Cafezinho 5 minutos: o conceito de autocrítica

Sobre a necessidade de ser contemporâneo

Por Ramon Brandão

12 de novembro de 2018 : 11h28

Giorgio Agamben, filósofo italiano, pergunta em Nudez[1] “de quem e de que somos contemporâneos?”. “O que significa ser contemporâneo?”.

“O contemporâneo é o intempestivo”, nos diria outro filósofo – Roland Barthes. Antes dele, Nietzsche (também filósofo) disse: o intempestivo “procura [formas de] compreender um mal, um inconveniente, um defeito, alguma coisa da qual a época justamente se orgulha”.

Nietzsche afirma essa sua contemporaneidade diante do presente, se posiciona nele com discordância e desconexão pois crê que somente é verdadeiramente contemporâneo, que só pertence verdadeiramente ao seu tempo, aquele que não coincide perfeitamente com suas normas, com seus dogmas e com suas exigências. É exatamente através da diferença, da separação e, por vezes, através da própria exclusão que o verdadeiro contemporâneo é capaz, mais do que os outros, de perceber, processar e apreender a sua época.

Evidentemente o contemporâneo não vive em outro tempo. Ele está aqui, agora, entre nós. Homens e mulheres inteligentes podem até odiar seu tempo, mas sabem que a ele pertencem, irrevogavelmente. A diferença entre o contemporâneo e os demais é que o primeiro trava uma relação singular com o tempo, mais intensa, relação que se adere ao presente ao mesmo tempo em que dele toma distância.

Os demais coincidem exageradamente com sua época, as vezes até mesmo desejando-a; se ligam a ela – e se esforçam para tanto – em todos os aspectos e, exatamente por isso, não podem ser considerados contemporâneos. São incapazes, por tais razões, de visualizar a materialidade do real, de manter nele o seu olhar fixo. Eles – esses escravos do presente – vivem para as distrações enquanto o contemporâneo, por sua vez, vive não para experimentar as luzes, mas para perceber e observar a escuridão, essa parte ainda inexplorada – mas iminente, inevitável.

O contemporâneo é como o farol marítimo, é aquele que observa, é o primeiro a observar a chegada da tormenta. É aquele que se arrisca nas veredas do obscuro e, por isso, o único capaz de falar algo.

O contemporâneo é o menos passivo dos indivíduos. Ele não se deixa cegar pelas luzes do seu tempo. Antes, visualiza com clareza a parte das sombras, essa íntima obscuridade que sempre esteve presente, assombrando todas as épocas da história.

Esse contemporâneo, assim, consegue perceber e reconhecer a escuridão como algo que lhe diz respeito, como algo que o interpela, como alguma coisa que, mais do que qualquer luz, se dirige direta e singularmente a ele mesmo. Em outras palavras, o contemporâneo é aquele que recebe “diretamente no rosto o facho de trevas que provém do seu tempo”.

O contemporâneo, ademais, é raro. É o único capaz não somente de manter fixo o seu olhar nas sombras do real, mas também de perceber nessa escuridão uma luz que, dirigida para nossa direção, afasta-se infinitamente de nós. O contemporâneo é corajoso pois assume um compromisso do qual só pode faltar. Por isso sofre.

O presente, percebe o contemporâneo, está com suas vértebras quebradas. Isso faz dele, do próprio presente, o mais distante dos tempos. Somente este sujeito o percebe; isso pois somente ele habita essa fratura. Ele é a própria intempestividade, o anacronismo que nos permite apreender o tempo. Somente ele é capaz de reconhecer nas trevas uma luz que, sem nunca poder nos alcançar, viaja permanentemente em nossa direção.

Estar, digamos, em “estado de contemporaneidade”, implica comportar um certo desvio onde a atualidade inclui dentro se si uma pequena parte do seu fora. Ele antecipa o seu tempo, vislumbra o “ainda não” insuperável. A separação e o distanciamento operando ao mesmo tempo com a proximidade – esse paradoxo dialético, portanto – são o que a define. O presente é o limiar entre um passado recente e um porvir. É um ponto de passagem quântico. É precisamente a parte do não vivido que está contida em todo o vivido. É o ponto que comporta os dois tempos.

