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Jorge Furtado explica seu voto em Dilma

Por Miguel do Rosário

31 de agosto de 2014 : 14h48

Jorge Furtado, um dos maiores cineastas brasileiros, explica o seu voto na reeleição de Dilma Rousseff.

Aproveito para lembrar que Furtado estará em Brasília nessa terça-feira, durante a exibição de seu filme, às 18:30, no Cine Cultura Liberty Mall.

Haverá debate sobre o filme logo após a sessão.

O filme faz parte do Festival Internacional de Cinema de Brasília, o BIFF, que teve início no dia 28 e dura até o dia 6 de setembro.

Eu também estarei presente.

*

Cineasta explica os motivos que o fizeram apoiar a reeleição de Dilma Rousseff

Por Jorge Furtado, extraído do site da Revista Forum.

Se alguém me dissesse, em 2004 – quando o primeiro governo Lula sofria a oposição feroz de toda a mídia brasileira e tinha pouco ou nada para mostrar de resultados – que em dez anos o segundo turno da eleição presidencial seria disputado entre duas ex-ministras do governo Lula, uma pelo Partido dos Trabalhadores e uma pelo Partido Socialista Brasileiro, eu diria ao meu suposto interlocutor que a sua fé na democracia era um comovente delírio. A provável ausência, pela primeira vez no segundo turno das eleições presidenciais, de candidatos da direita autêntica, do PSDB, do DEM e do PTB, é mais uma boa notícia que a democracia nos traz. Imagina-se que, vença quem vença, muitos dos derrotados voltarão correndo para os braços confortáveis do novo governo, esta é a má notícia.

Tenho familiares e bons amigos que vão votar na Marina e também no Aécio. Eu vou votar na Dilma. Acho que foi o Todorov quem disse (mais ou menos assim) que a democracia nos reúne para que a gente resolva qual é a melhor maneira de nos separar. Não sou nem nunca fui filiado a qualquer partido, já votei em vários, tenho amigos em alguns. Neste que é o maior período democrático da nossa história (25 anos, sete eleições consecutivas), o Brasil não parou de melhorar e não há nada que indique que vá parar de melhorar agora.

Votei no Lula, desde sempre até ajudar a elegê-lo em 2002, com o palpite de que um governo popular, o primeiro em 502 anos, talvez pudesse enfrentar com mais vigor o grande problema brasileiro: a desigualdade social. Achei que, talvez, substituindo a ideia de que o bolo deve primeiro crescer para depois ser divido pela ideia de incentivar o crescimento do país com melhor distribuição de farinha, ovos, manteiga, fogões, casas com luz elétrica, empregos e vagas nas escolas e nas universidades, finalmente poderíamos começar a nos livrar da nossa cruel e petrificada divisão entre a casa grande e a senzala. Meu palpite estava certo. A desigualdade brasileira continua grande e cruel mas está, finalmente, diminuindo.

Voto, ainda, primeiro contra a desigualdade social, ainda o maior problema do país, um dos mais injustos do planeta, em poucos lugares há uma diferença tão grande entre pobres e ricos. A elite brasileira (sim, ela existe, esta aí), fundada e perpetuada no escravismo, luta para manter seus privilégios a qualquer custo. Eles são donos dos bancos, das grandes construtoras, fábricas e empresas, das tevês, rádios, jornais e portais da internet e defendem ferozmente sua agradável posição. A única maneira de enfrentar seu enorme poder é no voto.

Voto contra o poder crescente do capital sobre as políticas públicas. Quem vive de rendas pensa sempre mais no centro da meta da inflação e menos nos níveis de emprego, mais na taxa dos juros e menos no poder aquisitivo dos salários. O poder do capital especulativo, rentista, é gigante, mora na casa dos bilhões de dólares. Voto contra, muito contra, a autonomia do Banco Central, que tira do governante, eleito pelo nosso voto, o poder de guiar o desenvolvimento segundo critérios sociais, protegendo o país do ataque de especuladores e garantindo renda e empregos, e entrega este poder ao tal mercado, hereditário e eleito por si mesmo, sempre predador e zeloso em garantir a sua parte antes de lamentar os danos sociais causados por seus lucros. (Ver Espanha, Grécia, EUA, Finlândia, etc.)

Voto contra submeter os critérios de uso dos nossos recursos naturais não renováveis, como o petróleo, ao interesse de grandes empresas estrangeiras. O petróleo brasileiro e seu destino é o grande assunto não mencionado nas campanhas eleitorais. Os ataques contra a Petrobras, que acontecem invariavelmente às vésperas de cada eleição, atendem interesses das grandes empresas petroleiras, especialmente as americanas, que querem a volta do velho e bom sistema de concessões na exploração dos campos de petróleo, sistema que, na opinião delas, deveria ser extensivo às reservas do pré-sal. Aqui o interesse chega na casa do trilhão. Garantir que o uso da riqueza proveniente da exploração de nossos recursos não-renováveis tenha critérios sociais, definidos por governantes eleitos, me parece uma ideia excelente da qual o país não deveria abrir mão.

