STF discute prisão em 2ª instância

Na contramarcha da insensatez, para mudar o PT

Por Redação

24 de janeiro de 2017 : 11h24

Por Jeferson Miola, enviado ao Cafezinho

“O pensamento racional claramente aconselhava os troianos a suspeitarem de um ardil quando acordaram verificando que todo o exército grego desaparecera, deixando apenas estranho e monstruoso prodígio à frente das muralhas da cidade. O procedimento racional deveria ter sido, ao menos, examinar o cavalo em busca de inimigos, tal como foram veementemente aconselhados por Cápis o Velho, Laocoonte e Cassandra. Essa alternativa esteve presente e bem viável, mas foi posta de lado em favor da autodestruição”.

Barbara Tuchman, A marcha da insensatez.

Em A marcha da insensatez, a historiadora norte-americana Bárbara Tuchman estuda o paradoxo que leva governos, políticos e dirigentes a produzirem políticas contraproducentes, que contrariam seus próprios interesses e objetivos estratégicos.

Num percurso que cobre o período da história de 850 a.C. aos anos 1970 do século 20, Tuchman analisa quatro acontecimentos históricos para corroborar sua tese – guerra de Tróia, cisão da Igreja Católica na Idade Média, independência dos EUA e guerra do Vietnã.

A insensatez – ou loucura política, como ela define – é um fenômeno que não somente leva a resultados contrários aos desejados pelos líderes, mas conduz a erros e derrotas estrondosas.

A autora qualifica insensatez como a incapacidade [1] de se entender corretamente a realidade no momento concreto em que se vive ela [e não retroativamente, como fazem os profetas de eventos passados], e [2] de se encontrar, no tempo real dos acontecimentos, as alternativas viáveis à realidade adversa.

À luz do critério de Tuchman, a resolução do diretório nacional do PT que autoriza a aliança com os golpistas na eleição das presidências da Câmara e do Senado para assegurar espaço institucional [que já é garantido pela Constituição!], é sintoma da insensatez – da loucura política – que domina a direção do Partido.

Esta escolha da maioria dirigente do PT não reflete a política necessária nesta etapa da luta de classes aberta com o golpe de Estado; e, além disso, fica em frontal dissintonia com o sentimento de mudança reclamado pelos filiados, militantes e simpatizantes partidários.

É uma posição ingênua e nada inteligente. Independentemente do espaço que o PT ocupe no Congresso, a mesma maioria golpista que perpetrou o golpe com a fraude do impeachment da Presidente Dilma dará continuidade à agenda legislativa do ajuste ultra-neoliberal, dos retrocessos sociais e da alienação da soberania nacional.

Mesmo ocupando a vice-presidência e a quarta secretaria do Senado, por exemplo, o PT não conseguiu impedir a tramitação e aprovação do impeachment fraudulento e das inúmeras medidas anti-populares e anti-nacionais propostas pelo governo golpista.

As reformas trabalhista e previdenciária, que revogam conquistas civilizatórias e fazem o Brasil retroagir ao período da escravidão nas relações de trabalho, serão votadas com o PT ocupando – ou não – espaços no Congresso. Somente a ampla pressão popular será capaz de deter este e outros ataques contra a classe trabalhadora e a maioria do povo brasileiro.

As bancadas de deputados e senadores do PT não podem seguir a insensatez da maioria dirigente. Isso abriria uma fissura profunda na relação com a base social, com a militância partidária e com a resistência democrática e popular que está nas ruas, nas praças, nas escolas e nos botecos; resistência essa que não transige e não aceita a conciliação com golpistas fascistas.

O processo do golpe, a dinâmica da luta de classes e o massacre criminoso do condomínio jurídico-midiático-policial evidenciaram a falência e os limites da direção do PT, que esteve aquém das complexas exigências do período.

É enorme a expectativa de que o PT mude, se renove e atualize suas políticas e estratégias para continuar sendo uma esperança transformadora e de emancipação do povo subalterno. Para mudar, porém, o PT tem de andar na contramarcha da insensatez e não reprisar os mesmos erros que o levaram a este que é o pior momento da sua existência – “a política fundada em erros multiplica-se, jamais regride” [Tuchman].

Na visão da autora da Marcha da insensatez, “a paralisação mental ou estagnação – a manutenção intacta pelos governantes e estrategistas políticos das idéias com que começaram – é terreno fértil para a insensatez. Montezuma se constitui em exemplo fatal e trágico”. Vale lembrar: Montezuma, imperador asteca, cometeu a insensatez de confiar ingenuamente no colonizador-dominador espanhol Hernán Cortés; ingenuidade que deu início ao fim do impressionante império asteca.

