ele sem devolver um centavo à sociedade.

Rick Ancap

03/05/2026

dinheiro esquecido” não existe, é propriedade privada, mas o governo adora achar que pode pegar o que não é dele pra bancar irresponsabilidade fiscal.

    Mariana Ambiental

    03/05/2026

    Rick, propriedade privada inativa que o banco usa pra lucrar sem te pagar um centavo não é propriedade sua de fato — é subsídio disfarçado pra rentista. Se o Estado já pode confiscar herança sem testamento e cobrar imposto sobre doação, por que não pode usar recurso abandonado há anos pra evitar que famílias virem escravas de juro abusivo?

João Santos

03/05/2026

Ah, Tonho Patriota, você falou tudo! Esse dinheiro esquecido é do trabalhador que ralou pra ter, não é pra bancar perdão de dívida de quem não paga. O governo inventa cada desculpa pra gastar, né? Bandido bom é bandido preso, e vagabundo endividado que não assume responsabilidade também tem que se virar.

    Ana Karine Xavante

    03/05/2026

    João Santos, seu comentário ecoa uma visão de mundo que eu conheço bem: a do mérito individual como único motor da vida, onde endividamento é falha de caráter e pobreza é culpa de quem não se esforça. Mas essa lógica ignora o sistema que produz esses endividados em massa. Você fala em “trabalhador que ralou pra ter” como se todo mundo partisse do mesmo ponto de largada. Um indígena no Mato Grosso, um morador da periferia de São Paulo e um herdeiro do centro expandido não competem na mesma pista. O dinheiro esquecido em bancos não é suor do trabalhador individual — é fruto de um sistema financeiro que se apropria de centavos, taxas e saldos residuais de milhões de pessoas, muitas delas analfabetas funcionais que nem sabem que têm direito a esse valor. Chamar isso de “roubo” quando o Estado o redireciona para aliviar a vida de quem está sufocado por juros abusivos é, no mínimo, uma inversão cruel da realidade.

    Você usa a expressão “bandido bom é bandido preso” e associa endividados a vagabundos. Isso me soa como a mesma retórica que criminaliza a pobreza enquanto protege os verdadeiros predadores do sistema financeiro. Os bancos cobram 400% de juros no rotativo do cartão de crédito, executam dívidas com juros compostos que multiplicam o valor original em poucos meses e, quando o trabalhador não paga, vendem a dívida para fundos de investimento que lucram com o sofrimento alheio. Quem é o bandido aí? Quem é o vagabundo? O sujeito que perdeu o emprego na pandemia, pegou um empréstimo para não passar fome e agora deve o triplo do que tomou — ou o banco que sabia exatamente que ele não conseguiria pagar e mesmo assim emprestou?

    E tem uma camada mais profunda nessa história que poucos enxergam, porque a branquitude e a colonialidade nos ensinaram a naturalizar a dívida como destino. O endividamento das famílias brasileiras não é acidente: é política de Estado desde o Plano Real, que jogou os pobres no crédito fácil como substituto de salário digno e políticas públicas. Enquanto isso, o dinheiro esquecido nos bancos — que é nosso, coletivo, porque o sistema bancário opera com concessão pública — fica parado gerando lucro para acionistas. Usar esse montante para perdoar dívidas de quem já pagou três, quatro vezes o valor original em juros não é esmola: é reparação mínima. É o Estado reconhecendo que ele mesmo criou as condições para esse endividamento em massa. Se você acha justo que o banco lucre com dinheiro esquecido e injusto que o Estado o use para saldar dívidas impagáveis, então a conversa não é sobre responsabilidade individual — é sobre quem você acha que merece ser salvo. E eu, como indígena que vê seu povo ser expulso da terra por dívidas agrícolas que nunca pediu, sei muito bem quem o sistema escolhe salvar.

Sofia García

03/05/2026

gente, a Alice T. já explicou tudo: esse dinheiro esquecido é do Estado desde 2021 e os bancos lucram horrores com ele parado. usar pra ajudar quem tá devendo é o mínimo, né? enquanto isso o Tonho aí acha que é roubo mas não reclama do banco cobrando 400% de juros no cartão de crédito.

Alice T.

03/05/2026

Tonho, respira fundo e vai estudar um pouco. O dinheiro esquecido nos bancos já é do Estado por lei desde 2021, só não foi usado. Enquanto isso, banco lucra bilhões aplicando seu “suado dinheirinho” sem te pagar um centavo de correção. O problema não é ajudar quem tá devendo, é você achar que banco é seu amigo.

Tonho Patriota

03/05/2026

ISSO É ROUBO DESCABIDO! ESSE DINHEIRO É DO POVO TRABALHADOR QUE ESQUECEU, NÃO É DO LULADRÃO PRA FICAR DANDO DE GRAÇA PRA VAGABUNDO ENDIVIDADO! FAZ O L, COMUNISTAS!

