No artigo anterior desta série, mostramos com os dados da ONU Comtrade o veredito agregado. O tarifaço de Trump não esmagou o comércio exterior brasileiro, apenas redirecionou o seu fluxo para longe dos Estados Unidos. A fatia americana nas exportações do Brasil caiu de 12,36% para 10,01% em quatro anos, enquanto a China saltava para quase 30% e novos compradores no Oriente Médio e no Sudeste Asiático entravam no lugar.
Faltava o detalhe que muitos leitores pediram. Produto a produto, quem está realmente ameaçado? Quais itens correm risco, quais foram poupados pela lista de isenções, e o que os dados de comércio dizem sobre a resiliência real de cada cadeia? É o que esta Parte 4 traz, com a leitura direta do documento do USTR, os números do Comex Stat/MDIC e a cartografia de quem depende dos EUA.
E há um epílogo político. Na terça-feira (7 de julho), o senador Flávio Bolsonaro sentou à mesa de testemunhas da audiência do USTR, em Washington, e na prática defendeu os argumentos do tarifaço. Não no conteúdo que declarou à imprensa, mas no documento de 86 páginas que entregou à Casa Branca, no qual aceita impor limites ao Pix. Voltaremos a isso adiante, porque é o ponto mais revelador da semana.
O que o USTR realmente propõe
A primeira coisa que precisa ser dita é que a proposta do USTR, publicada no Federal Register em 4 de junho, não é uma lista de produtos mirados. É o oposto. Uma sobretaxa adicional de 25% sobre todos os bens brasileiros, acompanhada de uma extensa lista de isenções, com mais de 1.600 subcódigos da nomenclatura aduaneira americana (HTSUS), dos quais cerca de 430 referem-se a aeronaves civis.
A página oficial da investigação, no site do USTR, reúne todos os documentos do processo. O povo brasileiro pode e deve ler tudo lá.
Em termos práticos, os produtos isentos são a maior parte do que o Brasil vende aos EUA. Petróleo cru, café, carnes, suco de laranja, celulose, minérios (incluindo nióbio e terras-raras), combustíveis, produtos farmacêuticos e as aeronaves da Embraer. Os bens que continuam na mira, não cobertos pelas exceções nem já tributados pela Seção 232 do aço, são sobretudo calçados, pescado e manufaturados diversos.
A confusão pública nasce daí. Quando se fala em “tarifaço”, a imagem popular é a de café e carne sendo taxados. Na verdade, o grosso da pauta agrícola e mineral brasileira foi preservado. A dor concentrada recai sobre setores industriais específicos, e mesmo neles, como veremos, o Brasil demonstrou resiliência surpreendente.
O mapa da vulnerabilidade
Se quisermos medir o risco de cada produto, a pergunta certa é outra. Que percentual da exportação brasileira desse item tem os Estados Unidos como destino? Quanto maior a dependência, maior o estrago potencial de um tarifaço. O gráfico abaixo organiza as principais cadeias por grau de exposição.

O retrato é didático. Há dois grupos nitidamente vulneráveis. O ferro fundido bruto envia cerca de 86% das exportações aos EUA, e o aço semiacabado, 72,5%. São justamente os semimanufaturados que a siderurgia americana usa como insumo. O suco de laranja, apesar de isento do tarifaço mais agudo, segue com mais da metade das vendas indo ao mercado americano. E os calçados, único setor manufatureiro realmente exposto, mandam cerca de 20% das exportações para lá.
No outro extremo, a resiliência. A carne bovina manda só 7,3% das exportações aos EUA (a participação caiu de 8,1% em 2024). O café, 16,7%. O petróleo, cerca de 8%. Mesmo as aeronaves da Embraer, poupadas pela lista de isenções e com carteira de pedidos recorde de US$ 31,6 bilhões, dependem dos EUA em torno de 12% das exportações. O Brasil, como um todo, vende muito mais para o resto do mundo do que para Washington.
O caso emblemático da carne bovina
Nenhuma cadeia ilustra melhor a tese desta série do que a carne bovina. Foi o alvo político mais ruidoso do tarifaço. A NCBA (associação dos pecuaristas americanos) e o R-CALF USA pedalaram junto ao USTR para tirar a carne brasileira da lista de isenções, alegando “competição desleal”. E o que aconteceu com as exportações brasileiras?

Em 2025, com a tarifa de 50% já em vigor desde agosto, o Brasil exportou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina e faturou US$ 18 bilhões. Recorde histórico, alta de 42,5% em valor sobre 2024. Como? Porque o país vende hoje para cerca de 160 mercados, e a perda relativa de participação dos EUA (de 8,1% para 7,3%) foi mais que compensada pela China, pelo Egito, pelos Emirados e por dezenas de outros compradores. O tarifaço chegou e o recorde veio junto.
Este é o ponto metodológico decisivo. Mesmo quando um produto é atingido, o estrago se dilui, porque o exportador brasileiro já não depende de um único cliente. É o oposto do que ocorreria há vinte anos, quando os EUA eram parceiro hegemônico.
Os dois setores onde o tarifaço realmente dói
Seria desonesto negar que há dor. Há, sim, e concentrada. O setor de calçados é o caso mais claro. A Abicalçados avisou que uma tarifa de 50% “inviabilizaria as exportações” para os EUA, e os dados de agosto de 2025 já mostravam queda de 17,6% em volume, com recuo de quase 30% projetado para setembro. Os EUA representam mais de 20% das exportações brasileiras de calçados, embora o Brasil ocupe apenas 0,5% do mercado importador americano. Tarifa combinada passa de 40%.
O outro caso, menos conhecido mas mais dramático, é o do mel orgânico. Na própria audiência do USTR, a Sweet Harvest Foods, a maior operação de apicultura dos EUA, explicou que 85% do mel orgânico consumido pelos americanos vem do Brasil ou da Índia, e que não existe substituto comercialmente viável para produzir mel orgânico em solo americano. Cada dólar gasto importando gera cerca de US$ 5,50 em atividade econômica nos EUA. Mesmo assim, o mel não foi isentado, e a tarifa combinada ultrapassa 40%. As exportações de mel orgânico do Piauí (Casa Apis) para os EUA foram suspensas.
A ironia é cruel. A tarifa pune exatamente o produto que os americanos não conseguem fazer. É a prova de que o tarifaço não é uma política técnica, é um instrumento político, como o próprio economista Gustavo Pessoa, da FGV, afirmou após depor no painel do Pix.
O movimento de fundo: a fatia americana derrete
A soma de todos esses produtos conta uma história única. Mesmo com a tarifa de 50% e a ameaça dos 25% adicionais da Seção 301, o que se vê é uma queda livre paciente da importância dos Estados Unidos no comércio brasileiro. Os dados mais recentes, divulgados em 7 de julho pelo MDIC e pela Amcham Brasil, mostram a participação de cada país no total das exportações brasileiras no primeiro semestre de 2026.

