Economistas discutem a desindustrialização no Brasil

Morceiro: Brasil atrasado na inovação tecnológica

Por Redação

25 de junho de 2019 : 12h17

O Valor de hoje deu capa para as ideias de um economia que o Cafezinho vem divulgando há um tempo, o Paulo Morceiro.

Essas ideias são fundamentais para os nossos debates em torno de um projeto nacional de desenvolvimento, que eu gostaria que fosse o eixo central dos debates no blog.

Trechos da matéria do Valor:

(…)”O país está distante na pesquisa e desenvolvimento, seja nos segmentos de alta, seja nos de baixa intensidade tecnológica”, diz Morceiro, cujo trabalho se baseia em informações da Pesquisa de Inovação (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e de dados colhidos via Lei de Acesso à Informação sobre os recursos investidos por organizações públicas como Embrapa, Fiocruz e institutos da Marinha e da Aeronáutica. O trabalho foi feito em parceria com Milene Tessarin, pesquisadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

No mundo, o “filé mignon” do desenvolvimento tecnológico é realizado por apenas 13 setores dos grupos de alta e média-alta tecnologia, que reúnem a produção de aviões, desenvolvimento de sistemas (softwares), produtos farmacêuticos, informática e eletrônicos, armas e munições, automóveis, máquinas e equipamentos, químicos, serviços de informação, entre outros. Deles, dez pertencem à indústria, e três, aos serviços.

No Brasil, os segmentos que mais investem em P&D – como o de fabricação de aviões e o farmacêutico – são os mesmos da OCDE. As diferenças são a magnitude e a origem do investimento. Enquanto no caso brasileiro, a maior parte (60%) do aporte é feita pelo Estado por meio das universidades públicas, autarquias e institutos de pesquisa, no grupo dos países mais ricos, cerca de 75% dos investimentos têm origem no setor privado. Os países da OCDE respondem por cerca de 80% da pesquisa e desenvolvimento no mundo.

Fora do grupo, o país mais relevante na área é a China. Olhando apenas para os segmentos de alta intensidade tecnológica, os países da OCDE investem em P&D 24% do valor adicionado bruto em equipamentos de informática, eletrônicos e óticos, enquanto no Brasil essa parcela é de 10%. Em produtos farmacêuticos, a OCDE chega a 28%, contra 5% no Brasil. Em outros equipamentos de transporte, que inclui a produção de aviões e a construção naval, o percentual do bloco é de 20%, quase o dobro do brasileiro (10,7%). É ali que está classificada a Embraer, por exemplo.

No segmento de desenvolvimento de softwares, classificado em serviços, a diferença é gigantesca, com uma parcela de 29% do valor adicionado bruto do setor investida em P&D na média das nações da OCDE, para apenas 4,5% no Brasil. “Este é o segmento em que o país deveria estar caminhando mais. Ali está o núcleo da transformação tecnológica do mundo e da quarta revolução industrial”, diz Morceiro.

No mundo, é onde entram Microsoft, Oracle, Alphabet (Google) e SAP, observa o pesquisador.Classificado como de média-alta tecnologia, o segmento de veículos automotores e autopeças, que no Brasil tem grande peso econômico, investe 6% de seu valor adicionado bruto em P&D no Brasil, contra 15,4% na média da OCDE. “No Brasil há um predomínio de empresas internacionais que ‘tropicalizam’ tecnologias criadas lá fora, fazendo uma adaptação para as condições brasileiras”, diz o pesquisador. Em outros segmentos como o farmacêutico, que importa parte dos princípios ativos, e o de eletrônicos, ocorre o mesmo.

“Na Zona Franca de Manaus o país dá subsídio para montar peças que vêm de fora. A gente não desenvolve tecnologia na maioria dos setores”, afirma Morceiro, para quem uma das causas desse cenário são as falhas da política industrial nacional.No caso das empresas instaladas na Zona Franca, Morceiro diz que existe uma exigência de contrapartida de investimento em troca do benefício tributário dado pelo governo, mas o resultado final não é claro. “Quando olhamos a Pintec [pesquisa sobre inovação tecnológica do IBGE feita a cada quatro anos], vemos que ali se investe pouco”, diz.

O setor de químicos, classificado como de média-alta tecnologia, é um dos poucos em que o país se sobressai, com o equivalente a 8,1% do valor adicionado bruto investido em pesquisa e desenvolvimento, ante 6,5% na OCDE, em grande medida por causa do segmento de cosméticos e perfumaria. Aqui, faz diferença a presença de grandes empresas nacionais, como a Natura. Em quatro setores com menor intensidade em P&D o Brasil está à frente da OCDE: serviços de utilidade pública, como eletricidade e gás; indústria extrativa; agropecuária e metalurgia.

(…)

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3 comentários

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Luiz

25 de junho de 2019 às 13h25

Mojica esteve por aqui nos ensinando que formar um cidadão custa mais caro do que formar um consumidor. Vemos, no momento, Trump criticando o “FED”, o “Bancão” deles. O que autoriza Trump a estar acometido deste surto de populismo econômico-liberal ? Contra, ele tem o “fechamento” de fronteiras e a guerra fiscal com seletos contendores. A favor da sua hipocrisia, os liberais hipócritas são os não consistentes, ele tem a indisposição do norte-americano comum de optar pelo poder de compra em detrimento da qualidade de vida. Coisa tal como um migrante conseguir emprego na indústria dos EUA, ou o problema começa por aí. Ora, está se tornando paradoxal aquilo que o liberalismo econômico tem chamado de capitalismo descentralizado frente a atuação monetarista do FED, isto se encaminha para ser muito mais do que autonomia ou independência, assomando-se como prenúncio do caos. “Ondas” e modernidade podem ser uma cilada para países socialmente deficitários

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Marcio

25 de junho de 2019 às 12h22

Queria tanto saber como um Paìs de analfabetos pode ter Industrias, Inovaçào Tecnologica, Pesquisas, ecc…..alguem explica ?

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    Amadeu

    25 de junho de 2019 às 13h46

    Exato. Isso é típico de sociedades que em vez de ensinar a população a “pensar” prefere ensinar a população a “acreditar”. Uma sociedade cheia de obscurantismos de toda espécie terminará nas trevas;

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