Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

A fortuna dos Marinho e a grande batalha que se avizinha

Por Miguel do Rosário

15 de maio de 2014 : 09h37

A mídia amanhece hoje anunciando, difundindo e cobrindo manifestações no Brasil inteiro. É a chamada quinta-feira negra da Copa, durante a qual movimentos sociais, alguns sérios outros nem tanto, tentarão chamar a atenção para os problemas nacionais.

A história, como se sabe, tem o hábito da ironia. Coube a ela produzir uma interessante coincidência. Na véspera dessas manifestações, a revista Forbes divulgou a lista das 15 famílias mais ricas do país.

No topo delas, encontra-se a família Marinho, proprietária do maior conglomerado de mídia da América Latina e talvez o maior do mundo ainda sob controle estritamente familiar.

A concentração das nossas riquezas agora tem nome e sobrenome. Não é mais uma tese acadêmica. Essas quinze famílias amealham hoje um patrimônio total de R$ 271,26 bilhões.

Os Marinho se destacam no ranking, com 23% do total, contra 16% para o segundo colocado e 12% para o terceiro.

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Os Marinho antes não figuravam em primeiro lugar porque a Forbes não tinha o hábito de juntar as fortunas de familiares numa só conta. Até que eles perceberam que o Brasil tem a característica de que suas principais empresas permanecem familiares.

O controle familiar acrescenta uma nota mórbida ao que representa a Globo no país. É a concentração absoluta de poder. Eles são hegemônicos na mídia, na economia… e no gerenciamento de uma fortuna de proporções nababescas.

Não é mais possível, hoje, para ativistas e movimentos sociais que lutam para transformar o Brasil, omitir-se em relação a concentração estapafúrdia de dinheiro em mãos de tão poucas famílias.

O Brasil precisa de uma lei que imponha um imposto pesado sobre as grandes fortunas do país. Assim como há nos EUA e na Europa.

A fortuna dos Marinho, além disso, evidencia que os interesses econômicos e políticos da grande mídia brasileira jamais serão os do povo.

A hegemonia midiática da Globo é possivelmente o maior fator de desequilíbrio e desigualdade políticas presente em nossa democracia. Qualquer grupo político que tenha a preferência da Globo terá uma vantagem dupla: financeira e midiática.

É justamente isso que estamos assistindo. A Globo, mais uma vez, se posiciona de maneira clara. Seus braços midiáticos estão trabalhando, diuturnamente, para derrotar o projeto popular iniciado por Lula em 2003. Não lhes interessa que nunca tenham ganho tanto dinheiro. Eles já tem o poder midiático, já tem o poder financeiro. Só lhes falta o poder político direto. Eles querem alguém de absoluta confiança ocupando o Planalto. Alguém deles, com quem possam trocar confidências, com quem possam almoçar e contar piadas.

Diante da fortuna dos Marinho, vemos o quanto é ridículo a tentativa de vender à opinião pública a existência de uma “elite sindical”. Aliás, diante da fortuna dos Marinho, vemos a importância essencial de sindicatos e centrais para a existência de uma bancada mínima parlamentar que represente os trabalhadores. Como um brasileiro poderia alcançar a representação política no país assumindo posições políticas independentes da Globo?

É por isso que eles odeiam Lula.

Agora também entendemos o “pacto” tácito entre Lula e Globo. Foi um pacto entre adversários.

Pacto que permitiu Lula governar e distribuir renda e à Globo continuar amealhando dinheiro. PT e Globo cresceram nos últimos anos, como dois exércitos que acumulam forças enquanto esperam a próxima grande batalha entre si.

As eleições deste ano será esta grande batalha. E não será a última.

A fortuna dos Marinho ajuda a botar lenha no debate sobre a democratização da mídia. Mais que nunca, está claro que esta é necessária para a consolidação da nossa democracia, a qual, evidentemente, está em risco se há uma família que controla, sozinha, a mídia, o dinheiro e a política de um país.

Agora sabemos quanto rendeu o “mensalão”. Enquanto a Globo satanizava a classe política, seus donos ganhavam uma quantidade de dinheiro que fazem qualquer caixa 2 partidário parecer um grão de areia.

Agora sabemos que o poder corruptor da Globo é algo além da imaginação. Agora entendemos porque Joaquim Barbosa, presidente do STF, pôs seu filho para trabalhar na emissora e passou a frequentar convescotes de Luciano Huck. Agora entendemos porque Ayres Britto, ex-presidente do STF, assinou prefácio do livro de Merval Pereira e assumiu a presidência do Instituto Innovare, da Globo.