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12 comentários

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Elias Heleno Bezerra

25 de janeiro de 2017 às 13h20

É lamentável, é imundo, é nojento, o que vemos nas atitudes deliberativas dessa direção do Partido dos Trabalhadores. Vemos claramente a subserviência da atual direção á elite imbecil, financiadora do golpe. Vemos clara e incontestavelmente o Lula, manter-se na teimosia da conciliação de classes. Perdemos nosso partido, não temos mais o que esperar.

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Dilma Coelho

24 de janeiro de 2017 às 20h28

Olá.
Se LULA quer salvar o PT e a democracia, precisa estabelecer um critério de ética e honestidade, não aceitando que o partido apoie os candidatos golpistas do congresso. Terem ajudado a eleger o canalha e golpista do maia já foi demais, agora voltar a repetir o erro não dá para aceitar.
Quem tomar esta atitude será tão golpista e corrupto quanto a quadrilha do mordomo ladrão. Depois do golpe contra Dilma Rousseff, a democracia e o PT, não faz qualquer sentido aliar-se às forças que promoveram este mesmo golpe. Devem ser expulsos do partido. Espero que o LULA tenha moral para fazer isto. Não somos tolos.
https://www.youtube.com/watch?v=gCbGOn-ohpM

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    Vitor

    25 de janeiro de 2017 às 09h46

    Com que moral Lula vai expulsar alguém que está do lado dele? Vc acha q esse movimento do PT não tem o aval de Lula? Por favor, menos ingenuidade…
    Se quer expulsar quem se alia a golpistas, comece pelo ex-presidente…

    Responder

Marcos Antonio da Silva

24 de janeiro de 2017 às 17h16

Concordo plenamente. Atitudes como essa, regride o ideário do Partido, já muito mutilado; trará repúdio da sua militância e dos movimentos sociais democráticos-populares que lutam por direitos, coerência, mudanças e transformações.
Se assim, realizar, o discurso contra o golpe perde seu caráter. Que o Partido, seus dirigentes sejam um e outro, ou seja que o Partido seja Partido e os dirigentes, dirigentes. A que e a quem interessa essa resolução de cordeiros ?
A história não vai acaber e está de olho. Nós também. Militante do movimento popular. Goiânia-GO.

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Hamilton Magalhães Neto

24 de janeiro de 2017 às 16h52

Algum jornalista teve já a sensatez de entrevistar esses dirigentes?

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Valter V. Teixeira

24 de janeiro de 2017 às 16h27

Fica difícil entender essa atitude da maioria do partido.Estou sem rumo!!!Caso se concretize, rasgarei meu título pois na próxima eleição já serei septagenário!!!

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Avian

24 de janeiro de 2017 às 15h32

Marquem minhas palavras: quando o PT beijar a mão dos golpistas em troca de cargos e poder, veículos como esse, o DCM, o Brasil 24/7, Pragmatismo Político e Tijolaço estarão dando amém e concordando com a estratégia.

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    Vitor

    24 de janeiro de 2017 às 19h12

    Claro que estarão. E ainda vão fingir indignação quando a reforma da previdência for aprovada, mas no fundo estarão dando graças a Deus, pois vira bandeira nas eleições…

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Maria Libia

24 de janeiro de 2017 às 12h40

Desde que começou a perseguição e destituição da Dilma, o traidor principal, não foi o temer, nem o psdb, foi toda a direcção, do covarde e pulha rui falcao a maioria dos senadores e deputados. Esses amaldiçoados petista são os que destruirao o Partido dos Trabalhadores. Eles são psdebistas enrustidos. Se venderam VERGONHOSAMENTE.

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    Vitor

    24 de janeiro de 2017 às 19h15

    Esteja certa que ninguém faz nada dessa relevância sem o aval de Lula. Isso é política, cara Maria. Se vc acha que são psdebistas enrustidos, acha que o PT é comandado por tucanos…
    Aliás, vc acha que o PT está torcendo para que caia o número de desempregados ou que não aprovem a reforma da previdência ou está torcendo para ter bandeiras e mais bandeiras em 2018?

    Responder

Marcelo Silva

24 de janeiro de 2017 às 11h41

“Duas almas, oh! moram dentro do meu peito,
E aí lutam por um indivisível reino;
Uma aspira pela terra, com vontade apaixonada
Às íntimas entranhas ainda está ligada.
Acima das névoas, a outro aspira, de certeza,
Com ardor sagrado por esferas onde reine a pureza”

Goethe

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Vitor

24 de janeiro de 2017 às 11h27

C-A-R-G-O-S

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