Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Méritos ao PSOL: entre os perdedores para presidente da câmara, Erundina é a grande vencedora

Por Tadeu Porto

14 de julho de 2016 : 01h14

Por Tadeu Porto* (@tadeuporto), colunista do Blog O Cafezinho

Não sou muito fã das fábulas de Esopo desde que consegui enxergar que “a Cigarra e a Formiga” é um prato cheio para a disseminação de uma falsa meritocracia que, certamente, hoje é argumento crucial de uma direita alucinada que consegue enxergar merecimento em triunfos no jogo de cartas marcadas da desigualdade social.

[Por falar nesses invertebrados, faço aqui uma menção honrosa ao filme Vida de Inseto, da Pixar, que me instigou, ainda adolescente, a conhecer melhor a luta de classes]

Mas hoje, ao ver o dilema vivido pelo Partido dos Trabalhadores na disputa do presidente tampão da câmara dos deputados, não pude deixar de lembrar de “A Lebre e a Tartaruga”, outra fábula do autor grego.

O fato é que, internamente ao certame parlamentar, na corrida principal das esquerdas, o pequeno PSOL angariou mais mentes e corações do que o gigante PT, o que pode render bons frutos na mudança iminente que está para acontecer no cenário da política nacional.

Não julgo o partido do presidente Lula pela posição na eleição da câmara por si só, afinal, votar no menos-pior-com-chances-de-ganhar é uma prática que já utilizei um bocado de vez e, talvez, faria a mesma coisa se fosse deputato (por exemplo, se Marcelo Castro trouxesse algum voto de senadores contra o golpe). Todavia, o pragmatismo é como a Lebre do Esopo  ou O Vencedor dos Los Hermanos: oriundo de uma sede infinita de conquistas, acaba contaminando as tomadas de decisões com a visão imediatista. Desse expediente, infelizmente, o PT abusou algumas vezes, querendo a vitória sem pensar na falta que faz, de vez em quanto, a glória de chorar.

Por outro lado, o Partido Socialismo e Liberdade conseguiu, graças a todo seu histórico de derrotas recheadas de posições coesas, levar o pleito da câmara a um campo ideológico, que não vale nada para os quatrocentos achacadores, entretanto tem ótimo apelo entre a esquerda nacional, espaço de eterna competição entre psolistas e petistas.

Em outras palavras, o PSOL jogou para conquistar as ruas enquanto o PT jogou para ganhar migalhas de um legislativo sem o mínimo de confiança. Claro que no âmbito civil ainda há uma luta ferrenha contra o conservadorismo, mas no âmbito progressista o partido de Jean Wyllys acabou avançando um pouco mais, enquanto a estrela vermelha dormiu no ponto.

É certo que a deputada psolista possui seus próprios vícios pragmáticos, como dividir partido com Heráclito Fortes e Júlio Delgado até outro dia e ter coordenado a campanha da Marina Silva com Neca Setubal, Silas Malafaia, Eduardo Giannetti e demais figuras de direita.

Também é sabido que Erundina lançou sua candidatura a presidência da câmara de olho nas eleições de São Paulo, cidade na qual já foi prefeita, deixando o PT de Haddad, candidato a reeleição, numa posição super delicada.

Mas nada disso tira o mérito do PSOL em poder utilizar essa cartada política – a de se apresentar como uma candidatura genuinamente de esquerda – por ter ficado alheio as barganhas legislativas, escancaradas na gestão Cunha.

E que o PT passe a enxergar que, cada vez mais, a combate político sairá dos limites de Brasília e será travado, com muito mais força, nas ruas e na opinião pública. Consequentemente, êxitos no velho e saturado presidencialismo de coalizão poderão ser tão inúteis quanto gritar “lobos” quando não se tem alguma credibilidade.


P.s. ironicamente ou não, o pragmatismo de Erundina que a aproximou de Marina nas eleições de 2014 pode ter lhe ensinado algo crucial para sua “vitória moral” na eleição da câmara: “é melhor perder ganhando do que ganhar perdendo”.

Tadeu Porto é diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (SindipetroNF)

Tadeu Porto

Colunista do Cafezinho e diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

9 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Ariel santos

16 de julho de 2016 às 03h25

O PT mostrou a maior sacanagem ao apoiar um candidato do PMDB. Não dá pra confiar nesse partido picareta. O mínimo a ser feito era apoiar a Erondina.

Responder

Emnf Matsuri

14 de julho de 2016 às 17h20

Tenho boas lembranças da Erundina. A atuação dela no filme Up – Altas aventuras foi soberba. Que será que foi feito do escoteiro gordinho?

Responder

Rogério Maestri

14 de julho de 2016 às 15h27

O PSOL pulou na frente e lançou a candidatura de Erundina se lixando para o resto, candidaturas simbólicas são meramente simbólicas, duram duas semanas e depois ninguém se lembra mais.

Responder

Carlos Dias

14 de julho de 2016 às 13h31

Bola fora do Tadeu… Vem cá, meu filho, e por que que você não cobra da Errondina que apoie Haddad em Sampa???
Dá um tempo. Viramos saco de pancadas.

Responder

Laura

14 de julho de 2016 às 11h31

Discordo. Se quem votou em Erundina e demais esquerdas tivessem votado em Castro ele teria ido para o 2o turno. E isso importava e MUITO. Acho que Erundina e demais deviam ter RENUNCIADO a suas respectivas candidaturas e ter colocado CASTRO no 2o turno. Tudo teria sido diferente.

Responder

    Anderson

    14 de julho de 2016 às 16h15

    Votar em Castro, do PMDB? O mesmo PMDB do governo ilegítimo de Michel Temer?
    Não força a barra, por favor!

    Responder

Antonio Passos

14 de julho de 2016 às 11h30

O PT se tornou o “patinho feio” para o colunismo “purista”. Não sei porque, isto me remete a junho de 2013. Eu gostaria de saber como votou o PSOL durante estes 13 anos do PT. O que fez o PSOL para ajudar a tirar 40 milhões da miséria. O que fez o PSOL para denunciar a farsa do mensalão. O que fez o PSOL para denunciar o GOLPE desde a sua origem e não agora que está se consumando. É muito fácil ser “purinho”, difícil e chegar ao poder e mudar o Brasil.

Responder

    Jst

    14 de julho de 2016 às 13h31

    O PSOL apoiou as tais manifestações de 2013 que foram o ovo da serpente de tudo que está acontecendo agora. A nossa desgraça começou lá, com o apoio do PSOL.

    Responder

    Ana Maria Schirmer

    15 de julho de 2016 às 15h10

    O Psol me parece um anao com complexo de gigante.

    Responder

Deixe um comentário