Agora entendemos a campanha da Globo para glorificar Joaquim Barbosa e detonar Lewandowski.

A Globo cuida, como sempre, de seu bolso.

A Globo explorou os preconceitos do povo (no qual incluo a classe média) para vender a ideia de que o julgamento do mensalão, pela primeira vez na história do Brasil, “prendeu poderosos”. Ora, ao vermos a fortuna dos Marinho e olharmos para José Genoíno, como evitar uma sombria e nervosa gargalhada interior? Que espécie de poderosos são esses cuja fortuna de uma vida inteira não daria sequer para comprar a graxa dos sapatos usados pela família Marinho?

A concentração de mídia, dinheiro e poder é um problema muito maior que a corrupção, porque implica na destruição dos fundamentos de uma democracia, segundo o qual o poder deve emanar do povo, da maioria da população. A democracia implica, naturalmente, também em regras que protejam o direito das minorias e filtrem as paixões mórbidas do povo.

Explorar os preconceitos populares, como fez a nossa mídia durante a cobertura do mensalão, foi um tremendo mal ao processo democrático.

As pessoas que pensam a política no Brasil não tem mais o direito de omitir-se em relação ao risco democrático inerente ao descomunal poder midiático e financeiro da Globo. Lideranças de movimentos sociais, de partidos, de sindicatos, intelectuais progressistas, terão de ser muito mais atentos.

O PT e o governo federal, por sua vez, terão de refletir profundamente sobre este caso. Uma redistribuição profunda das verbas publicitárias se faz premente, porque não é possível continuar alimentando um monstro que não apresenta um risco somente para o PT, mas para a própria democracia.

Não querem dar nada à imprensa alternativa, tudo bem. Mas não dêem para a Globo. Criem uma portaria qualquer que obrigue concessões públicas a veicularem gratuitamente os anúncios de cunho institucional.

Pensem na democracia, pelo amor de Deus!

A única solução é a internet. Estive relendo uma matéria publicada ano passado no Viomundo, com uma entrevista com Helena Chagas, e voltei a ficar estarrecido com o desprezo dela por uma política de desconcentração e pluralidade das verbas federais voltadas para a publicidade.

Claro, a culpa não é dela. Trata-se de uma visão do PT e da própria Dilma. Mas agora temos dados reais. A política de concentração de verbas, incentivada pelo conceito de mídia técnica, ajudou a criar este monstro. Uma fortuna tão desproporcional em relação ao tamanho da economia brasileira, em mãos de uma família que controla o principal conglomerado de mídia no país, significa um risco altíssimo à democracia, porque o poder corruptor do dinheiro se soma ao poder manipulador da informação.

A mídia, em qualquer país, responde pela representação do nosso imaginário. Agora entendo porque jamais se fizeram (ou se fez tão poucos) filmes ou livros sobre a mídia.

Lima Barreto se deu mal quando lançou Memórias do Escrivão Isaías Caminha, no qual denunciava um jornal fictício chamado… O Globo! O escritor se baseou em sua experiência no Correio da Manhã. O Globo ainda não havia sido fundado quando escreveu o livro, mas a coincidência dos nomes tem um quê de visionária.

Depois daquele livro, Barreto entrou na lista negra da mídia carioca e nunca mais trabalhou em jornal nenhum. Ficou sem renda da noite para o dia, apesar de ser um dos maiores escritores vivos de sua época. Cem anos depois, o drama se repete, mas em proporções infinitamente maiores. E o que está em risco não é mais a segurança financeira de um pobre escritor carioca, mas sim a de um país inteiro, à mercê dos caprichos de uma família multibilionária e seus fantoches na política e no Judiciário.

democratização

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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15 comentários

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Globo nunca mais

16 de maio de 2014 às 18h18

Há três caminhos claros:

1. Não ver a Globo nem tampouco suas irmãs GNT, Globonews, Globosat e assemelhados.

2. Boicotar produtos anunciados na Globo.

3. Pressionar os governos a não anunciarem na Globo.

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enganado

16 de maio de 2014 às 14h54

Um País com a riqueza do BRASIL, em todos os sentidos, como pode uma companhia que não faz fumaça terem a fortuna que tem. Se querem saber a verdade, é só perguntar aos Generais do Glorioso Patriota Exército do BRASIL como pode uma coisa dessas e ainda por cima que obedece as ordens que da Imprensa-Empresa Anglo-Semita instalada nos EUA. Pobre BRASIL! Abençãos Anjo ISMAEL!

