Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Ataque à sede do PT e prisão de Bernardo: avança a noite de São Bartolomeu na ditadura pós-golpe

Por Miguel do Rosário

24 de junho de 2016 : 06h55

[s2If !current_user_can(access_s2member_level1) OR current_user_can(access_s2member_level1)]

(Placa comemorativa da revolução dos cravos, fixada diante de uma prisão política da ditadura portuguesa. Para entender mais, clique aqui).

Análise Diária de Conjuntura – 24/06/2016

Primeiramente, desculpa pela falha de ontem à noite. A análise de quinta, eu compenso fazendo uma edição extraordinária no sábado. E – também para compensar – faço a de hoje, sexta-feira, bem cedo, tratando dos assuntos de ontem.

Ao trabalho.[/s2If]

[s2If !current_user_can(access_s2member_level1)]

***

Para continuar a ler, você precisa fazer seu login como assinante: clique aqui ou procure o campo de login na coluna da direita ou no pé do blog).

Confira aqui como assinar o blog O Cafezinho. Qualquer dúvida, entre em contato com a Thamyres, no assineocafezinho@gmail.com ou +5521967749911 (de preferência por zap, telegram ou torpedo). [/s2If]

[s2If current_user_can(access_s2member_level1)]

A operação de busca e apreensão na sede do PT, em São Paulo, pela Polícia Federal, foi um ataque político.

Isso é evidente.

Não é a primeira vez que a PF ataca diretamente o PT porque a Lava Jato tem feito isso desde o início.

O PT sofre ataques desse tipo, aliás, desde a sua criação, mas esse tipo de ataque, conjugando estratégias midiáticas e judiciais de elevada sofisticação intensificou-se muito a partir de 2005, quando seus dirigentes começaram a ser sistematicamente criminalizados, julgados sem provas ou com provas ilegais, condenados, presos em regime praticamente de prisão perpétua.

A novidade de ontem foi o espetáculo midiático e militar oferecido, com agentes fortemente armados posando para as câmeras de TV diante da sede da legenda.

A prisão do ex-ministro Paulo Bernardo, por sua vez, configura uma prisão política, mais uma entre tantas que vem acontecendo no Estado de Exceção em que já entramos há algum tempo.

Bernardo é marido de uma senadora, tem raízes familiares, profissionais, políticas, profundas no Brasil, portanto, não pode fugir.

Qual o motivo de uma prisão preventiva se não oferecer um espetáculo midiático, um factoide político e uma condenação prévia.

A ditadura em que já estamos imersos tem alguns aspectos particularmente diabólicos, que a tornam mais sinistra do que a militar, que é o seu esforço de se apresentar como uma ditadura “democrática” e “constitucional”.

Ou seja, na superfície, temos uma democracia, com separação de poderes, imprensa livre, eleições, regime das leis.

Na prática, porém, é uma ditadura. O voto não é respeitado. A presidenta é afastada sem que se aponte um crime de responsabilidade. A imprensa é monopolizada por meia dúzia de famílias, num cartel chefiado por uma só família, e não passa de correia de transmissão de uma elite autoritária, sonegadora e golpista. A Constituição não é respeitada pelo próprio Judiciário, cujos membros prendem as pessoas sem lhes oferecer nenhum tipo de garantia, sem respeitar sua presunção de inocência, e vendendo a dignidade dessas pessoas para ganhar prestígio junto àquela mesma mídia concentrada, plutocrática e golpista.

Pelo menos isso já ficou bem claro para um setor da opinião pública.

O senador tucano Cassio Cunha Lima, líder de seu partido na casa, subiu a tribuna para criticar a prisão espetacular de Paulo Bernardo, mas fez uma crítica a seu colega, Lindberg Farias que eu gostaria de comentar.

Trecho de matéria publicada no 247:

O parlamentar [Cassio Cunha Lima], contudo, rebateu as críticas feitas pelo senador Lindbergh Farias (PT-RJ) de que o processo de impeachment serviria para estancar as investigações e que a ação desta quinta-feira teria como objetivo atingir o PT.

“Essas teorias conspiratórias só demonstram o deslocamento da realidade. O PT quer transformar essas investigações em chiclete, que escolhe que lado morde. Tem hora que é bacana, tem hora que não é. O trabalho do Ministério Público e da Polícia Federal tem sido feito de forma competente”, destacou.

De fato, Lindberg, assim como boa parte dos quadros do PT, têm caído com facilidade nas pegadinhas das conspirações golpistas.

