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As Primárias Cidadãs do PS na França servem de exemplo para a esquerda brasileira?

Por Theo Rodrigues

14 de janeiro de 2017 : 11h41

Por Theo Rodrigues, colunista do Cafezinho

 

Na noite da última quinta-feira, a centro-esquerda francesa assistiu ao primeiro debate das primárias que escolherão o candidato presidencial do Partido Socialista.

Sete pré-candidatos disputam a indicação: Manuel Valls, ex-primeiro-ministro; Vincent Peillon, ex-ministro da Educação; Arnaud Montebourg, ex-ministro da Economia; Benoît Hamon, sucessor de Peillon na Educação; Sylvia Pinel (Partido de Esquerda Radical); François de Rugy (Os Verdes); e Jean-Luc Bennahmias (Frente Democrática).  Os quatro primeiros são quadros do próprio PS. Os três últimos vêm de outras formações.

A consulta democrática se dá num momento em que o PS está fragilizado: a impopularidade do governo socialista fez com que o presidente François Hollande sequer tentasse a reeleição.

Além da fragilidade do PS, outro problema aflige a esquerda francesa: a falta de unidade. Além dos sete pré-candidatos que disputam a indicação socialista, a Front de Gauche, da qual faz parte o PCF, já anunciou que lançará Jean-Luc Mélenchon.

O primeiro turno das primárias acontecerá em 22 de janeiro e o segundo turno na semana seguinte, no dia 29. O vencedor disputará a eleição presidencial de abril contra a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, e o candidato da centro-direita, François Fillon.

Olhar para esse cenário francês suscita a seguinte pergunta: a experiência das Primárias Cidadãs pode servir de exemplo para a também fragilizada esquerda brasileira?

Desde o fim do ano passado, vem ganhando corpo no Brasil a ideia da realização, no início do ano que vem, de prévias para a escolha de um programa e de um candidato único do campo progressista para a eleição de outubro de 2018.

O movimento tem sido animado por intelectuais como a economista Laura Carvalho e o filósofo Marcos Nobre, entre tantos outros.

O obstáculo que os defensores das prévias enfrentam é o açodamento das decisões unilaterais de alguns partidos. Enquanto petistas dizem não abrir mão da candidatura de Lula, por exemplo, pedetistas estão convencidos de que Ciro Gomes tem que ser candidato de qualquer maneira. Marina Silva e sua REDE também dificilmente toparão aceitar um resultado das prévias que não seja o que consagre seu nome. Já o PSOL, é conhecido por não ceder a alianças para além do pequeno PCB.

Ressalte-se: a falta de unidade não é um privilégio da esquerda brasileira. Também na França faltou unidade. O ideal seria que Mélenchon disputasse as Primárias Cidadãs. Provavelmente vencerias se disputasse. Mas entre o ideal e o real há um abismo…

Independente desses empecilhos, há no experimentalismo político uma máxima: é preciso seguir aprendendo com os erros e os corrigindo ao longo do tempo.

Ainda que as prévias no Brasil não alcancem as expectativas idealistas em 2018, será um aprendizado pedagógico para a unidade da esquerda no médio e longo prazo.

Theo Rodrigues

Theo Rodrigues é sociólogo e cientista político.

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9 comentários

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Olavo

28 de janeiro de 2017 às 16h44

Interessante.

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Tiago Maximiliano Bevilaqua

15 de janeiro de 2017 às 08h59

É preciso enfatizar que o debate tem de ser em torno de um programa e não apenas de um nome

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Tiago Maximiliano Bevilaqua

15 de janeiro de 2017 às 08h57

Pôr Marina Silva como sendo de esquerda é alargar em demasia o sentido de ser de esquerda.