Voto contra o poder crescente das religiões sobre a vida civil. Respeito inteiramente a fé e a religião de cada um, gosto de muitos aspectos de várias religiões, sei do importante trabalho social de várias igrejas, mas não aceito o uso de argumentos ou critérios religiosos na administração pública. Mesmo para os que professam alguma fé religiosa a divisão entre os poderes da terra e do céu deveria ser clara. Diz a Bíblia, em Eclesiástico, XV, 14: “Deus criou o homem e o entregou ao poder de sua própria decisão”. (Esta é a versão grega, a versão latina fala em “de sua própria inclinação” ou “ao seu próprio juízo”.) Erasmo faz uma boa síntese desta ideia: “Deus criou o livre-arbítrio”. Ele, se nos criou a sua imagem e semelhança e criou também as árvores, haveria de imaginar que, criadores como ele, criaríamos o serrote, e com ele cadeiras, mesas e casas, e ainda, Deus queira!, a ciência que nos permita usar com sabedoria os recursos naturais e viver bem, com saúde. O poder crescente das igrejas, com suas tevês e bancadas no congresso, deve ser contido por um estado laico.

Voto contra o preconceito contra os homossexuais. O estado não tem nada a ver com o desejo dos indivíduos. Ninguém (seriamente) está falando que o sacramento religioso do casamento, em qualquer igreja, deva ser definido por políticas públicas, mas os direitos e deveres sociais devem ser iguais para todos, ponto. Os preconceituosos e mistificadores, que vendem a cura gay ou bradam sua lucrativa intolerância contra os homossexuais, devem ser combatidos sem vacilação ou mensagens dúbias.

Voto contra a criminalização do aborto. A hipocrisia brasileira concede às filhas da elite o direito ao aborto assistido por bons médicos, em boas condições de higiene, e deixa para as filhas dos pobres os métodos cruéis e o risco de vida, milhares de meninas pobres morrem de abortos clandestinos todos os anos. A mulher deve ter direito ao seu corpo, independente de vontades do estado ou de dogmas religiosos.

Voto contra o obscurantismo que impede avanços científicos. Há quem se compadeça com os embriões que serão jogados no lixo das clínicas de fertilização e ignore o sofrimento de milhares de seres humanos, portadores de doenças graves como a distrofia muscular, a diabetes, a esclerose, o infarto, o Alzheimer, o mal de Parkinson e muitas outras, cuja esperança de cura ou melhor qualidade de vida está na pesquisa com as células tronco.

Voto contra palavras vazias. Nossa era da mídia transformou a oralidade num valor em si, esquecendo que há canalhas articulados e bem falantes e pessoas de bem e muito competentes que são de pouca conversa, ou até mesmo mudas. Tzvetan Todorov: “A democracia é constantemente ameaçada pela demagogia, o bem-falante pode obter a convicção (e o voto) da maioria, em detrimento de um conselheiro mais razoável, porém menos eloquente”. (1) Há quem diga de tudo e também o seu oposto, dependendo do público ouvinte a quem se pretende agradar, há quem decore frases feitas repetíveis em qualquer ocasião, há quem não fale coisa com coisa. Prefiro julgar os governantes e aspirantes a cargos públicos menos por suas palavras e mais por seus atos, seus compromissos e sua capacidade de trabalho em equipe, ninguém governa sozinho.

Voto contra os salvadores da pátria. Pelo menos em duas ocasiões o Brasil apostou em candidatos de si mesmos, filiados a partidos nanicos, sem base parlamentar, surfando numa repentina notoriedade inflada pela mídia e alimentada pelo discurso “contra a política”, prometendo varrer a corrupção e as “velhas raposas”. No primeiro caso, a aventura personalista de Jânio Quadros acabou num golpe militar e numa ditadura que durou 25 anos. No segundo, a aventura personalista de Fernando Collor, sem base parlamentar e passada a euforia inicial, terminou em impeachment, bem antes do fim de seu mandato.

Voto na Dilma e contra tudo isso que ainda está aí: a desigualdade social, o poder crescente do capital, a cobiça sobre nossos recursos naturais, o preconceito contra os homossexuais, a criminalização do aborto, o obscurantismo que impede avanços científicos, a criminalização da política, as palavras vazias, os salvadores da pátria. Com a direita autêntica fora do jogo podemos, sem grandes riscos de voltar ao passado, debater o melhor caminho para seguir avançando. Ponto para a democracia.

(1) Tzvetan Todorov, Os inimigos íntimos da democracia, tradução Joana Angelica DÁvila Melo, Companhia das Letras, 2012.

