Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Acordo para antecipar a eleição presidencial é um verdadeiro tiro no pé

Por Redação

24 de junho de 2016 : 09h43

Por Thiago Pará, secretário-geral da UNE e dirigente do Levante Popular da Juventude

no Levante Popular da Juventude

Os movimentos populares, organizações políticas e partidos de esquerda que estão à frente da luta contra o golpe travestido de impeachment, fazem um amplo debate sobre a saída da crise que devemos apontar para a sociedade brasileira.

Duas posições se evidenciaram nesse debate.  Uma proposta é fortalecer a luta contra o golpe, pelo “Fora Temer” e contra a retirada dos diretos dos/as trabalhadores/as pelo governo ilegítimo até o fim do processo no Senado. A outra proposição supõe que é possível derrotar o impeachment e conseguir o número necessário de senadores se a presidenta Dilma Rousseff fizer o compromisso de apoiar a convocação de um plebiscito para consultar a população sobre a antecipação da eleição presidencial.

Os argumentos levantados por aqueles/as que defendem a segunda posição é de que a presidenta Dilma já não teria mais “condições políticas” de voltar a governar o país. Afinal, seus índices de popularidade são baixíssimos e existe um Congresso Nacional que inviabiliza sua gestão.

Além disso, esses setores da esquerda acreditam que os senadores irão mudar seu voto se for apresentada uma “proposta republicana”, no caso, a antecipação da eleição.

A questão é que, em primeiro lugar, a popularidade de Dilma é baixa justamente porque –  na tentativa de conciliação com as forças que vieram a apoiar o golpe – aplicou um ajuste econômico de natureza neoliberal, cobrando a fatura do povo brasileiro, com cortes de direitos, dos programas sociais e dos investimentos em saúde e educação.

Com isso, o governo ajudou a pavimentar o caminho do golpe, com a perda de apoio das camadas populares, que a reelegeram em 2014 com a promessa de implementação de um programa avesso ao aplicado pelo ministro Joaquim Levy.

Em segundo lugar, a inviabilidade que esse Congresso impõe à Dilma será compelido a qualquer governo progressista. Não se trata apenas de uma “antipatia à Dilma”, como simplificam alguns, mas dos interesses políticos de classe que determinam tal oposição.

Por fim, deve-se questionar: será que essa “proposta republicana” tem mesmo condição de reverter os votos dos senadores “indecisos”?

Será que eles estão preocupados com o país ou com tão somente seus interesses pessoais?

Quem são e por que esses senadores já não vieram a público apresentar essa saída da antecipação das eleições?

Até o mundo mineral sabe que, neste momento, eles estão no balcão de Temer, apreciando as “ofertas”, e farão o mesmo com os interlocutores de Dilma Rousseff.

O que a presidenta precisa fazer é escrever uma carta à Nação para apresentar qual programa e ao lado de quais forças sociais estará se reconquistar o governo. Em nossa opinião, Dilma deve adotar as linhas programáticas apresentadas pela Frente Brasil Popular, que aponta para as reformas estruturais.

Defendemos acabar com a farra dos bancos, diminuindo a taxa de juros; responsabilizar os mais afortunados pela crise, taxando lucros,  dividendos, herança, fortuna e riqueza; retomar a construção de moradia popular; acelerar o programa de reforma agrária popular; ampliar as universidades públicas para atender à demanda da juventude, entre outras medidas.

O nosso sistema político é uma herança maldita da ditadura militar, sendo conformado para atender os poderosos de sempre e só dá “condições políticas” para governar àqueles que atendem seus interesses. Não foi a Dilma que perdeu condições políticas de governar, mas o programa neodesenvolvimentista que se esgotou no quadro da crise mundial do capitalismo, bloqueando qualquer inclinação popular do governo sem enfrentar os interesses do grande capital.

Com a crise econômica global e o acirramento da luta de classes, não é possível reproduzir aquele modelo de “ganha-ganha” que garantiu altas taxas de acumulação do grande capital, conferiu ganhos aos trabalhadores com a política de valorização do salário mínimo e melhorou as condições de vida dos mais pobres com programas sociais.

Logo, não é a saída mágica de antecipar a eleição presidencial, neste momento, nos marcos desse apodrecido sistema político, que vai nos tirar dessa crise. O que precisamos, de fato, não são mais eleições, mas reformular as regras pelas quais elegemos nossos representantes. Não falar disso é uma postura política irresponsável. Necessitamos de uma profunda e radical reforma política, que não virá desse Congresso.

A nossa presidenta e companheira de gestão da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, afirmou que devemos devolver ao povo o direito de decidir sobre os rumos do país com o plebiscito sobre a antecipação da eleição presidencial.