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ramoom

15 de maio de 2014 às 22h45

Boa noite, amigos! Vamos, juntos, ajudar a combater as mentiras e manipulações do PIG? Curtam e compartilhem: https://www.facebook.com/Brasilantipig

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Araújo

15 de maio de 2014 às 22h17

O que parecia impossível começa a ser revelado. A sonegação bilionária da Globo, as maracutaias do sistema Globo, a fortuna dos Marinhos, a origem dessa imensa fortuna. Só está faltando mostrar ao povo onde esse calhordas moram e pedir alguns protestos frente as suas mansões.

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Jose Neto

15 de maio de 2014 às 21h07

Miguel e esse ataque da PF à casa do Pizzolato? Parece que pode ser coincidência, mas o Alexandre soltando documentos que desmontam a farsa do MENTIRÃO está incomodando a mídia e muito. A PF da ala tucana também está incomodada, pois é fato que vai cair e mais rápido do que imaginávamos, espero que o Alexandre tenha se resguardado e feito cópias de segurança longe do alcance daqueles que não querem que a verdade apareça.

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Ermindo Castro

15 de maio de 2014 às 21h34

e a Petrobrax agora vai sair alimpo !!!

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martha silva

15 de maio de 2014 às 14h12

Democratizacao dos meios de comunicacao, esse e o primeiro caminho.Depois, uma sociedade mais democratica e consciente vai cobrar do governo uma taxacao desta riqueza exorbitante.

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jose marcos

15 de maio de 2014 às 13h17

Tem uma tal de Pedro Zanella Nunez que fez um comentário acima tão ridículo que não posso acreditar que tenha partido de uma mente normal. Além disto foi um grosso ao fazer a tréplica do comentário do Caster. E o pior é que o cara diz que o problema da justiça não punir é problema do Governo, acho que o universitário ainda não aprendeu sobre a independência dos poderes, precisa voltar para o ensino fundamental. Concluindo: típico cometário de alguém que se acha da direita, sem fundamentação, preconceituoso, mal educado e alienado.

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    2md

    16 de maio de 2014 às 00h36

    O mais triste é que o cara é aluno de uma universidade criada pelo PT, no programa de expansão do ensino superior. Isso prova o quão plural, anticiclica e não populista foram certas políticas públicas do PT. É risível quando ele fala em ultra-esquerda…

    Responder

PIG - Partido da Imprensa Golpista

15 de maio de 2014 às 15h07

Olá amigos! Mais um dia, juntos, vamos combater as manipulações e mentiras do PIG? Curtam e compartilhem nossa página: https://www.facebook.com/Brasilantipig

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Rivotril de Barbosa

15 de maio de 2014 às 11h51

Assaltando banco e sem pagar imposto, quem não fica rico?

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maria cardoso

15 de maio de 2014 às 11h28

um texto tão claro e ao mesmo tempo tão pouco compreendido por pessoas que nada tem a ganhar com o aumento do poder da família marinho… como diz o meu marido: “me faz mal ter de explicar coisas tão óbvias para pessoas que eu julgava inteligentes…”

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Manelito Magalhaes

15 de maio de 2014 às 11h21

A Receita Federal deveria com a máxima urgência fazer uma auditoria na declaraçao do IR dos filhos de Roberto Marinho para verificar se existe coerência entre os vencimentos e a riqueza acumulada!!!!

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paulo

15 de maio de 2014 às 10h42

A Lei de Mídia no país é de urgência urgentíssima. Lula está agora falando abertamente sobre o tema. Antes tarde do que nunca. Espero que ele coloque o tema na campanha, que ele discuta com o povo, políticos, empresários, jornalistas. Os jornalistas precisam ser esclarecidos, precisam ouvir mais sobre a democratização da mídia, mais sobre Democracia. Dilma não vai ter mais como fugir dessa discussão. Mas o projeto de Requião, do Direito de Resposta , que está para ser votado na câmara é que precisa de amuita atenção nesse momento, pois é uma face muito importante da regulação da mídia no país. Fiquemos de olho e vamos à luta.

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Jose Roberto

15 de maio de 2014 às 13h00

A copa é da Fifa, da globo,e do PT, PARTIDO TRAIRA

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