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Foto: Divulgação/Facebook

http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/09/jorge-furtado-voto-contra-tudo-isso-que-esta-ai/

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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16 comentários

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Mônica Regina dos Santos

02 de setembro de 2014 às 15h40

Tatá no Blog da Cidadania:
02/09/2014 • 12:26

prezado Eduardo – sou uma mulher de 67 anos, psicanalista, tenho acompanhado a trajetória de nossa presidenta- gostaria de fazer algumas observacoes- acho que ela esta. muita presa a técnica, deveria ficar mais solta, mais ” humana”- deveria responder ao que lhe perguntam de maneira calma, por ex.- quando falam que o partido tratou seus ” condenados”como heróis, deveria dizer que a história e diferente, os militantes se revoltam pela maneira diferenciada com que a justica tratou situações semelhantes, como mensalão tucano, compra de reeleição, desvio do Metro de SP, que para nossa vergonha precisou de autoridades da Suíça para se começar a investigar aqui em SP, então senhores, ninguém glorifica maus feitos, queremos apenas que a Justiça seja feita. Quando falam em relação a Petrobras, deveria pedir aos eleitores que se informassem melhor, por ex sobre a compra de Pasadena, os números mostram que deu lucro – todos sabemos que a Petrobras eh muito cobiçada pelos estrangeiros, nosso Pre-Sal eh milionário, e então parece que falar mal da empresa eh uma maneira de desvaloriza- la, para entregar de mão beijada aos estrangeiros, como fizeram com a Vale, que foi vendida por míseros 3 bilhões, quando valia mais de 100 bilhões, ninguém viu indignação da imprensa a época, então caros brasileiros, não vamos deixar que desvalorizem nosso maior patrimônio, se as pessoas cometeram erros, a empresa não pode pagar por isso. Quando falam que o programa eleitoral mostra um Brasil maravilhoso, dizer que ali não há promessas, são realizações- se a família sorri, e porque conseguiu sua casa pelo Minha casa, minha vida, se a estudante está feliz eh porque encontrou no Pronatec um Caminho- se o pobre hoje come melhor, eh porque diminuímos as desigualdades sociais- tudo isso foram conquistas, são Presente, com perspectivas de melhorar muito o Futuro. penso que nossa presidenta deveria ter essas situações ” decoradas” para poder expor com clareza e calma,se for possível chegar esse email a sua campanha ficaria grata.

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    Mineirinho

    05 de setembro de 2014 às 15h58

    Também concordo. A Presidenta está sendo mal assessorada. Deveria fazer um media trainning.

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    Alexandre

    08 de setembro de 2014 às 23h24

    É isto mesmo Mônica. Depois desta, “abraça o elefante. beija ele bastante” e depois sai pro abraço.

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Livia Gabriel

02 de setembro de 2014 às 05h13

Andre Delai Vinícius Augusto Pontes Rodrigo Cabral de Menezes Camila Correia Emidio José Chu

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Cláudio

01 de setembro de 2014 às 22h24

“Imagina-se que, vença quem vença, muitos dos derrotados voltarão correndo para os braços confortáveis do novo governo, esta é a má notícia”. Bom, talvez o cineasta não se lembre, mas alguns nunca saíram de lá; ao contrário são parceiros do petê, que faz questão de tê-los ao lado e lhes aumentar o poder. É só o cineasta dar um olhada nas regiões norte/nordeste e ver quem o petê, Lula e Dilma apóiam!

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Denise Vírgula

02 de setembro de 2014 às 00h57

Quem apoia Osmarina: Mainard, Lobão, Sherazaad e outros “encostos” mais.

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Denise Vírgula

02 de setembro de 2014 às 00h57

Quem apoia Osmarina: Mainard, Lobão, Sherazaad e outros “encostos” mais.

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Denise Vírgula

02 de setembro de 2014 às 00h55

OSMARINA vai com as outras.

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Denise Vírgula

02 de setembro de 2014 às 00h55

OSMARINA vai com as outras.

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Narr

01 de setembro de 2014 às 17h21

“O caminho da UDN para o Palácio do Planalto passa pela eleição do Sr. Jânio da Silva Quadros.” (Afonso Arinos)

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marta

01 de setembro de 2014 às 16h26

Parabéns Jorge!!! Poucos intelectuais têm a capacidade de sintetizar o pensamento de uma forma tão didática….Concordo com tudo….Dilma de novo e melhor!!!!

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Rodrigo Ribeiro

01 de setembro de 2014 às 19h20

Explico tb: $$$$

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Cecilia

01 de setembro de 2014 às 15h44

Incrivel sua avaliação, só não consigo compreender como a classe que sentiu na pele as melhoras providas pelo governo, consegue se guiar de forma lunática e sem argumentos, para uma situação tão retrograda.
Espero que em frente a urna, possam voltar a razão, antes de apertar qualquer botão.

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Rafael Látaro

01 de setembro de 2014 às 18h40

Quem sabe agora o PT assuma posições mais a esquerda para convencer os “Marina vai com as outras”… Vamos ver… Será?!

Será que o PMDB irá entender?

Não perca as cenas no próximo turno, rss…

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Rafael Camilo

01 de setembro de 2014 às 18h32

Lucas Rabêlo

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Vera Lúcia Piesanti Molinar

01 de setembro de 2014 às 18h21

tamo junto c/Dilma!

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