Os EUA caíram de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no mesmo período de 2026. É a mínima histórica da série iniciada em 1997. A China foi no sentido oposto, de 28,9% para 31,5%, o maior percentual desde 2021. Cada lado moveu quase 3 pontos percentuais. A China ganhou, em participação, praticamente o que os EUA perderam.
No acumulado do semestre, o Brasil exportou US$ 17,4 bilhões aos EUA (queda de 13% sobre o ano anterior) e US$ 58,3 bilhões à China (alta de 21,9%). Pela primeira vez em anos, a balança comercial com os Estados Unidos fechou em déficit, de US$ 1,5 bilhão, enquanto com a China o superávit foi de US$ 19,8 bilhões.
Houve um único respiro. Em junho de 2026 as exportações para os EUA cresceram 3,7%, a primeira alta desde julho de 2025, antes do tarifaço. Mas a alta veio puxada por preço, não por volume. O preço médio dos produtos exportados subiu 11%, enquanto a quantidade embarcada ainda caiu 6,6%.
Em São Paulo, o estado mais industrializado do país, a China ultrapassou os EUA em 2025 (US$ 30,7 bilhões contra US$ 27,3 bilhões). O padrão é inequívoco. Cada vez que Washington recua, vários compradores no Oriente e no Sul Global avançam. É diversificação real, não desvio temporário.
A rendição de Flávio em Washington
Toda essa resiliência, construída por técnicos do Itamaraty, do Banco Central, por empresários que diversificaram mercados e por milhões de trabalhadores, teve um oponente inesperado na terça-feira. O próprio pré-candidato da extrema direita que diz querer governar o Brasil.
Flávio Bolsonaro foi a Washington depor contra o tarifaço, segundo a narrativa que vendeu à imprensa. Mas o documento que entregou ao USTR conta outra história. Segundo reportagem da Reuters, em sua submissão de 86 páginas o senador fez uma concessão política colossal. Propôs legislação para proibir a interconexão do Pix com sistemas de compensação transfronteiriça “não-ocidentais”, ou seja, aceitar isolar o Pix das redes ligadas aos BRICS e às alternativas ao dólar.
Na linguagem diplomática, isso se chama “sinal decisivo a Washington”. Na linguagem correta, chama-se entregar o Pix. Flávio reconheceu, perante as autoridades americanas, a acusação central do USTR, a de que o Banco Central atua simultaneamente como dono e operador do sistema, e, em vez de defendê-la, ofereceu como moeda de troca a soberania do pagamento instantâneo mais bem-sucedido do mundo.
O presidente Lula reagiu com a claridade que o tema exige. “O Pix é uma conquista brasileira e não vamos abrir mão dele.” A plataforma criada no governo Bolsonaro pai virou, na caneta do filho, mercadoria de negociação com Trump.
E há mais. Na audiência, Flávio chegou acompanhado do irmão Eduardo e de três assessores, filmando e fotografando dentro do prédio onde gravações são proibidas, até ser repreendido pela presidência da mesa. Na saída, pediu para escapar pela garagem, fugindo dos repórteres. E admitiu, diante das autoridades americanas, que as tarifas podem prejudicar sua campanha por favorecerem politicamente Lula, transformando uma audiência comercial em palanque eleitoral.
Quando até o mercado financeiro, que torce contra Lula, classificou a atuação do senador como inócua e frustrante, e quando o articulador bolsonarista Paulo Figueiredo, confesso promotor das sanções contra o próprio país, chamou de “desgraçada” a comunicação da campanha, o vexame é completo.
A decisão final e o saldo
O USTR tem até 15 de julho para tomar a ação responsiva, e até 29 de novembro para a determinação completa. Economistas estimam impacto de cerca de US$ 8,4 bilhões ao Brasil, e a CNI alerta que mais de 4 mil produtos podem ser afetados. Nada disso é desprezível, e os setores de calçados e mel orgânico sentirão a dor de verdade.
Mas o saldo estratégico é nítido. O Brasil entra no confronto com Washington com o comércio exterior maior, mais diversificado e menos dependente de um único comprador do que em qualquer outro momento de sua história. A fatia americana derrete, a chinesa cresce, e uma constelação de mercados emergentes entra no lugar. O Pix segue intacto como patrimônio nacional, apesar da tentativa de um pré-candidato de entregá-lo.
Trump pode assinar a tarifa. O Brasil, no agregado, já a absorveu. Venceu o debate econômico apesar de Flávio Bolsonaro, não graças a ele.


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