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Quem respeita e ama o jornalismo critica a imprensa partidária

Por Miguel do Rosário

03 de janeiro de 2014 : 15h35

Muito inteligente a colocação de Luciano Martins: maior prova de respeito ao jornalismo é criticar a imprensa.

Amar o jornalismo, criticar a imprensa
Por Luciano Martins Costa, em 03/01/2014 na edição 779

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 3/1/2013

A imprensa brasileira funciona como um partido de oposição, mais eficiente, estruturado, coeso e determinado do que as agremiações políticas oficiais. Mas não se trata de um partido de oposição à aliança que governa o Brasil desde 2003: é uma organização política que em muitos aspectos se assemelha ao Tea Party americano, ou seja, um sistema estruturante do pensamento mais conservador que frequenta o espaço público.

Se o governo federal estivesse nas mãos do PSDB, e este atuasse como um partido socialdemocrata nos moldes europeus, a imprensa teria uma atitude semelhante, de oposição.

As evidências do comportamento enviesado da mídia tradicional, aquela que domina a agenda institucional e serve à indústria cultural, são muitas e foram consolidadas paralelamente a um processo de empobrecimento da atividade jornalística nas últimas décadas. O processo é longo, foi marcado por disputas cruentas no interior das redações no período imediatamente posterior à redemocratização, e afinal vencido pelo conservadorismo no início deste século.

O fato de o Partido dos Trabalhadores ter alcançado o poder federal na mesma época é daquelas ironias da história observadas pelo historiador Isaac Deutscher ao analisar o comunismo dos anos 1960.

A controvérsia em torno desse comportamento da imprensa se sustenta precariamente no fato de que a maioria dos analistas se prende à relação entre os principais veículos de informação e o núcleo de poder ligado ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Um operário na Presidência significou, para as famílias que ainda controlam as empresas de comunicação, uma ofensa tão grande quanto tem sido, para a elite conservadora dos Estados Unidos, a ascensão de um negro ao cargo mais alto daquela nação.

Essa relação de ódio e negação se estende por tudo que estiver ligado a esse evento histórico: o fato de a democracia brasileira ter evoluído ao ponto de eleger presidente um operário com pouca educação formal. Não é o PT que a imprensa odeia e despreza: é o processo democrático, que permitiu essa “aberração”.

Não por acaso, os leitores típicos dos jornais e de publicações como Veja e Época manifestam costumeiramente sua baixa apreciação pelo “povo” e sua capacidade de discernimento, como se pode observar nas seções de cartas e comentários.

Jornalismo em crise

Criticar a imprensa, denunciando o jornalismo partidário, é na verdade uma demonstração de respeito ao jornalismo e à imprensa, como ela deveria ser.

Defender a imprensa como ela é e conformar-se com o jornalismo de quinta categoria que tem sido imposto aos brasileiros, de forma geral, é sintoma de alienação, ou, pior, recurso de malabarismo intelectual para preservar a reputação sem cair no index do sistema da mídia.

Louve-se: é preciso muito jogo de cintura para salvar a ficção da objetividade sem ter as portas fechadas pelas redações. No entanto, chegamos ao ponto em que não há subterfúgios, pois a escolha da imprensa hegemônica está destruindo o jornalismo de qualidade no Brasil.

Concretamente, o jornalismo brasileiro é pior, hoje, do que há vinte anos? A resposta é: sim, piorou não apenas a qualidade do jornalismo no Brasil, mas também a qualificação dos jornalistas, de modo geral, e a própria noção do valor social da atividade jornalística.

Uma pesquisa coordenada pela professora Roseli Fígaro na USP constatou essa realidade (ver resenha do livro aqui): o jornalismo brasileiro está imerso em profunda crise. Um artigo publicado na quinta-feira (2/1) pela Agência Fapesp (ver aqui) atualiza alguns aspectos desse estudo. O texto afirma explicitamente que “os produtos jornalísticos impressos, televisivos ou radiofônicos são feitos de maneira completamente diferente do que há cerca de vinte anos”.

A mudança foi para pior, segundo a pesquisa, provocada principalmente por uma reestruturação produtiva nas redações, com o aumento do número de jornalistas sem registro profissional e o afastamento dos profissionais mais experientes.

A desconstrução do jornalismo foi feita pedra por pedra, e não é apenas fenômeno causado pelas novas tecnologias de comunicação, mas por uma escolha estratégica das empresas. Trata-se de um processo que corre paralelo ao projeto conservador de poder, que, não podendo eventualmente ser realizado pelas vias partidárias, porque o eleitorado parece rejeitar suas propostas, passa a atuar pelo sistema da mídia.

Simples assim.

 

jornalista

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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8 comentários

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Pedro Eugênio

13 de julho de 2020 às 09h09

O pai dela deveria ter dito: Não minha filha, não existe nenhuma notícia tão ruim que seja pior que os crimes que o PT cometeu, roubou o SEU futuro e o futuro de uma geração inteira com sua CORRUPÇÃO INSTITUCIONALIZADA!

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Ieda Dietrich

05 de janeiro de 2014 às 14h58

http://youtu.be/hV76KXU1x6g

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Ieda Dietrich

05 de janeiro de 2014 às 14h57

ESGOTO À CÉU ABERTO

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Ieda Dietrich

05 de janeiro de 2014 às 14h57

]PORQUE DILMA, LULA E PT SÃO ESCÓRIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA LIXO DO MUNDO

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Ieda Dietrich

05 de janeiro de 2014 às 14h56

NÃO FOFINHA, PRA SER JORNALISTA PRECISA TER CÉREBRO E TENDO CÉREBRO VOCÊ N A T U R A L M E N T E SENTE N O J O DA DILMA, DO LULA E DA CATREFA QUE OS COMPÕE

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Suzana De Souza Leão

04 de janeiro de 2014 às 13h23

Pra ser jornalista da grande mídia, sim!!

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Cleide Portella

03 de janeiro de 2014 às 21h24

Aqui em SP a mídia e simplesmente vergonhosa em seus ataques ao PT!!!

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Alder Oliveira E Silva

03 de janeiro de 2014 às 20h34

Eu também acho.. mas e se a imprensa fosse favorável ao PT, também mereceria ser criticada?

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