O registro de um possível surto de hantavírus a bordo do navio MV Hondius mobiliza pesquisadores e autoridades sanitárias internacionais. O episódio no Atlântico expõe a urgência de ampliar a vigilância e a inovação científica contra vírus negligenciados.
Três passageiros morreram durante a viagem e uma quarta pessoa foi evacuada para um hospital na África do Sul com infecção confirmada. A Organização Mundial da Saúde informou que os exames laboratoriais identificaram nesse passageiro uma variante de hantavírus transmitida por roedores que ocasionalmente infectam humanos.
O navio segue atualmente na região de Cabo Verde enquanto equipes avaliam o estado de saúde dos demais ocupantes. A companhia Oceanwide Expeditions, responsável pela embarcação, relatou que dois tripulantes apresentam sintomas respiratórios sem confirmação de infecção até o momento.
A empresa afirma que as causas das três mortes iniciais permanecem indefinidas, o que amplia o esforço de investigação epidemiológica. O professor de doenças infecciosas da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Vaithi Arumugaswami, explicou que os hantavírus não representam risco de pandemia, embora possam causar quadros graves.
Arumugaswami ressaltou que o episódio reforça a necessidade de monitoramento contínuo e de investimentos em vacinas e tratamentos, área ainda carente de inovação. O tema ganhou destaque após o portal Nature detalhar que o passageiro infectado pode ter contraído uma linhagem do grupo conhecido como vírus Andes.
Essa linhagem foi identificada originalmente no Chile e na Argentina em 1995. Arumugaswami lembrou que a variante preocupa pesquisadores por ser uma das poucas capazes de se transmitir entre pessoas, embora essa forma de contágio seja incomum.
O MV Hondius iniciou a viagem em Ushuaia, no extremo sul da Argentina, país que enfrenta um surto do vírus Andes desde o ano anterior. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026 foram registrados ao menos 20 óbitos, com pesquisadores observando aumento na taxa de letalidade.
Dados do Ministério da Saúde da Argentina indicam que entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, 34% dos infectados morreram, acima das médias anuais de 10% a 32% registradas entre 2019 e 2024. O salto na gravidade dos casos chamou atenção de especialistas, que avaliam se mudanças ambientais ou comportamentais dos roedores podem estar ampliando o risco.
O virologista da Universidade de Queensland, Rhys Parry, apontou que o contágio humano costuma ocorrer por inalação de gotículas provenientes de fezes, urina ou saliva de roedores contaminados. Ele observou que um eventual surto a bordo provavelmente teria origem em contato com material de um único animal infectado presente no navio ou em áreas visitadas pelos passageiros.
Parry também destacou que novas infecções podem ser detectadas nos próximos dias ou semanas, já que os sintomas podem demorar até um mês para aparecer. Isso significa que alguns passageiros podem ter sido expostos antes do embarque, durante deslocamentos terrestres ou já no interior da embarcação.
Arumugaswami observou ainda que a distância entre Ushuaia e as áreas argentinas onde o vírus costuma circular, superior a 1.500 quilômetros, levanta dúvidas adicionais sobre a rota de infecção. O passageiro contaminado pode ter adquirido o vírus durante deslocamentos internos no país ou a variante pode estar circulando sem detecção nas regiões mais austrais da América do Sul.
O caso reacende o debate sobre a necessidade de maior capacidade de vigilância e cooperação científica nos países que enfrentam a maioria dos surtos de doenças negligenciadas. A investigação continua e autoridades sanitárias esperam esclarecer a origem do episódio para reforçar estratégias de prevenção em viagens marítimas e áreas remotas.
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