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Sob tortura, casal Santana aceita mentir à Lava Jato

Por Miguel do Rosário

12 de maio de 2017 : 17h00

Mais uma vez eu apelo ao historiador futuro.

Não tenho muitas esperanças na “opinião pública” brasileira. Ela está exposta demais ao massacre diário de distorções, para poder se defender e se posicionar de maneira serena e desapaixonada sobre os fatos.

Mas o tempo da política é dinâmico. As paixões irão se arrefecer, e as mentiras de hoje, marteladas como verdades irrefutáveis pelos donos do poder, e defendidas com uma violência simbólica da qual é muito difícil escapar, serão todas desmascaradas em seu devido tempo, ou então perderão a maior parte de sua força.

A “delação” de João Santana e Mônica Moura é mais um capítulo da Inquisição brasileira, conforme denunciou um dos maiores juristas do mundo, Luigi Ferrajoli* (prezados advogados do Lula, leiam nota ao final do post). O conjunto de informações, que alguns dizer ser “demolidor” para Dilma ou Lula, pode ser divididos em três partes: uma delas são fofocas, uma outra são mentiras, uma terceira são cretinices.

Comecemos pelas cretinices: a questão epistemológica do “eu sabia”. Esse é o tipo de acusação típica do fanatismo de burocratas que não apenas desconhecem a dinâmica das campanhas políticas, como parecem odiar a política. O mais honesto secretário de segurança de um estado também “sabe” que há corrupção policial, e se ele for diligente, fará de tudo para combatê-la, mas isso não significa que ele seja corrupto. O fato de saber, da mesma forma, não o fará abandonar o seu cargo, nem dar entrevistas diárias para esculhambar a polícia chamando-a de corrupta. Também não poderá dar início a procedimentos disciplinares que fujam às regras democráticas, sob o risco de paralisar a polícia e perder o seu próprio cargo, e não resolver em nada o problema da corrupção.

Caixa 2 é um problema, além disso, vinculado a falhas intrínsecas à legislação eleitoral. O professor Wanderley Guilherme dos Santos explica isso em seu último livro. O TSE autoriza a coligação de campanha, permite que partidos cedam seu tempo de tv para outros, mas bloqueia o compartilhamento financeiro de recursos. Não adianta vir de mimimi de promotor público, dizendo que não pode e não pode. A legislação é falha, e tem de ser modificada, porque a necessidade política sempre falará mais alto.

De qualquer forma, é uma acusação, além de cretina, idiota, porque emprenhada de subjetivismo.

A segunda parte das delações são fofocas ou a transformação de coisas insignificantes em atos criminosos. A questão de comunicação, por exemplo. A Lava Jato cria toda uma atmosfera de terrorismo, vazando conversas íntimas de qualquer um, fazendo com que todos se sintam inseguros acerca da comunicação de fatos sensíveis, e depois criminaliza a pessoa que tenta se comunicar sem ser espionada?

Ora, uma campanha eleitoral é cheia de segredos! As estratégias de campanha são obviamente ultrassigilosas! É óbvio que o candidato e seus marketeiros adotarão cuidados para se comunicar sem ser espionados por seus adversários!

A campanha nos EUA mostrou bem isso. Uma liderança do partido democrata, e a própria Hillaty Clinton, tiveram seus emails vazados. Os democratas depois culparam os “russos”, tentaram criar uma ridícula e anacrônica comoção nacionalóide dos americanos.

A terceira parte das delações são mentiras. João Santana era o marketeiro mais requisitado da América Latina. Taí outro crime da Lava Jato. Ela criminaliza o talento. Deixando o moralismo de lado, já que o moralismo não tem nada a ver com o capitalismo internacional, a riqueza das nações depende do talento de seus empresários, que pagam marketeiros políticos para ajudarem nas campanhas eleitorais de outros países. É o que os EUA sempre fizeram, no mundo inteiro. No Brasil, a gente prende o nosso melhor marketeiro, que conseguiu vitórias em vários países da América Central e África, para benefício de empresas brasileiras que tinham interesse nessas vitórias.

Quando foi preso, ou antes mesmo, João Santana e esposa explicaram que as contas no exterior que possuíam, eram para receber pagamentos de campanhas eleitorais que faziam em outros países. Era o lógico. Santana recebeu, em caixa 1, com as devidas notas fiscais, mais de R$ 60 milhões da campanha de Dilma Rousseff. A troco de que iria arriscar um negócio desse vulto com caixa 2?

E aí entra o método da Lava Jato. Seus procuradores, com anuência judicial, torturaram o casal Santana com ameaças de prisão perpétua, aplicaram-lhes a maior fiança quiçá já cobrada na história do Brasil a um cidadão, mais de R$ 30 milhões, que correspondia, aparentemente, a quase totalidade do dinheiro que o casal havia acumulado, em 30 anos de trabalho, e deixaram bem claro: prisão perpétua, aos moldes da aplicada em Marcos Valério, em Dirceu, etc, ou “confessar” exatamente o que os procuradores queriam ouvir, a saber, entrar no jogo sujo do golpe, e acusar Dilma, Lula e o PT.