Nós temos discordância com essa proposta. Em primeiro lugar, porque depois do golpe em curso, que nós estamos combatendo juntos nas ruas, não temos garantia nenhuma de que o mandato do presidente eleito será respeitado.

Em segundo lugar, avaliamos que as regras para a eleição dos nossos representantes não correspondem aos anseios da nossa sociedade, especialmente da juventude.  O processo eleitoral é dominado pelo poder econômico, não há instrumentos efetivos de participação direta e o Estado brasileiro não tem uma estrutura para atender as necessidades do povo brasileiro.

Por isso, defendemos a convocação de uma Assembleia Constituinte para fazer uma profunda reforma do sistema político, da estrutura do Estado, do modelo oligopolizado de comunicação e do Poder Judiciário.

Temos dúvidas também se a maioria do movimento estudantil é simpática à ideia de nova eleição, como disse a companheira Carina. O que vemos entre os estudantes é um grande desinteresse com a política institucional, uma grande desconfiança com os partidos e pouca esperança em transformar o país dentro desse sistema político.

Por outro lado, existe uma adesão expressiva e crescente nas bases estudantis à luta contra o programa neoliberal do governo golpista, que se materializa na palavra de ordem “Fora Temer”, que é, inclusive, o consenso que existe hoje na diretoria da própria UNE e na Frente Brasil Popular.

Talvez essa bandeira seja assumida pelos estudantes, no entanto, ainda não é um fato consumado. Neste momento, é um grave erro político, porque abriríamos mão do mandato que o povo deu a Dilma na eleição e que termina apenas em 2018. Por isso, defendemos abrir um amplo debate com os estudantes nas escolas, cursos técnicos e universidades para discutir a saída para a crise e massificar a mobilização, garantindo a unidade do movimento estudantil na luta pela democracia e pelas reformas estruturais.

A proposta de plebiscito para antecipar a eleição, na nossa avaliação, mais do que inócua, é um verdadeiro tiro no pé. Pois, compromete nosso principal acúmulo construído até aqui: a unidade das forças populares e democráticas contra o golpe, em sintonia com o sentimento da nossa sociedade. Assim, além de enfraquecer nossa luta contra o golpe, essa proposta poderá ser sequestrada por aqueles que já demonstraram lado nessa luta, que poderão aceitar esse acordo para legitimar a ruptura constitucional.

Não duvidamos das boas intenções dos envolvidos, mas a admissão do plebiscito para encurtar o mandato da presidenta Dilma, a partir dessa proposta de setores da esquerda, será a reprodução da velha prática de conciliação pelo alto, típica domodus operandi das elites brasileiras.

Na década de 80, o processo de redemocratização tutelado pelo “centrão”, composto por uma maioria do MDB, fundou uma “Nova República” sem enfrentar as feridas abertas pela ditadura militar. Agora, com a proposta de antecipação da eleição presidencial, a farsa se repetirá como tragédia, porque representará a anistia dos golpistas e a coroação desse mesmo “centrão” que sustenta esse sistema político que foi construído por aqueles que não queriam –  nem querem – perder o poder.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

10 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

C.Pimenta

24 de junho de 2016 às 20h23

Não é realmente válida a ideia do plebiscito por faltar “condições políticas” à Presidenta Dilma como até, surpreendentemente, o leal PCdoB tem defendido. Ora isso corresponderia ao voto de desconfiança típico do parlamentarismo e não cabe no regime presidencialista e já foi dito “n” vezes por Cardozo, advogado da Presidenta legitimamente eleita. Acho que há outra explicação, não divulgada, das reais intenções ao impor a Dilma este plebiscito.

Responder

    O Mapa Da Mina Negócios Online

    25 de junho de 2016 às 15h39

    Sim, há outra intenção, não divulgada, a de obter os votos necessários para barrar o golpe uai! Sem esse posicionamento da Dilma é só esperar a efetivação do golpe e a destruição do país, com eventuais manifestações contrárias sendo reprimidas com apoio maciço da mídia e da classe média fascista. Hello! Vamos acordar pessoal!

    Responder

renato andretti

24 de junho de 2016 às 18h18

Sem conversa..
primeiro fora temer…
Depois volta DILMA QUERIDA.
E depois nos conversamos ou
trocamos umas idéias..

