Novo relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aponta o assassinato político de Juscelino Kubitschek e rejeita a tese oficial de acidente.
A historiadora Maria Cecília Adão assina o documento, que se apoia em perícias recentes e no contexto histórico da época. A conclusão pode levar à revisão das certidões de óbito de Kubitschek e de seu motorista Geraldo Ribeiro, conforme reportagem da Carta Capital.
Comissões anteriores — a da Câmara dos Deputados, em 2001, e a Comissão Nacional da Verdade, em 2014 — haviam mantido a versão de acidente. O novo estudo incorpora análise do Ministério Público Federal, divulgada em 2021, que identificou falhas graves nas investigações originais.
O acidente aconteceu no quilômetro 165 da Via Dutra, quando o Opala de Kubitschek colidiu com uma carreta após cruzar o canteiro central. A investigação de 1976 alegou que o veículo teria tocado em um ônibus da Viação Cometa e perdido o controle.
O Ministério Público Federal descartou essa possibilidade ao apontar ausência de marcas de impacto entre os veículos. Peritos detectaram ainda que o carro foi manipulado após o ocorrido.
Não havia sinais de frenagem na pista, o que contradiz a ideia de uma manobra evasiva. O motorista Geraldo Ribeiro comentou antes da viagem que o automóvel havia sido mexido, o que levanta suspeitas de sabotagem.
Outra linha de investigação envolve um mal súbito de Ribeiro, talvez provocado por envenenamento. A ausência de exames toxicológicos na ocasião impede conclusões definitivas sobre essa hipótese.
Juscelino Kubitschek representava uma liderança expressiva da oposição ao regime militar em 1976. Documentos da Operação Condor tratavam o ex-presidente como alvo prioritário dos serviços de inteligência sul-americanos.
Uma correspondência trocada entre o coronel chileno Manuel Contreras e João Figueiredo, então à frente do Serviço Nacional de Informações, citava ações contra Kubitschek e o diplomata Orlando Letelier. Ambos faleceram em circunstâncias suspeitas no mesmo ano.
Testemunhas afirmaram que militares do Exército chegaram ao local do acidente antes da Polícia Rodoviária Federal. Os agentes assumiram o controle da cena e utilizaram um guincho para remover o Opala, que foi desmontado em seguida.
A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi criada em 1995 e reativada em 2025, após ter sido desativada no governo anterior. O caso foi retomado depois de manifesto de ex-integrantes da Comissão da Verdade de São Paulo.
A relatora Maria Cecília Adão argumenta que a dúvida deve beneficiar a vítima em casos como este. A medida pode resultar na classificação das mortes como crimes cometidos pela ditadura militar.
Essa decisão representaria um avanço significativo na revisão do legado do período autoritário. O colegiado da comissão analisa o relatório para definir os próximos passos da apuração.
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