Um ataque atribuído às Forças Democráticas Aliadas (ADF) deixou pelo menos nove civis mortos e cerca de dez pessoas sequestradas na localidade de Makumo, no território de Mambasa, província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo.
Os agressores invadiram a área no início da noite de domingo, executaram moradores e incendiaram residências e veículos. Em seguida, deixaram o local levando os reféns consigo.
A população permanece traumatizada e evita retornar ao trabalho nos campos agrícolas próximos. O representante da sociedade civil de Mambasa, John Muleveryo, cobrou medidas imediatas das autoridades.
Muleveryo apelou diretamente às Forças Armadas da RDC e ao governo nacional para que protejam os civis de forma efetiva na região. Ele afirmou que o sangue já foi derramado em Makumo, Biakato e outros vilarejos, e que a população exige paz e segurança.
Os ataques do ADF haviam registrado redução ao longo de 2025, mas intensificaram-se novamente desde o início de 2026. O grupo mantém aliança declarada com o Estado Islâmico e acumula histórico de atrocidades na província de Ituri.
A ausência de resposta efetiva tanto do governo congolês quanto de atores internacionais aprofunda a crise humanitária que assola a região há anos. Múltiplos grupos armados disputam controle territorial e geram ondas sucessivas de deslocamentos forçados.
Conforme reportado pelo portal RFI, o caso expõe os limites da presença estatal em áreas remotas do leste. O posicionamento de Muleveryo reflete o cansaço de comunidades que convivem diariamente com o risco de novas investidas.
As Forças Armadas da RDC enfrentam desafios logísticos para cobrir vastas zonas de selva onde operam os insurgentes. Especialistas destacam que operações isoladas não bastam sem inteligência e coordenação mais amplas.
A escalada de violência em Ituri compromete qualquer perspectiva de estabilização econômica ou social no curto prazo. Moradores de Makumo e vilarejos vizinhos relatam paralisia nas atividades rotineiras por receio de repetições.
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Major Ricardo Silva
12/05/2026
O Luan tem toda razão. Enquanto a esquerda fica fazendo análise sociológica de terrorista, o povo morre. Cadê o exército desses países? Falta pulso firme e valores tradicionais, não mimimi de multinacionais e exploração histórica.
Cecília Silva
12/05/2026
Major, com todo respeito, mas “pulso firme” sem entender de onde vem a fome e a exploração é só tiro no escuro. Enquanto vocês pedem exército, as mães daqui sabem que a violência nasce da miséria que o sistema produz.
Mariana Alves
12/05/2026
A tragédia em Makumo não é um “ataque terrorista” descolado de sua materialidade histórica, como gostariam os que enxergam o mundo apenas pelo prisma do bem contra o mal. O Luan Silva, com seu “pau no comunismo”, reduz o massacre a uma caricatura de guerra cultural importada do Twitter estadunidense, enquanto a Marina Costa invoca Provérbios sem mencionar que a mesma Bíblia que ela usa para condenar o aborto foi empunhada por missionários que, junto com os comerciantes de marfim e borracha do Estado Livre do Congo, assassinaram cerca de dez milhões de congoleses entre 1885 e 1908. A violência de hoje não caiu do céu: ela é a continuidade lógica do saque sistemático que o capitalismo imperialista impõe à região desde o século XIX.
O Paulo Ribeiro acertou ao situar o fato dentro de uma “lógica” histórica, mas precisamos ir além. As ADF, por mais bárbaras que sejam suas ações contra camponeses, não são um “inimigo externo” que ataca um Congo abstrato. Elas emergem do emaranhado de contradições do capitalismo periférico: a desintegração do Estado congolês após décadas de ajuste estrutural imposto pelo FMI e pelo Banco Mundial, a corrida por coltan e ouro que financia milícias e multinacionais simultaneamente, e a falência de qualquer projeto de soberania nacional que poderia oferecer educação, saúde e trabalho digno à juventude de Ituri. Enquanto a esquerda liberal repete o mantra de “paz e justiça social” sem atacar a propriedade privada dos meios de produção que sustenta essa economia de guerra, a direita conservadora quer nos convencer de que a solução é mais Estado penal e orações. Ambas as posturas negam a necessidade de uma ruptura radical com a lógica do capital.
O João Augusto foi preciso ao lembrar Benjamin, mas é bom acrescentar que a “estetização da política” hoje opera também via espetáculo humanitário: organizações não-governamentais filmam as viúvas para pedir doações no Norte global enquanto as mineradoras continuam extraindo riquezas impunemente. Nove mortos e dez sequestrados são uma manchete que nos comove por alguns minutos, mas que não abala em nada a geopolítica do lítio e do cobalto que move seus celulares e meus notebooks. O verdadeiro terrorismo é estrutural: é a transformação sistemática de corpos e territórios em zonas de sacrifício para a acumulação infinita de capital. Enquanto não enfrentarmos isso, Makumo se repetirá em Beni, em Goma, em Kivu do Sul, e as orações e os tuítes continuarão sendo o luxo hipócrita de quem pode fingir que a carnificina é “tribal” ou “religiosa” e não o resultado direto da nossa civilização.
