Donald Trump resolveu atacar a humanidade inteira. A reincidência da guerra contra o Irã, com mais de 140 alvos bombardeados em violação aberta ao cessar-fogo, não é responsabilidade de Teerã.
Foi Trump quem rompeu o memorando de paz que ele próprio assinou. O documento, firmado com o presidente iraniano diante de testemunhas internacionais, estabelecia que o Estreito de Ormuz seria monitorado pelo Irã, sem cobrança de taxa nos primeiros meses e, depois, com uma tarifa quase simbólica de 1% ou 2% para cobrir os custos da operação.
A cláusula número um era cristalina: nenhum país faria ameaça ao outro. No dia seguinte à assinatura, Trump já ameaçava o Irã de novo.
A mídia ocidental, inclusive boa parte da brasileira, é cúmplice desse crime quando omite essa verdade elementar. Quem rasgou o acordo tem nome, sobrenome e endereço na Casa Branca.
Agora o presidente americano anuncia que vai reabrir o estreito à força e cobrar 20% sobre cada carregamento de petróleo que passar por ali. Não satisfeito, exige ser “reembolsado” pelos países ricos da região, citando nominalmente Arábia Saudita, Emirados, Catar, Kuwait e até Israel.
E ainda se gaba, sem nenhum pudor, de ter se apossado da Venezuela. “Quando você adiciona a Venezuela, temos mais petróleo que qualquer país do mundo”, disse ele, celebrando o saque como quem exibe um troféu.
A hipocrisia é tão escancarada que dispensa análise sofisticada. Foi o próprio secretário de Estado Marco Rubio quem declarou, semanas atrás, que “nenhum país tem permissão para cobrar pedágio em uma via navegável internacional, isso é direito internacional”.
A frase foi dita para condenar o Irã. Agora o chefe de Rubio quer cobrar 20% de pedágio no mesmo estreito, e o jornalista Jeremy Scahill fez bem em lembrar o mundo dessa contradição obscena.
Rubio, aliás, abriu outra frente de agressão contra a humanidade. O Departamento de Estado anunciou uma campanha para “desmantelar” o que chama de ameaça do Tribunal Penal Internacional à soberania americana, prometendo pressionar países a abandonar o tribunal, cassar vistos de seus funcionários e ampliar sanções contra a corte, conforme revelou o Drop Site News.
Kenneth Roth, ex-diretor da Human Rights Watch, foi direto ao ponto. Rubio está vestindo com a linguagem da soberania nacional o desejo de impunidade para crimes de guerra americanos no exterior, ignorando o direito soberano de outras nações de processar crimes cometidos em seu território.
O TPI não é perfeito, e seus erros mais graves ocorreram justamente quando se curvou às pressões de Washington e aos vícios imperialistas europeus. Mas continua sendo um dos braços do multilateralismo, a única forma de construir uma ordem internacional baseada em leis, e não na lei do mais forte, nessa anarquia violenta e bárbara que os Estados Unidos querem impor ao planeta.
Não faz mais sentido falar em aliados e inimigos. Essa lógica maniqueísta americana sempre foi ridícula, e o mundo precisa caminhar para uma grande aliança global em que todos os países comercializem entre si, sem inimigos artificiais.
Mesmo aceitando por um instante essa lógica infantil, Trump está cuspindo na cara dos próprios “aliados”. Ele bombardeia, fecha o estreito, cobra pedágio e ainda manda a fatura da “proteção” para Riade, Doha e Tel Aviv.
Quem vai pagar essa conta são bilhões de pessoas. O preço dos fertilizantes já está subindo, e a fome que vem aí nos próximos dois anos terá a assinatura desse gangster internacional.
O presidente Lula é, neste momento, a única liderança mundial peitando Trump de frente. Em discurso no Instituto Mauá de Tecnologia, ele foi certeiro:
“Trump fez um post dizendo que reabriria o Estreito de Ormuz, mas que cada navio que ele deixar passar, o dono do petróleo teria que pagar 20%. Isso se chamava pirataria, não era? Um país tão importante como os Estados Unidos, que passou tanto tempo combatendo a pirataria, não pode agora se tornar um pirata. Ele não deveria cobrar por isso, porque o estreito não é responsabilidade dele.”
