Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Protesto de professores contra a privatização do ensino público leva caos ao México; Polícia reprime com violência e mídia brasileira ignora o caso

Por Redação

08 de julho de 2016 : 16h35

Foto: Reuters

México: a rebelião que a mídia não vê

Greve dos professores contra privatização do Ensino desdobra-se em manifestações, bloqueios, comunas. Polícia reprime com violência e mortes, mas movimento não recua. Zapatistas podem envolver-se

Por Scott Campbell*, na ROAR Magazine | Tradução Democratize

Em um comunicado divulgado na sexta-feira, 17 de junho, os zapatistas colocaram as seguintes questões relacionadas com a greve em curso dos professores nacionais no México:

“Eles apanharam, jogaram gás neles, os prenderam, os ameaçaram, sofreram disparos, calúnia, com o governo declarando estado de emergência na Cidade do México. Qual é o próximo passo? Irão desaparecer com os professores? Será que vão matá-los? A reforma educacional vai nascer por cima do sangue e cadáveres dos professores?”

No domingo, 19 de junho, o Estado respondeu a estas perguntas com um enfático “Sim”. A resposta veio na forma de fogo de metralhadora da Polícia Federal dirigidas contra professores e moradores que defendem o bloqueio de uma estrada em Nochixtlán, uma cidade no sul do estado de Oaxaca.

Inicialmente, o ministério de Segurança Pública de Oaxaca afirmou que a Polícia Federal estava desarmada e “nem mesmo carregava bastões”. Após ampla evidência visual e uma contagem de corpos de manifestantes mortos no “confronto”, o Estado admitiu que policiais federais abriram fogo contra o bloqueio, matando seis. Enquanto isso, os médicos em Nochixtlán divulgaram uma lista de oito mortos, 45 feridos e 22 desaparecidos. Na segunda-feira, o Coordenador Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), disse que dez foram mortos no domingo, incluindo nove de Nochixtlán.

Os professores pertencentes à CNTE, uma facção mais radical de cerca de 200 mil dentro dos 1,3 milhões do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educaçãpo (SNTE), o maior sindicato da América Latina, estão em greve por tempo indeterminado desde o dia 15 de maio. Sua demanda principal é a revogação da “Reforma Educacional”, iniciada pelo presidente do México, Enrique Peña Nieto em 2013.

Um plano neoliberal baseado em um acordo de 2008 entre o México e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a reforma visa padronizar e privatizar o sistema de educação pública do México, bem como enfraquecer o poder do sindicato dos professores. Os professores também estão exigindo mais investimento em educação, liberdade para todos os presos políticos, além da verdade e justiça para os 43 desaparecidos de Ayotzinapa.

Mexico

Protesto contra a reforma educacional na Cidade do México (Foto: Yahoo)

Um ataque tarde da noite no dia 11 de junho contra o acampamento dos professores em um bloqueio no Instituto de Educação Pública (IEEPO) concentrou mais de mil policiais, que moveram as barricadas e retiraram rapidamente os professores e moradores do local. Um dia depois, os dois principais líderes da CNTE em Oaxaca e Cidade do México foram presos, além de 24 mandados de prisão emitidos para as outras lideranças.

Dezenas de bloqueios foram feitos pela população até o dia 14 de junho, quando dezenas de milhares saíram às ruas para comemorar o aniversário da rebelião em Oaxaca feita em 2006, com a construção de uma comuna que durou cerca de cinco meses.

A CNTE controla 37 pontos críticos nas rodovias em todo o Estado, bloqueando com 50 caminhões-tanque expropriados. Os bloqueios foram tão eficazes que a ADO, uma grande linha de ônibus de primeira classe, cancelou indefinidamente todas as viagens da Cidade do México para Oaxaca, fazendo a Polícia Federal usar aviões para enviar refroços na cidade de Oaxaca, Huatulco (na costa) e Ciudad Ixtepec.

Domingo à noite, a policia começou a cortar a energia para vários setores da cidade, afetando o transporte público, e aumentando os temores de que as forças federais e estaduais tentassem tomar a cidade e o acampamento dos professores na praça principal (Zócalo).