Nenhuma “delação” se assemelha tantos aos processos de Moscou como essa de João Santana e esposa.

________________

* Prezados advogados do presidente Lula. O vídeo com o depoimento de Ferrajoli está com legendas erradas. Eu sei italiano. Já morei alguns meses na Itália, onde inclusive tive o privilégio de ler a íntegra do Inferno, de Dante, no original. Onde ele fala “Inquisizione”, Inquisição, vocês traduziram, sabe-se lá porque, para Impedimento. Impedimento, em italiano, é a mesma coisa que em português e se pronuncia da mesma forma. Confiram no minuto 4:19, do vídeo abaixo, e confiram que ele fala “Inquisizione”. Me parece evidente que o impacto da denúncia de Ferrajoli perde muita força por causa desse lamentável erro de tradução. Favor, refaçam essas legendas, porque esse depoimento tem um valor histórico imenso!

****
PS: Leiam ainda a defesa de Dilma.

http://dilma.com.br/as-mentirosas-afirmacoes-de-joao-santana-e-monica-moura/

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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14 comentários

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Sérgio

12 de maio de 2017 às 22h12

A tortura fez muito bem a Mõnica Moura. Ela emagreceu, alisou os cabelos, ficou mais bonita e mais alegre. Bendita tortura !

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    Ernani viana

    13 de maio de 2017 às 08h32

    Ela fez diversos procedimentos cirúrgicos na face!!!!!

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Fábio

12 de maio de 2017 às 19h42

Nunca vi uma torturada tão alegre , bem disposta e contente por delatar a Vaca Sapiens e Lulaladrão ! kkkkkkkkkkkkkkkkkk

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Reginaldo Gomes

12 de maio de 2017 às 19h31

Indecente é esse casal marqueteiro. Tem atenuante porque delatou sob tortura. Todo delator é indecente, miserável, delatou amigos de décadas.

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Evandro campelo

12 de maio de 2017 às 18h25

Vão querer prender Lula, De todo o jeito!

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    Fábio

    12 de maio de 2017 às 19h45

    Mas não é o normal, querer prender corruptos e ladrões de qualquer jeito ??

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WESLEY ADRIANO PINHEIRO

12 de maio de 2017 às 18h25

agora o PALOCCI resolveu delatar, segurem-seeee . Até quando voces vao acreditar no Lula ? O cafageste que quer botar a culpa na coitada da esposa falecida, defender ideologia é uma coisa agora defender canalha covarde é outra, gente PELO AMOR….

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    Miguel do Rosário

    12 de maio de 2017 às 18h37

    Wesley, qualquer jurista decente sabe que esse processo é bizarro. A Lava Jato é uma bizarria jurídica. Baseada em mentiras, delações forjadas e distorções. Não se trata de acreditar no Lula.

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      Matheus Graca

      12 de maio de 2017 às 19h17

      Você é um pateta.. A Lava Jato está abrindo as caixas pretas da corrupção.. vai pegar o PT , o Lula e depois os outros corruptos…
      Quem é contra ela é a favor do crime!

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        Miguel do Rosário

        12 de maio de 2017 às 19h22

        O Luigi Ferrajoli, maior jurista do mundo, defende bandidos também?

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          Fábio

          12 de maio de 2017 às 19h40

          Maior jurista do mundo ? Assim como há concurso para Miss Mundo, também há o concurso para Miss Jurista e eu nem sabia. Patético , como sempre , esse Miguel: “Maior jurista do mundo”, quanta patetice !

    Galvão

    12 de maio de 2017 às 18h51

    Deixa de ser filho da puta. O que ele falou da D. Marisa está no processo há mais de um ano. Os advogados do Lula já desmascarou a mentira.

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WESLEY ADRIANO PINHEIRO

12 de maio de 2017 às 18h16

Uma coisa é ter opção politica e tal.. isso esta correto. Agora, ser ignorante é outra. Se o delator mentir ele sera PUNIDO POR MENTIR, delação não é brincadeira que voce pode inventar o que quiser… Só falta o Lula dizer agora que nao conhecia Joao Santana, ou que quem fazia os contatos era a coitada da Dn Marisa.
Gente O CARA QUER POR A CULPA NA ESPOSA FALECIDA, isso é o mais nojento de todos os crimes, defender ideologia é uma coisa , agora defender canalha…

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    Miguel do Rosário

    12 de maio de 2017 às 19h23

    Wesley, não fale bobagem. Os caras contam qq lorota e já saem livres. O importante aqui é o Lawfare

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