As lideranças políticas brasileiras precisam entender o papel do Brasil nesta hora. O Irã não se ajoelha, a Rússia não se ajoelha, e o Brasil também não pode se ajoelhar diante desse bandido.
Trump está prejudicando diretamente os brasileiros. A guerra insana no Oriente Médio eleva o preço da gasolina e do diesel, e isso se transforma em arroz e feijão mais caros na mesa do trabalhador.
A humanidade está diante de uma escolha moral. O mínimo que o Brasil pode fazer agora é marcar com clareza esse verme entreguista que é Flávio Bolsonaro e o movimento que ele lidera, que oferece o país de bandeja ao agressor.
Vencida a eleição de outubro, o Brasil precisa avançar na articulação de uma ordem internacional multipolar e botar uma focinheira nos Estados Unidos. Porque o que os Estados Unidos de Trump se tornaram é uma besta selvagem, descontrolada e raivosa, e a humanidade precisa controlá-la.


Cecília Silva
14/07/2026
Trump rasga acordos e a máquina de guerra americana continua a matar impune; quem paga são os povos, as periferias e as mães que enterram filhos que nunca conheceram paz. Lá na favela aprendi que impunidade e privilégio branco se alimentam do sangue alheio. O mundo não pode ficar de braços cruzados diante desse monstro — é hora de tolher essa violência antes que mais vidas sejam varridas.
Silvia D.
14/07/2026
Concordo, Cecília — impunidade e privilégio transformam vidas em estatística e viram crise de saúde pública. Precisamos de pressão internacional, responsabilização legal e políticas baseadas em evidências para evitar que mais mães enterrem filhos.
Luan Silva
14/07/2026
Ridículo — querem amordaçar os EUA? Faz o L nunca mais, Brasil acima de tudo.
Helton Barros
14/07/2026
Luan, não é amordaçar — é pôr freio no imperialismo cultural que desmantela família, fé e soberania; quem ama o Brasil e a Deus sabe que “Faz o L” não pode voltar.
Caio Vieira
14/07/2026
A manchete tem a crueza necessária para traduzir um sentimento coletivo: diante de um poder que, segundo a notícia, reverteu acordos e bombardeou mais de 140 alvos em violação a um cessar‑fogo, a metáfora da “focinheira” expressa a urgência de limitar um exercício de força que se pretende absoluto. Não se trata apenas de moralizar um ato isolado, mas de decifrar uma continuidade histórica de hegemonia que, como bem nos advertiu Galeano, atravessa as veias do sistema-mundo. Cicero advertia sobre os perigos do imperium sem freios; hoje precisamos de instituições e práticas que funcionem como freios perante aquilo que chamo de militaridade hegemônica, uma configuração em que decisões belicistas se naturalizam na esfera pública.
Do ponto de vista sociológico, a regressão à guerra é produto de uma conjunção de ideologias e aparelhos de consentimento: mídia corporativa, indústria bélica e uma classe política que transforma a agressão em espetáculo de legitimação. Aqui vale invocar Gramsci para pensar a produção de senso comum que naturaliza a guerra—uma “hegemonização bélica” onde o discurso securitário captura a cultura popular e eclipsa alternativas diplomáticas. É fundamental distinguir o agente circunstancial — no caso, a figura política que assinou e depois rasgou um memorando — da estrutura que permite tais desvios; atacar o sintoma sem compreender a máquina será sempre insuficiente.
Como professor e solidário às lutas empreendedoras do povo — que pagam com empregos, exportações e precificação do combustível o preço dessas aventuras militares — proponho uma estratégia em três frentes: 1) reforçar a legalidade multilateral, pressionando por investigação e mecanismos de responsabilização no âmbito do direito internacional; 2) fortalecer laços regionais e econômicos que criem custos reais à militarização unilateral, desde bloqueios comerciais sensíveis aos lucros da indústria bélica até campanhas de boicote cultural; 3) estimular uma contrahegemonia cultural que tramite, nas comunidades e nas pequenas empresas, narrativas de paz ativa, solidariedade e autoorganização econômica que minem a lógica do conflito como motor de acumulação. Trata‑se de transformar indignação em arquitetura de poder contrário.