Já na segunda-feira, pelo menos 40 mil pessoas marcharam em Oaxaca para protestar contra a violência do Estado no domingo. Oitenta grupos da sociedade civil emitiram um “alerta humanitário devido ao ataque do Estado armado contra a população civil”. O governador de Oaxaca, Gabino Cué, afirmou que os professores estão em minoria nos bloqueios?—?tentando deslegitimar a luta.

Policial caminha em frente a um caminhão em chamas após protestos da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) (Foto: Jorge Luis Plata/ Reuters)

Na cidade de San Cristóbal de las Casas, integrantes do EZLN alertaram o ofensiva do governo mexicano contra os professores e a população de Oaxaca.

Em um comunicado oficial, o grupo zapatista diz “não tolerar a violência praticada de forma rotineira contra os educadores e os estudantes”, e que a cada vez que o conflito se aproxima de territórios ocupados pelo grupo, “maiores as chances de um eventual confronto para proteger a população civil contra o Estado assassino e policial”.

Oficialmente, o EZLN não pega em armas desde a metade dos anos 90, após uma ofensiva do grupo revolucionário em Chiapas. Desde lá, diversas tentativas de negociar um processo de paz foram esgotadas, por conta da pressão do exército nos arredores das cidades ocupadas pelo grupo.

Mesmo com a possibilidade de uma verdadeira revolução ocorrer no México, ainda mais urgente que a situação e os protestos na Venezuela, o assunto não virou manchete nos meios de comunicação do Brasil.

Para o ativista mexicano Pablo Barba, residente no Brasil desde 2007, isso ocorre pela semelhança entre o plano do governo mexicano para a Educação e os objetivos do atual governo interino. “A privatização em massa, o enfraquecimento dos sindicatos, isso tudo é debatido pelo atual governo de Michel Temer, é um velho sonho do PSDB. No México já estão fazendo isso, e agora chegou a reação. No Brasil não será diferente, principalmente se os educadores e os estudantes se inspirarem na mobilização mexicana contra esse plano absurdo do governo”, diz o ativista.

*Scott Campbell é tradutor e viveu em Oaxaca por sete anos

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

12 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Daniel

10 de julho de 2016 às 05h31

A mídia não mostra, como também evita ao máximo mostrar os trabalhadores na França, para não estimular a revolta aqui, não colocar “ideias” na cabeça do povo.

Responder

C.Pimenta

09 de julho de 2016 às 17h56

MÍDIA-EMPRESA: SEMPRE CONTRA A PAZ
O Relatório Chilcot demonstrou não apenas que a dupla Blair-Bush cometeu
inomináveis crimes de guerra na invasão do Iraque, mostrou também,
cruamente, como a mídia-empresa ocidental aceita mentiras grosseiras
como aceitou que o Iraque possuía Armas de Destruição em Massa (ADM),
sem qualquer comprovação, e repete diariamente, também sem qualquer
evidência, a existência de uma suposta “ameaça Russa” ou “agressão
Russa” quando a situação é exatamente a inversa, a Rússia está sofrendo
uma ameaça e uma agressão da OTAN com um cerco crescente em suas
fronteiras. A mídia se esquece também, convenientemente, que houve um
acordo entre Gorbachov e Reagan no qual o governo dos EUA se comprometeu
a não expandir a OTAN para o leste da Europa e acreditando na palavra
do então presidente norte-americano a Rússia extinguiu o Pacto de
Varsóvia e desinvestiu em sua produção bélica, só agora recuperada por
Putin exatamente pela constante ameaça da OTAN a poucos quilômetros de
suas fronteiras, o que equivale, em termos militares e diplomáticos, em
uma agressão. Mas a mídia-empresa, sem qualquer compromisso com a
realidade/verdade, divulga para os incautos exatamente o contrário do
que está acontecendo na Europa Oriental. Esta é a mídia que juntamente
com o judiciário estão promovendo o golpe midiático-judicial em nosso
país.

Responder

Edney

09 de julho de 2016 às 14h04

USP?

