A declaração de Flávio Bolsonaro busca vender a imagem de uma onda conservadora continental, como se a vitória da ultradireita na Colômbia antecipasse o roteiro de 2026 no Brasil. A operação política é simplista: reduz um país marcado por conflito armado, acordos de paz, narcotráfico e fraturas sociais a mais um capítulo da narrativa bolsonarista entre “bem” e “mal”.
Abelardo de la Espriella aparece como vencedor na apuração preliminar colombiana e representa uma guinada à direita que conversa com o repertório de Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele. Seu programa combina ajuste fiscal, redução da máquina pública e uma agenda de segurança de mão dura. É exatamente esse pacote que Flávio tenta transformar em propaganda doméstica.
O problema é o preço político dessa celebração. Espriella defende encerrar processos de paz com grupos armados, retomar a fumigação aérea de plantações de coca com apoio dos Estados Unidos e endurecer o sistema penal. A promessa de ordem vem acompanhada de medidas que podem aprofundar a militarização da política colombiana e enterrar décadas de negociação em torno do conflito interno.
A agenda também pressiona a arquitetura constitucional do país. Propostas como governar por decreto em áreas sensíveis, ampliar punições penais, liberar armas a civis e reinserir ensino religioso nas escolas confrontam princípios da Constituição de 1991. Não é apenas “combate ao crime”; é um projeto de reorganização autoritária do Estado, justamente o tipo de horizonte que o bolsonarismo tenta normalizar no Brasil.
Mesmo a vitória que Flávio celebra está longe de significar poder sem obstáculos. O campo de Espriella não tem maioria confortável no Congresso, a margem eleitoral foi estreita e a oposição colombiana já sinaliza contestação. Ao ignorar esse quadro, o senador brasileiro não analisa a política latino-americana: fabrica um mito de triunfo para consumo interno.
O entusiasmo com Bogotá se encaixa no manual bolsonarista para 2026. A ideia é sugerir que a direita avança de forma inevitável no continente, explorando a nostalgia de uma base que se vê representada por Trump e Milei. A realidade colombiana, muito mais complexa, vira outdoor eleitoral.
Há ainda uma contradição incômoda no discurso nacionalista. Parte central da agenda de segurança defendida por Espriella depende de Washington, inclusive no combate às drogas. O “triunfo” celebrado pelo clã Bolsonaro se ergue, em boa medida, sobre alinhamento militar e diplomático aos Estados Unidos, a mesma dependência que a direita regional costuma esconder sob linguagem patriótica.
Em vez de uma leitura responsável da geopolítica regional, Flávio Bolsonaro fez uso oportunista da eleição colombiana para projetar seu próprio campo político. Ao comemorar sem ressalvas um programa de contornos autoritários, sinaliza mais do que afinidade ideológica: revela o desejo de importar para o Brasil uma ofensiva contra o Estado de Direito apresentada como vitória moral.
Com informações da Folha de S.Paulo.


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