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Zuleica Nascimento

15 de janeiro de 2017 às 00h38

Não existe em lugar algum dos mundo união de “esquerdas” em nome de tal ou qual candidato. Essa é uma questão que merece ser devidamente estudada. Não dá para creditar a dificuldade apenas ao sectarismo de uns e outros.
Na minha visão, há o seguinte componente: a direita só tem um propósito, e todo sabemos qual é.
Já na esquerda, que objetiva, em princípio, a melhoria da sociedade, o bem estar do povo, há inúmeras divergências sobre o caminho que deve (e pode) levar a esse objetivo. Cada partido, cada grupo, acredita que tem nas mãos a receita perfeita, e que só existe uma maneira de se alcançar o propósito de revolucionar as estruturas da sociedade.
Há os comunistas, os socialistas, os social democratas, os que não são nada disso, e o Psol, que não sabe o que é.
É muito complicado mesmo essa tal de “união das esquerdas”.

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André Luiz de Castilho Fonseca

14 de janeiro de 2017 às 20h59

As prévias representam uma experiência muito limitada, do ponto de vista democrático, em relação ao que já foi o PT. O PT só se tornou o que foi e, em certa medida ainda é, porque foi, muito provavelmente, a experiência institucional mais radicalmente democrática de nossa história.

O PT se organizava com base nos núcleos que se auto-instituíam com muita liberdade, com poucas regras para sua formalização como instância partidária. Criou-se por todo o pais uma rede capilarizada de militantes organizados em núcleos de bairro, de categoria, por movimento social e que se constituíam, de fato, na base do poder decisório do partido. As grandes definições partidárias eram firmado nos congressos – de municipais à nacionais – com delegados que vinham eleitos desde a base. As convenções partidárias legalmente determinadas apenas referendavam o que fora decidido nos congressos. O PT se confundia então com os próprios movimentos sociais porque, em geral, era muito mais democrático do que as demais entidades e instituições que também representavam esses movimentos.

Quando a expressão eleitoral do PT foi se ampliando com base em sua crescente força política, estabeleceu-se uma tensão crescente entre o poder político e, sobretudo, econômico, dos mandatos e o poder decisório dos núcleos de base. Esta tensão explodiu em meados dos anos 90 e foi decidida pelo sacrifício da democracia interna. Os núcleos perderam o poder e, por isso mesmo, deixaram de existir. O PT manteve ainda a sua capacidade de polarizar a luta de classes no Brasil, mas com uma força evidenteme decrescente, até a crise atual.

O PSOL demonstrou que não entendeu nada do que estava acontecendo ao não propor, na sua constituição, o resgate deste legado democrático do PT. A sua ruptura foi ‘programática’ e superficial. Se o PT e a esquerda não se reconstruírem em bases radicalmente democráticas, continuaremos a ser fragorosamente derrotados pela direita. Mais do que a realização de prévias, o PT precisa recuperar a força radicalmente democrática do seu Estatuto original.

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Rodrigo N. Matsui

14 de janeiro de 2017 às 17h06

De bom grado, acho que só o Ciro aceitaria estas prévias. Marina e Lula estão confortáveis com seus índices nas pesquisas eleitorais e acho que não se animam a debater com Ciro Gomes. Perderiam feio.

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Rodrigo N. Matsui

14 de janeiro de 2017 às 16h25

Com certeza as prévias viriam em ótima hora, estaríamos discutindo alternativas para o país, colocando o contraponto às políticas antidemocráticas do governo golpista, que estão passando sem forte oposição, amadurecendo um programa de governo popular progressista e identificando os candidatos melhor preparados para nos representar.

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Pauline Park Park

14 de janeiro de 2017 às 14h00

A FRANÇA NÃO TEM MAIS EXEMPLO NEM PRA ELA MESMA! ISSO É LOROTA!

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Jorge Rodrigues

14 de janeiro de 2017 às 13h47

0peração Cui Bono: Crimes de Geddel : Corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Geddel já ta preso? Ah, não. Ele é amigo de Temer que é amigo de Aecio que tem um caso com o Moro.

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