Responder

Chico Mendes

08 de julho de 2016 às 21h01

Pinheiro CFC, é de gente como você que eu tenho mais medo. Como pode você ler uma notícia onde o Estado usa ARMAS LETAIS em civis, com dezenas de mortos, feridos e desaparecidos, e tu me argumenta sobre o PT e seus problemas?
Essa insensibilidade é atroz, horrível, desumana… Legitima o que de mais perverso existe no mundo. Os professores são uma categoria (assim como outras) que enfrentam historicamente condições precárias de trabalho… Possuem formação de nível superior e recebem muito abaixo da média para este grau de informação. Me diga, você viu professor matando alguém ao se manifestar?

Vejo o fascismo em alta novamente…. Tempos obscuros estão a caminho

Responder

Pinheiro CFC

08 de julho de 2016 às 18h26

Porque eles não querem privatização.Vai acabar com a mamata? Me diga um sistema público que funciona no Brasil que eu mudo de opinião. Ja era ruim e o governo do PT piorou mais ainda.

Responder

    Gerson

    08 de julho de 2016 às 21h45

    Deixa de ser lobotizado pela mídia…a privatização do ensino público está ocorrendo nas tuas barbas em SP, com o Alckmin fechando milhares de salas de aula e roubando merenda de crianças, no Paraná e em Goiás. Todos “governos” do PSDB. Você quer um sistema público que funciona? Vou te dizer então, na mesma área educacional: Universidades Públicas Federais. Até a USP o governo Alckmin conseguiu depredar. Quer mais um serviço público que funciona? Petrobras, que com todos os problemas que vem ocorrendo no mínimo desde 1990, consegue produziu mais de 2 bilhões de barris diários de petróleo, fruto do trabalho incansável de seus funcionários.

    Responder

      Pinheiro CFC

      11 de julho de 2016 às 09h11

      Eu que sou “lobotizado”. Chega a ser ridículo. A USP sem “foi a USP” . Quanto a Petrobras você esta de brincadeira né? Dois anos consecutivos com deficit BILIONÁRIO (nunca antes na historia) . E porque não lembrou dos Correios também? Estão com rombo gigantescos tendo que recorrer ao BNDS porque nao tem dinheiro pra pagar os SALARIOS.

      Responder

    Robinson Pimentel

    08 de julho de 2016 às 23h48

    Conversinha chula e boba essa sua de dizer mamata e coisa parecida. Mas como a sua opinião é aquela comprada no Rei do Mercado, dificilmente a mudará. Do que adiantaria lhe dizer que, graças àqueles representantes neoliberais que você e sua turma colocaram no poder é que o sistema público está “quebrado” por ação propositada e deliberada deles mesmo, para, exatamente, fazer transparecer sua ineficiência e justificar em todas e quaisquer áreas a privatização? Você não acreditaria. Bom mesmo é o que já está privatizado, como as telefonias, planos de saúde, os bancos privados, universidades privadas. São exemplos de eficiência, né?

    Responder

    renato andretti

    09 de julho de 2016 às 00h35

    se a privada criou vossa excelencia.
    dizer o que?

    Responder

    Renata

    09 de julho de 2016 às 05h16

    pai do céu… na finlândia, noruega, exemplos de democracia antiga, o sistema de educação é praticamente todo público, o ensino público no brasil é constitucional, um direito básico do cidadão e num país com pobreza e desigualdade como o nosso, é absurdo privatizar

    Responder

    Mauro Pinto

    09 de julho de 2016 às 15h31

    Se o ensino público for privatizado aqui no Brasil, o que você acha que vai acontecer com as pessoas não puderem pagar, “jênio”? A nossa sociedade vai melhorar ou piorar?

    Responder

Atreio

08 de julho de 2016 às 18h14

realmente nada disso nos grandes jornais daqui…descaradamente optaram pelo não-jornalismo. o fim deles todos se aproxima a passos largos. ainda bem q jah estamos a construir as alternativas. – after.tv – democraticamente pra todos.

Responder

Deixe um comentário