Para ser contemporâneo é preciso se atentar a essa parte não vivida da vida, é preciso voltar-se para um presente que jamais foi habitado. É, por fim, colocar em ação uma relação especial e singular entre os tempos. O lugar que o contemporâneo habita faz da fratura não o lugar onde a pulsão de morte prevalece, mas o lugar de um compromisso ético absoluto entre as gerações.

Isso significa que o contemporâneo não é somente aquele que, “percebendo a escuridão do presente, apreende sua luz inalienável”, mas é também aquele que, “dividindo e interpelando o tempo, é capaz de transformá-lo, de nele ler de modo inédito a história”. A contemporaneidade clama por contemporâneos.

[1] Editora Autêntica, 2014.

Ramon Brandão

Ramon Brandão é graduado e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo e doutorando em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Goiás

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8 comentários

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Rosângela Dias

13 de novembro de 2018 às 18h57

Sabe quando é que constatamos que algo é bem feito (infelizmente, pois não deveria ser assim)? Quando essa gente, tipo a Dulce (que certamente é um perfil falso), aparece para vomitar inveja. Trabalhar bem, ser bom no que faz, sempre incomoda! Parabéns, Ramon. Seu texto é incrível. Sua filosofia é URGENTE no nosso tempo! Esperamos o próximo!

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fatima costa

13 de novembro de 2018 às 15h35

que figura torta é essa Dulce Tenebrino. se é que e não é um perfil falso. e invejosa e ressentida.
muito bom o seu texto. trabalho essa mesma temática

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Dulce Tenebrino

12 de novembro de 2018 às 22h22

Ramon, me desculpe, li o seu texto e, cá prá nós, achei chato pra caralho. Que história é essa de ser contemporâneo? Isso me parece uma baboseira persistente e gosmenta. Olha, por que não ser extemporâneo? Ou simplesmente… desatualizado? É muito chato ler, pela enésima vez, uma variação do tema “ser moderno”. Você escreveu uma crônica escolar, uma redação do primário, só que de nível, com posso dizer?, vou dizer assim: de nível de aperfeiçoamento. Um primário aperfeiçoado. Poderia ser um gênio do EJA. Repete comigo: gênio do EJA. Sei que é difícil, mas você pode treinar e até conseguir. EJA é educação para jovens e adultos. Então observe: você pôs aí um texto monótono como e entediante como o Brasil de hoje. Não sei se você é dado a ter pensamentos. Vamos supor que seja. Você já percebeu que tanto o Bolsonaro quanto o Huck se enquadram na sua noção de “ser contemporâneo”? Sei que por mais que você bata asas nunca vai levantar dois palmos do chão. Sei disso. Mas não posso enganar você, nem me enganar com você. Tente arrumar uma profissão manual, digitador, acrobata de semáforo, ou anotador do jogo do bicho. Vai ser melhor. Pense nisso.

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    Nostradamus ( psiquiatra )

    13 de novembro de 2018 às 17h46

    Esta linguagem… bem reveladora… ” achei chato pra c… ” … Vai ser macho guria!!! Deixa de ser frustrada, mal amada, mal resolvida, tamancão fora de moda, vai na praia desbeiçolada! Arruma alguém para namorar! Ah!… ninguém te atura… bem…

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Paulo

12 de novembro de 2018 às 18h19

Bom texto. Mas suscita duas indagações, uma decorrente da outra: se todos fôssemos contemporâneos, como exorta o título, não haveria mais contemporâneos? Seria, então, essa exortação, um apelo autodestrutivo do autor?

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Nostradamus ( poltrona & livros )

12 de novembro de 2018 às 16h51

Muito bom mesmo.
Quanto ao sermos contemporâneos… com tantos interditos que se avizinham, com tantas sombras que se sobrepõem, com tantas milícias e paramilitares por toda a nação a luz no fundo do túnel mais parece as condições das fornalhas dos campos de concentração…há um século atrás! É quando receio que a historia pode nem sempre ser uma farsa!

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    Nostradamus

    12 de novembro de 2018 às 18h38

    … a repetição da história pode nem sempre ser uma farsa… ( mais precisamente é o que queria dizer )

    Responder

Roger Nascimento

12 de novembro de 2018 às 15h17

Muito bom! Sejamos contemporâneos!!!!

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