Em 2019, trabalhadores que reformavam um hotel em Oulu, na Finlândia, se depararam com uma descoberta surpreendente: os restos de um navio de carga do século XVII sob o estacionamento do estabelecimento. Batizado de ‘Hahtiperä’ – nome do primeiro porto da cidade – o achado despertou o interesse de pesquisadores da Universidade Aalto, que decidiram dar um destino inusitado aos fragmentos de madeira.
A arqueóloga marítima da Agência Finlandesa do Patrimônio, Minna Koivikko, viu potencial nos restos descartados e acionou o Centro de Bioinovação da Universidade Aalto. A designer de materiais Pirjo Kääriäinen, também da Aalto, assumiu a coordenação do projeto e destacou que a universidade une conhecimento técnico e ideias ousadas, como detalhou a Smithsonian Magazine.
O segredo está no método Ioncell, desenvolvido pela Aalto em parceria com a Universidade de Helsinque, que utiliza um líquido iônico para converter materiais à base de celulose em fibras têxteis. O objetivo, segundo Kääriäinen, é reduzir o uso de matérias-primas virgens e o desperdício de recursos, provando que até madeira centenária pode se tornar algo belo e funcional.
Os cientistas removeram a camada externa da madeira, revelando um núcleo surpreendentemente livre de impurezas, que foi triturado até virar polpa. Em seguida, transformaram a polpa em fibras sedosas e resistentes, fiadas em um fio de tom castanho-dourado, sem qualquer tingimento artificial para preservar a cor original do navio.
O fio foi levado ao estúdio de tricô da universidade, onde um programa de inteligência artificial ajudou a criar um padrão inspirado em veios de madeira e ruído digital. Uma máquina de tricô especializada produziu os dois vestidos longos e sem mangas de forma contínua, sem desperdiçar material.
Uma das peças está exposta no Museu de Arte de Oulu, na mostra ‘Guarda-roupa do Amanhã’, até pelo menos o final de setembro deste ano. A outra será apresentada na exposição ‘Designs para um Planeta mais Fresco’, na Universidade Aalto, de setembro a outubro de 2026.
Casos de tecidos preservados em naufrágios são raríssimos, mas algumas descobertas fascinam o mundo. Em 2014, mergulhadores encontraram no Mar de Wadden um baú com roupas que podem ter pertencido a uma nobre inglesa do século XVII, incluindo um vestido de seda hoje exposto no Museu Kaap Skil.
Outro achado impressionante foi um par de jeans resgatado do naufrágio do S.S. Central America, afundado em 1857, que sobreviveu mais de um século no fundo do mar. A peça foi leiloada por US$ 114 mil em 2022.
Partes remanescentes do naufrágio Hahtiperä também inspiraram a instalação ‘Ahti’s Palm’, uma gigantesca mão esculpida por Kalle Salonen e montada por voluntários. A obra é uma homenagem da Agência Finlandesa do Patrimônio à passagem do tempo e ao artesanato tradicional.
Leia também: Naufrágio de 400 anos revela rede de contrabando que ligava Suécia à Bolívia
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Padre Antônio Rocha
27/05/2026
Mais uma prova da vaidade humana: em vez de usarem os recursos para obras de caridade e salvação das almas, preferem transformar destroços em frivolidades mundanas. Enquanto a alma definha, o mundo só pensa em enfeites passageiros.
Evelyn Olavo
27/05/2026
Que piada, né? Enquanto os otários acreditam que madeira velha vira vestido, quem enxerga além sabe que isso é cortina de fumaça pra esconder a verdade da Terra Plana. Como diria Olavo, “o globo é a maior mentira do sistema”. E Júpiter em Capricórnio já avisava: a elite usa a moda pra desviar o foco do eixo real do mundo.
Carlos Henrique Silva
27/05/2026
Evelyn, eu entendo a desconfiança com os grandes centros de pesquisa e a indústria da moda — isso é legítimo. Mas preciso apontar uma contradição no seu discurso que é clássica do pensamento conspiratório: você denuncia uma suposta cortina de fumaça enquanto compra outra, muito mais eficiente. A indústria têxtil global, que emprega trabalho semi-escravo no sul global e produz toneladas de resíduos sintéticos, não precisa de madeira do século XVII para desviar sua atenção. A verdadeira alienação está nos 40 bilhões de peças de roupa produzidas por ano, no fast fashion que transforma trabalhadores em prolongamentos da máquina — isso sim é o que Marx chamava de fetichismo da mercadoria. A notícia finlandesa é um experimento acadêmico curioso, não uma operação de encobrimento geofísico.
Você invoca Olavo e a astrologia para explicar o mundo, mas ignora que essas narrativas cumprem exatamente a função que Gramsci descreveu como “hegemonia pelo senso comum”: fazer com que a classe trabalhadora gaste sua energia combatendo fantasmas — globo terrestre, vacinas, madeira transformada em fibra — enquanto a extração de mais-valia segue intacta. A elite que realmente manda não está preocupada em esconder a forma da Terra; está preocupada em esconder que 1% da população detém mais riqueza que os 50% mais pobres. A moda é um dos muitos dispositivos de distração, sim, mas não porque revelaria a planura do mundo — isso é deslocamento. O verdadeiro véu ideológico é fazer você acreditar que o grande problema é o formato do planeta, e não a concentração de capital que define quem pode comprar um vestido de madeira histórica e quem precisa costurar 16 horas por dia para pagar o aluguel.
Se você quer mirar a cortina de fumaça de verdade, olhe para o orçamento bilionário das forças armadas, para a financeirização da economia que transforma direitos em mercadorias, para a precarização do trabalho docente e da pesquisa pública que torna uma equipe finlandesa capaz de fazer algo que nossos laboratórios sucateados não podem. Eles não escondem a verdade da Terra Plana — eles produzem conhecimento enquanto a elite brasileira desmonta a universidade pública. Júpiter em Capricórnio não vai te explicar isso. Uma leitura honesta de Marx e Gramsci, sim. O sistema não precisa te enganar com o formato do mundo; ele já te convenceu a lutar contra inimigos imaginários enquanto ele rouba o chão debaixo dos seus pés.
Clarice Historiadora
27/05/2026
Evelyn, querida, sugiro que você dê uma olhada no clássico “A Elite do Engano: Moda, Astrologia e o Vazio Epistêmico do Bolsonarismo Terminal”, de Adhemar de Barros Filho (2021, Ed. Terceira Via). A página 342 explica exatamente como a crença em Terra Plana e signos de Júpiter são o novo ópio do povo pra não precisar estudar química orgânica básica.