    Samara Oliveira

    03/05/2026

    Tonho, amado, Jesus ensinou que a quem muito é dado, muito será cobrado. Chamar o próximo de vagabundo por estar endividado é esquecer que a graça de Deus alcança a todos, inclusive quem tropeça. Seu dinheiro esquecido não é mais seu do que o pão nosso de cada dia que pedimos no Pai Nosso.

Luiz Augusto

03/05/2026

Maura, o problema não é usar dinheiro esquecido, é o Estado achar que pode pegar o que é privado sem autorização do dono. Se o sujeito não reclamou em anos, o correto é reverter aos cofres públicos como receita, não virar garantia de programa eleitoreiro. Enquanto isso, o governo gasta mais com subsídio do que com educação básica.

    João Silva

    03/05/2026

    Luiz Augusto, você toca num ponto interessante sobre a propriedade privada, mas esquece que esse dinheiro não está sendo confiscado — está parado há anos sem reivindicação num sistema bancário que lucra bilhões com a inércia dos correntistas. Se o problema é o Estado gastar mal, a crítica deveria ser direcionada aos subsídios que você mesmo menciona, não a uma medida que tenta, ainda que precariamente, redistribuir um recurso ocioso para tirar gente do sufoco.

Maura Santos

03/05/2026

Eduardo, amigo, você lembra quando a turma do “Estado mínimo” deixou um apagão de políticas públicas que quebrou meio país? Agora tão chorando porque querem usar dinheiro parado há anos em conta de banco pra tirar trabalhador do vermelho. Relaxa que seu dinheiro suado não vai virar bolsa de ninguém, a não ser que você tenha esquecido ele lá.

Eduardo Nogueira

03/05/2026

Lurdinha, para de lacrar e vai catar teu dinheiro esquecido logo antes do governo meter a mão. Enquanto isso, a esquerda inventa cada jeito de tirar do povo pra dar pra vagabundo endividado. Brasil tá virando república banananeira mesmo.

    Letícia Fernandes

    03/05/2026

    Eduardo, seu comentário é um retrato quase didático do que a psicanálise chama de formação reativa: você projeta no outro o medo que sente de ser despossuído. “Vai catar teu dinheiro esquecido logo antes do governo meter a mão” – essa frase revela menos sobre o que o governo faz e mais sobre como o sujeito neoliberal interiorizou a lógica da concorrência generalizada. Para você, o mundo é uma arena onde cada um agarra o que pode antes que o Estado (essa entidade abstrata que você trata como inimigo) venha tomar. O problema é que essa fantasia de confisco ignora a materialidade do processo: aqueles valores já foram contabilizados como lucro pelos bancos há anos, emprestados a juros compostos enquanto o trabalhador endividado pagava a conta. O Estado não está “metendo a mão” no seu saldo disponível; está, tardiamente, redirecionando um recurso que o sistema financeiro já havia apropriado privadamente.

    Sua segunda sentença é ainda mais reveladora: “a esquerda inventa cada jeito de tirar do povo pra dar pra vagabundo endividado”. Aqui a ideologia opera com toda sua potência. Você classifica como “vagabundo” exatamente quem foi submetido à mesma engrenagem que você – a diferença é que a corda arrebentou para o lado mais frágil. O endividamento das famílias brasileiras não é fruto de irresponsabilidade individual; é uma política de Estado que, desde o Plano Real, empurra o consumo como substituto do salário digno. O trabalhador não se endivida porque é vagabundo; endivida-se porque o custo de vida supera o rendimento, porque o aluguel come metade do salário mínimo, porque o plano de saúde virou loteria. Chamá-lo de vagabundo é o conforto moral de quem precisa acreditar que o sofrimento alheio é merecido para não ter que encarar a fragilidade da própria condição.

    Por fim, “Brasil tá virando república banananeira mesmo” – essa é a muleta retórica de quem não consegue argumentar sem recorrer ao nacionalismo derrotista. A república banananeira não é o país que tenta usar recursos ociosos para aliviar a vida de quem deve; é o país onde os bancos lucram com dinheiro parado enquanto o povo se afoga em juros. O desespero que você sente diante de uma medida redistributiva tão modesta quanto o Desenrola 2.0 revela o quanto sua subjetividade foi capturada pelo capital financeiro: você defende com unhas e dentes um sistema que, no fundo, trata você como mero número na planilha de lucros. A pergunta que fica é: por que a simples ideia de que o dinheiro esquecido possa servir para alguém respirar te incomoda tanto? Talvez porque, no fundo, você saiba que amanhã pode ser você o “vagabundo endividado” que precisa de um respiro. E aí, quem vai te estender a mão?