Luan Silva
12/05/2026
Enquanto os lacradores choramingam de “multinacionais”, os terroristas tão sequestrando gente. Faz o L nunca mais, pau no comunismo.
João Augusto
12/05/2026
Luan, sua redução do debate a um falso antagonismo entre “lacração” e “comunismo” repete a lógica do senso comum que Walter Benjamin identificava como a estetização da política: enquanto você enquadra o massacre como mero terrorismo, ignora que o ADF se financia justamente do contrabando de minerais extraídos nas mesmas condições de superexploração que o capital extrativista preserva — separar a violência armada da economia política que a nutre é servir de álibi ideológico ao próprio sistema que você imagina defender.
Paulo Ribeiro
12/05/2026
O que estamos presenciando em Makumo não é um fato isolado, mas a expressão sangrenta da lógica que rege o leste da República Democrática do Congo há décadas. A morte desses nove camponeses e o sequestro de outros dez não pode ser compreendida como mero ato de “terrorismo irracional” ou “barbárie tribal”. Trata-se, na verdade, de um elo na cadeia de superexploração imperialista que conecta os minerais do subsolo congolês (coltan, ouro, estanho) ao funcionamento dos nossos smartphones, laptops e à economia digital global. O ADF, embora tenha uma roupagem jihadista, opera de fato como uma milícia híbrida, servindo a interesses que vão muito além do fundamentalismo religioso: sua atuação está entranhada no contrabando de recursos que abastece as cadeias produtivas do capitalismo contemporâneo.
É por isso que as receitas neoliberais, como as sugeridas pelo Eduardo, ou o moralismo salvacionista da Marina, não tocam no cerne do problema. Reduzir o Estado e “liberar a economia” na RDC é entregar de bandeja o território e a vida dos camponeses ao saque das corporações transnacionais e de suas milícias mercenárias. E a oração, por mais sincera que seja, não detém o fuzil que protege o comboio de minério ilegal. Como bem apontou o Carlos, a equação do Congo passa pela justiça social e econômica. Mas é preciso ir além: a solução real exige a ruptura com a propriedade privada dos meios de produção, a socialização das minas e a integração regional em bases soberanas, não a submissão aos ditames do FMI e do Banco Mundial.
O grande intelectual peruano José Carlos Mariátegui já nos ensinava que o problema do indigenismo e do latifúndio no Peru era, antes de tudo, um problema econômico. Da mesma forma, a violência endêmica no Congo é um problema do capitalismo predatório que transforma a vida humana em descartável e os territórios em zonas de saque. Enquanto a ordem global se assentar sobre a guerra permanente pelo controle dos recursos estratégicos, as populações civis serão sempre as primeiras a sangrar. A saída não é menos Estado, como querem os liberais, nem mais apelo ao transcendental, como querem os conservadores: é a construção de uma hegemonia popular que desarticule a aliança entre o capital estrangeiro e as elites locais.
É desolador ler comentários que, com a melhor das intenções, reduzem essa tragédia a desígnios divinos ou a equações de oferta e demanda. O Congo sangra para que o Norte global continue conectado. Nove mortos em Makumo são o preço do nosso conforto. A solidariedade internacionalista que realmente importa não é a que chora diante da cruz, mas a que se organiza para romper as correntes do imperialismo e construir, em solo congolês, o socialismo que nenhuma mineradora ousará saquear.
Marina Costa
12/05/2026
Que tristeza ver tanta violência e desprezo pela vida humana. Provérbios 24:11-12 nos manda livrar os que estão sendo levados à morte – enquanto a esquerda defende aborto e relativismo moral, esses inocentes são massacrados por terroristas que não temem a Deus. Oremos pelo Congo e que missionários levem a verdade que transforma.
Carlos Oliveira
12/05/2026
Concordo que toda vida importa, Marina, mas a verdade que transforma o Congo passa por justiça social e econômica, não só por oração — enquanto as multinacionais explorarem o coltan e o ouro com mão de obra escrava, nenhum versículo vai parar os tiros.
Eduardo Teixeira
12/05/2026
Tragédia anunciada. Enquanto esses governos africanos continuarem operando como máquinas de extração de renda em vez de proteger vidas e propriedades, a violência vai prosperar. Menos estado, menos regulação e mais liberdade econômica são o único caminho para gerar riqueza e segurança de verdade.
Lucas Gomes
12/05/2026
Eduardo, sua receita neoliberal ignora que a “liberdade econômica” que você defende é exatamente o que financia os grupos armados no Congo — o extrativismo desenfreado de minerais como coltan e ouro, operado por corporações que se beneficiam da ausência de regulação estatal. Menos Estado não significa mais segurança, significa entregar o território e o povo congolês à pilhagem de milícias e multinacionais.