Responder

    O Mapa Da Mina Negócios Online

    25 de junho de 2016 às 15h41

    Tá achando q o #ForaTemer é uma palavra mágica q vai derrubar as muralhas de Jericó por milagre, enquanto o golpista segue comprando senadores com cargos e benesses?! aff

    Responder

Guilherme Scalzilli

24 de junho de 2016 às 14h21

Foco na luta contra o golpe

Cada vez que Dilma Rousseff ou seus apoiadores falam em novas eleições, ou em plebiscito para referendá-las, o impeachment fica mais perto de se concretizar. No mínimo, é uma confissão de derrota. E pode virar um incentivo para os senadores deixarem as coisas como estão.

Antes de maiores especulações, é necessário reforçar que a ideia não tem viabilidade prática. Ninguém a aceitaria no Congresso, no Judiciário, no empresariado ou na mídia corporativa. Nem no PT há unanimidade a respeito.

Dilma deve permanecer no cargo porque a Constituição o exige, e não por um acordo conveniente de bastidores. Encurtar o mandato, sob qualquer pretexto, sacramentaria o golpe. Dependendo da narrativa em torno do arranjo, poderia até legitimá-lo.

Mesmo que vingasse, o tal “pacto” seria um presente para os golpistas. Eles ganhariam a chance de apagar a vergonha desse governo ilegal, corrupto, autoritário e antissocial que instauraram visando garantir a impunidade dos seus líderes.

Mas então por que a direita não apoiaria o acordo? Porque a impopularidade de Michel Temer poderia desembocar em eleições gerais, viabilizando a candidatura de Lula antes que a Lava Jato atinja seu objetivo central. Simples assim.

Depois do ruinoso prefácio da gestão interina de Michel Temer, não faz sentido discutir se Dilma conseguiria governar. A mera recondução da petista já selaria um pacto informal pelo retorno a certos padrões de decência e responsabilidade administrativa.

Por outro lado, prevalecendo o golpe, é preferível que ele se complete sem máscaras reconfortantes. Seus apoiadores na imprensa, no Judiciário e na sociedade não merecem afagos negociadores. Que integrem a memória do país como cúmplices do triunfo do banditismo sobre a democracia.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2016/06/foco-na-luta-contra-o-golpe.html

Responder

Caíque Pereira

24 de junho de 2016 às 10h30

Me impressiona a cegueira de alguns. Gostaria que esses Stevie Wonder tupiniquins me mostrassem como a Dilma pode conseguir 27 votos sem o acordo para o plebiscito. Outra coisa: plebiscito não é outra eleição, é uma solicitação ao POVO para que ele decida se QUER ou não outra Eleição. O Plebiscito é a ÚNICA saida para parar o golpe. ACORDEM INOCENTES.

Responder

    Des

    24 de junho de 2016 às 12h00

    Já melaram o plebiscito, não vai ter luta nenhuma e o golpe já é.
    Agora se no golpe do ano que vem o Temer ser reeleito indiretamente…

    Responder

    O Mapa Da Mina Negócios Online

    25 de junho de 2016 às 15h43

    Pois é Caique, eu também estou um pouco assustado com a infantilidade da esquerda nessa questão, pensei q esse tipo de pensamento mágico e utópico tinha ficado pra trás, nos anos 80. Acho q é pq a militância vive e respira isso dia e noite, dentro da sua bolha, só se relaciona com companheiros de luta e acabam achando q são maioria ou q vão fazer ao menos cócegas nesse esquemão q tá aí com apoio da mídia e da classe média.

    Responder

YorkshireTea

24 de junho de 2016 às 10h06

Concordo 100%. Eleições antecipadas, se houver, deveriam ser para esse congresso golpista, onde mais de um quarto dos deputados come na mão de um sociopata.

Dilma foi eleita para um mandato que vai até 2018. O mordomo-vampiro tem de ser expulso da cadeira que usurpou o quanto antes.

Nessa hipotética eleição presidencial fora do calendário, caso um candidato progressista seja eleito, não terá a garantia de que permanecerá no cargo, especialmente com esse congresso e judiciário golpistas. E também terá de governar com esse congresso de calhordas.

É um tiro no pé.

Responder

    O Mapa Da Mina Negócios Online

    25 de junho de 2016 às 15h46

    Discordo. Existe o ideal e o real. O real é: ou Dilma se posiciona agora pelo plebiscito ou teremos o golpe consumado. E não pensem q após quebrarem o país, eles vão simplesmente permitir q o país eleja um esquerdista em 2018, pois tudo está sendo preparado para a implantação do parlamentarismo, e aí o voto do povo não fará mais diferença. Ou é agora ou só Deus sabe quando nosso voto valerá alguma coisa de novo nesse país. A esquerda está perdendo o bonde, e todo o país perde também.

    Responder

Deixe um comentário