Lurdinha Deus Acima de Todos

03/05/2026

Ah, lá vem eles querendo pegar o dinheiro que a gente esqueceu na conta pra pagar dívida dos outros… já pensou se eu lembrar amanhã e não ter mais nada? 🙏😡🇧🇷

    Rubens O Pescador

    03/05/2026

    Lurdinha, na minha roça a gente aprendeu que dinheiro parado não bota comida na mesa. Lembro quando o povo aqui da vila tava tudo enrolado com dívida e o Lula fez o primeiro Desenrola — meu vizinho Zé pôde respirar de novo. Esse dinheiro esquecido é seu sim, mas se for pra ajudar quem tá devendo e movimentar a economia, é melhor do que ficar mofando no banco.

    Augusto Silva

    03/05/2026

    Lurdinha, fique tranquila: ninguém vai confiscar seu dinheiro — o governo só quer usar os valores realmente abandonados (sem movimentação há anos e já contabilizados como receita pelos bancos) para abater dívidas de quem precisa, enquanto seu saldo continua intacto e disponível no banco. Se você lembrar amanhã, ele estará lá; o problema é que 8,5 bilhões de reais parados não ajudam nem quem esqueceu nem a economia real.

    Ronaldo Pereira

    03/05/2026

    Lurdinha, com todo respeito, mas esse dinheiro esquecido já foi contabilizado como lucro pelos bancos há anos — eles usaram ele pra emprestar a juros altos enquanto o povo se afogava em dívida. Se for pra escolher entre devolver isso pra aliviar o trabalhador endividado ou deixar no bolso dos banqueiros, eu fico com o povo, não com o gerente.

    Julia Andrade

    03/05/2026

    Lurdinha, entendo sua desconfiança — vivemos num país onde o Estado frequentemente trata o cidadão como súdito, não como sujeito de direitos. Mas preciso te convidar a olhar para esse dinheiro esquecido de um ângulo que talvez você não tenha considerado. Esses valores não estão simplesmente parados numa gaveta esperando você lembrar deles amanhã. Eles estão nos balanços dos bancos há anos, sendo usados como lastro para operações de crédito que cobram juros exorbitantes de quem já está endividado. O sistema financeiro já contabilizou esse montante como receita própria — emprestou, cobrou juros, lucrou. O que o governo propõe não é pegar o seu dinheiro, mas redirecionar uma parcela desses recursos que os bancos já tratam como deles há tempos, e que nunca serão reclamados pela maioria das pessoas (dados do BC mostram que 70% dos valores esquecidos têm menos de 10 reais e ficam lá por mais de 5 anos sem movimentação).

    A questão de fundo é sobre a função social da propriedade e do dinheiro. Você lembrar amanhã e encontrar seu saldo intacto é um direito seu, sim — e ninguém está propondo tirar isso de você. A proposta mira os valores realmente abandonados, sem movimentação por anos, que os próprios bancos já registraram como lucro não realizado. Mas o que me incomoda mais profundamente é a lógica individualista que essa reação revela: a ideia de que o problema da dívida alheia não me diz respeito. Só que a dívida não é um fenômeno individual — ela é estrutural. O trabalhador endividado não está nessa situação porque foi irresponsável, mas porque vive num país onde o crédito é a única política social que chega, onde o salário mínimo não cobre o custo de vida e onde o sistema bancário opera com spreads que estão entre os maiores do mundo. Quando você diz que não quer pagar a dívida dos outros, está comprando um discurso que fragmenta a classe trabalhadora e nos coloca uns contra os outros.

    O que me parece mais revelador nessa polêmica é como ela expõe a dificuldade que temos em pensar o dinheiro como bem comum, e não apenas como propriedade privada intocável. Esse dinheiro esquecido nos bancos é, de certa forma, um símbolo do nosso contrato social rompido: enquanto milhões de brasileiros estão com o nome sujo, sem acesso a crédito básico para comprar comida ou pagar um aluguel, bilhões de reais ficam parados em contas que ninguém move, sendo usados pelos bancos para especular. Se a gente conseguisse enxergar isso como um recurso que pode circular e aliviar o sofrimento de quem está endividado — em vez de vê-lo apenas como “meu dinheiro que o governo quer roubar” — talvez a gente começasse a construir uma noção de cidadania mais solidária. Não se trata de confisco, Lurdinha. Trata-se de perguntar: que tipo de sociedade a gente quer ser? Uma onde cada um cuida do seu e o mercado decide quem afoga, ou uma onde a gente usa os recursos ociosos para impedir que o trabalhador se afogue?


Leia mais

Recentes

Recentes