Por fim, se a focinheira é metáfora, que ela não seja símbolo de censura, mas de civilização jurídica e democrática: controles, transparência, parlamentos ativos e povo politizado. A paz não se instaura por decreto; exige redes de solidariedade, instituições imbuídas de legitimidade e um tecido social que respalde escolhas não beligerantes. Seguirei, como sempre, na trincheira acadêmica a estudar e a apoiar iniciativas populares e empreendedoras que dignifiquem a vida frente à lógica necropolítica dos poderosos.
Cecília Alves
14/07/2026
Concordo que precisamos de freios, mas cuidado: mais organismos multilaterais e parlamentos ativos podem virar novo aparato burocrático que só redistribui poder entre elites. Prefiro enfraquecer a máquina de guerra na raiz — cortar subsídios e privilégios da indústria bélica, reduzir o tamanho do Estado e fortalecer redes privadas e mercados regionais que tornem a agressão militar pouco lucrativa e politicamente impopular.
Marta
14/07/2026
Caio, adorei a leitura atenta — a sua economia conceitual dá gosto de ver. Tem razão: a metáfora da “focinheira” funciona se entendida como freio institucional e não como chicote moralizante; como bem lembrou Galeano, a história tem feridas abertas e não dá para remendar com palavras vazias. Mas permita a professora que insiste: não basta diagnosticar a doença — é preciso receitar com precisão. Sim, precisamos de tribunais internacionais mais fortes, de investigações sérias e de sanções econômicas direcionadas aos lucros que alimentam a indústria bélica; acrescento que isso passa por auditar contratos de defesa, cortar benefícios fiscais a empresas de armamento e fiscalizar, com transparência parlamentar e participação popular, todo memorando ou decreto que autorize operações militares. Sem isso, qualquer apelo à “civilização jurídica” vira ato simbólico para inglês ver, e os meninos mal-educados — esses fascistas e liberais que adoram a guerra disfarçada de segurança — continuam a vender patriotismo às expensas do povo.
Concordo com sua proposta de contrahegemonia cultural, e aqui é que a sala de aula vira campo de batalha vivo: ensinar história é ensinar memória e responsabilidades. Precisamos de redes de solidariedade que liguem movimentos sociais, sindicatos, pequenos empreendedores e governos progressistas da região (Mercosul, ALBA e parcerias sul‑sul), para criar custos reais à militarização unilateral; apoiar políticas industriais que revertam a dependência do capitalismo bélico e investir em cultura e educação popular para desfazer o senso comum securitário que Gramsci diagnosticou. E, meu caro, se alguém tentar transformar a focinheira em censura, chamo‑os pelo nome — meninos mal-educados que não entendem que proteger a democracia exige mais debate, mais parlamento ativo e, sobretudo, amor pelo povo; porque paz verdadeira se constrói com justiça social, não com bombas. Vou seguir dando aula e pelejando nas trincheiras acadêmicas e populares, defendendo Lula e o direito do povo a viver em paz e com dignidade.
John Marshall
14/07/2026
É estarrecedor que um presidente coloque em risco acordos assinados e desencadeie ataques fora de qualquer legitimidade; isso fere o mínimo interesse comum. Hobbes lembraria que o monopólio legítimo da violência existe para proteger, não para exportar o conflito, e Locke diria que quem rompe pactos perde autoridade — Marx apontaria o motor econômico por trás dessas aventuras. O mundo precisa conter os EUA por meio de instituições e sanções legais, não de heroísmo retórico.
Cíntia Alves
14/07/2026
Concordo em parte: instituições e sanções legais são o caminho, não bravatas — mas quem vai impor essas regras ao maior poder do planeta quando ele mesmo ajuda a escrevê‑las? Não vale trocar retórica por justiça seletiva; precisamos de instituições mais independentes, não de moralismo de botequim.
Carlos Mendes
14/07/2026
Cíntia, concordo: instituições independentes valem mais que bravatas — mas quem manda no gigante só aceita limites quando há custos concretos. Reduzir o poder do Estado, fortalecer regras técnicas, transparência e sanções econômicas imparciais é o caminho; do contrário vira justiça seletiva e moralismo de botequim.
Adalberto Livre
14/07/2026
Concordo, Cíntia, mas enquanto a máquina do poder americano redigir as regras a “justiça” vira espetáculo — vai sonhando.
Ronaldo Silva
14/07/2026
Adalberto, verdade — enquanto os EUA ditam o roteiro, a “justiça” vira espetáculo. A gente que rala, paga imposto e assiste mensalão quer resultado, não circo.