Essas pegadinhas consistem em usar táticas de diversionismo político. Quando as críticas ao golpe e às próprias conspirações se tornam muito agudas, e começam a ganhar prestígio na opinião pública doméstica e na imprensa internacional, os ataques mudam de lado e passam a atingir setores do próprio golpe e do governo interino. Outra delação contra Aécio é vazada. Mais um ministro do governo interino é alvo de inquérito. Nada que fira de morte o centro do novo poder golpista. Mas que sirva para legitimar o poder judiciário, recuperar o prestígio das forças policiais (incluindo aí o ministério público) e pagar à democracia o imposto da isenção.

Só que o pagamento é feito com dinheiro falso (mas isso será descoberto bem mais tarde, ou tarde demais).

Eu até entendo os dilemas do caciques petistas. Estamos no meio de uma “guerra híbrida”, e, no caso do Brasil, uma das mais sofisticadas já engendradas. É muito difícil deslindá-la. E mais complicado ainda se posicionar nesse campo sem se opor às ondas da opinião pública. Em política, opor-se às ondas de opinião pública é sempre um risco muito grande.

Há anos que eu escrevo sobre a necessidade da esquerda organizada, dentro da qual o PT é a principal força, criar think tanks, núcleos de inteligência, com capacidade para responder rapidamente aos ataques nessa nova conjuntura de guerras híbridas. Nada foi feito.

Muitos tem falado que Dilma está sendo derrubada não por seus erros, mas por seus acertos. Sim, há uma verdade nessa asserção. O ódio ao PT, de fato, nasce das escolhas do partido em favor da população mais pobre.

Entretanto, também há um auto-engano constante nessa forma de pensar. É claro que um golpe, como o que vivemos, resulta de uma sucessão de erros por parte da esquerda e, muito especialmente, dos governos petistas, erros que continuam sendo cometidos agora e por isso é importante mencioná-los numa análise de conjuntura.

O principal erro é justamente a falta de uma estrutura de comunicação. Há um explícito complexo de baixa autoestima nessa inação do PT em matéria de comunicação, como se o partido não se sentisse capaz de produzir uma coisa original.

Para isso, não é preciso tanto dinheiro, mas sim coragem de inovar, de usar as energias sociais que estão aí, pedindo para ser usadas e ninguém as usa. Há milhares de pessoas qualificadas querendo ajudar o país a se libertar do golpe, e o PT permanece preso às mesmas estratégias: artigo do Emir Sader.

Não tenho nada contra Emir Sader. É um grande sujeito. Mas evidentemente é preciso oferecer novidades à opinião pública. Horas depois da prisão de Paulo Bernardo, o PT deveria contra-atacar com uma série de depoimentos de personalidades, se posicionando contra o avanço do autoritarismo. E tudo disponibilizado em pequenos vídeos de 1 minuto.

Uma comunicação bem feita, além disso, não pode ser partidarizada. Não adianta investir na “Agência PT”. É preciso construir um diálogo aberto com a sociedade. Somente a sociedade organizada salvará a democracia brasileira e, portanto, salvará os partidos políticos dessa onda fascista que, a pretexto da luta contra a corrupção, visa eliminar a própria política, num processo de higienização da democracia que tem como resultado o fim da democracia.

É tão difícil entender? O Irã patrocina um programa de TV chamado Hispan TV. Ele não encheu o programa de aiatolás iranianos. Não. Há uma linha mestra na geopolítica, que é ser um programa antihegemônico, ou seja, anti-imperialista, e só. O programa foi tomado por intelectuais progressistas, incluindo até mesmo a atual liderança do Podemos, Pablo Iglesias, que se tornou apresentador de um programa.

O momento atual pede iniciativas assim: um programa diário de TV, que não seja caracterizado como “petista”, ou de nenhum partido, mas que tenha uma linha mestra básica antigolpe e progressista. Pronto.

O programa pode ser feito pela internet mesmo. Lula pode ser um dos apresentadores.

As ações de hoje, tentando desviar o foco do governo Temer, jogando os holofotes do escândalo novamente sobre o PT, ocorrem 48 horas depois do ministro da Justiça, Alexandre Moraes, promover um encontro com Sergio Moro e procuradores da Lava Jato.

Ora, não é preciso haver uma relação automática. O golpe já se tornou orgânico há tempos. Os seus articuladores sabem como agir, porque não há mistério.

Noam Chomsky nos explicou há tempos como funcionam esses esquemas de produção de consenso, articulados pelos grandes meios de comunicação. São orgânicos. Podemos aplicar o mesmo raciocínio para o golpe, que também é baseado numa estratégia semiótica de produção de consenso.

As conspirações não são, necessariamente, planejadas previamente. Elas tem uma dinâmica muito própria, adaptável às circunstâncias cambiantes da luta política diária.

Para lutar contra o golpe, e vencê-lo, será preciso oferecer à sociedade os instrumentos para compreendê-lo, daí a importância de estratégias criativas de comunicação.

Quando um regime apela para a prisão política, porém, é uma faca de dois gumes.

De um lado, ele consegue apoio social baseado na propaganda da força. Os apoiadores daquele regime se sentem fortalecidos diante daquela demonstração. Vide o caso do ataque fascista à UNB. Vieram todos gritando Viva Sergio Moro. Ou seja, a truculência judicial ganha facilmente o apoio fascista, porque lhes faz parecer vencedores, e portanto ajuda a propagar o próprio fascismo social e político.

De outro lado, a prisão política é o início do fim do velho regime, porque o mostra incapaz de se manter no poder sem apelar para instrumentos não-democráticos. O mais difícil, naturalmente, numa conjuntura como a nossa, dado o perfil da guerra híbrida na qual estamos inseridos, é provar que estamos diante de prisões políticas e que o adversário viola o Estado Democrático de Direito. A guerra híbrida no Brasil é ancorada principalmente na estratégia das corporações midiáticas de afinarem uma só narrativa, incontestável. Essa narrativa única é combinada organicamente, de maneira muito clara. Esse ponto, contudo, é o ponto-fraco deles. Em tempos de internet, é muito difícil estabelecer a narrativa única. A demanda por pontos-de-vista diversos tende sempre a crescer e a se popularizar. Isso é o que está acontecendo. A quantidade de pessoas, hoje, que entende os perigos – e as mentiras – da narrativa única cresceu de maneira extraordinária.

Ou seja, vitórias e derrotas se entrelaçam de maneira muito interessante. Ao mesmo tempo em que suas vitórias eleitorais avançavam, o PT perdia cada vez mais a batalha narrativa. Hoje a situação se inverteu. O PT vem perdendo espaço na política, e suas perspectivas eleitorais não são brilhantes, mas os núcleos de resistência à narrativa hegemônica da mídia, vem se consolidando e crescendo.

[/s2If]

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

9 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Luís Ribeiro

24 de junho de 2016 às 15h17

faço o login e continuo sem acesso

Responder

    migueldorosario

    24 de junho de 2016 às 15h49

    manda um email para assineocafezinho@gmail.com, com copia para mim migueldorosario@gmail.com. Não basta logar, é preciso estar registrado no sistema como assinante.

    Responder

      renato andretti

      24 de junho de 2016 às 18h19

      bom..

      Responder

      Under_Siege@SAGGIO_2

      26 de junho de 2016 às 15h48

      enviado. até aqui só a resposta automatica. obg.

      15:48h 26062016

      Responder

        Under_Siege@SAGGIO_2

        27 de junho de 2016 às 09h56

        Resolvido o problema do ACESSO!

        #ForaTemer!

        Responder

    Under_Siege@SAGGIO_2

    26 de junho de 2016 às 15h47

    IDEM. Há quase um mes, já :(

    Responder

willams will

24 de junho de 2016 às 10h21

Esses miseráveis. Malfeitores togados, desgraçam o poder judiciário! O
Cunha um bandido declarado, o Renan um bandido declarado, FHC um bandido
declarado! Aécio Narcotraficante e bandido já declarado! O Perrella pai
e filho Bandidos de quadrilha perigosa formada e narcotraficantes,
gangue do helicoca! Jucá bandido perigoso! Machado Bandido declarado! E
eles prendem o Paulo B. Para desvia a atenção do Impeachment e do Lava
Jato! Não invadiram sede do PSDB ou PMDB para colher provas, Nem
invadiram o sede do MBL, mas eles sabem invadir a sede do PT, sabem
fazer associação maliciosa, quando a PIG faz associação maliciosa e,
joga na manchete: “Preso ex-ministro ligado a Lula e Dilma” Ou a
Manchete PF invade sede do PT em SP. PIG maldita e ordinária! Através
desses bandidos e participante de organização criminosa togada, pensam
que o povo não está observando os passos deles! Não vai ter PF corrupta
e suja, ou Poder Judiciário que impeça que o Lula ou a Dilma volte ao
Planalto. Se o Lula apontar um pedra pra ser presidente do Brasil, eu
voto na indicação dele!!!!! A pedra indicada é mais limpa que esses
golpistas, Porcos da Mídia e gangue togada!! Eles pensam que o povo não
percebe e votará justamente contra toda essa corja de malfeitores
corruptos!

Responder

Odara

24 de junho de 2016 às 10h01

Excelente texto!

Responder

    renato andretti

    24 de junho de 2016 às 18h21

    Como é bom fugir um pouco dos coxinhas e ler
    textos admiráveis..
    Parabens..

    Responder

Deixe um comentário