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Sérgio Moro em Palestra para Veja

Uma treta suave com o The Intercept Brasil

Por Tadeu Porto

07 de julho de 2019 : 19h28

A Vaza Jato tem mostrado uma força crescente, pautando o país cada vez mais, por isso, parei para refletir sobre ela um pouco e me ocorreu uma certa discordância.

Aqui vai um resumo, para aqueles e aquelas muitas que vão ficar por aqui no texto (até mesmo eu, quando for ler daqui a alguns anos): respeito e admiro muito o trabalho do The Intercept Brasil e quero apresentar aqui, humildemente, algumas ponderações sobre a dinâmica da Vaza Jato. Basicamente, me preocupa a assimetria com que a disputa da narrativa se dará a medida que a Lava Jato é desnudada, afinal, Veja e Folha, parceiros antigos da operação, sempre foram entusiastas dos resultados de Moro, Dallagnol e cia. 

Para os que continuaram, primeiramente, muito obrigado. O texto é legal e respeitoso, prometo.

Em segundo lugar, penso ser importante aprofundar sobre três premissas: a primeira que a Lava-Jato pauta o país há anos é uma dos grandes atores a política nacional (feat Mônica Bergamo) e a segunda (feat Repórteres Sem Fronteira), que Brasil tem uma das mídias mais concentradas do mundo

A terceira (feat Jânio de Freitas), resultado da análise das outras duas: sem ajuda da mídia tradicional, como a Folha e a Veja, a Lava Jato – tão autoritária e sombria – não conseguiria chegar aonde chegou.

É preciso dizer que a imprensa, incluído o telejornalismo, foi contribuinte decisivo nas ilegalidades encabeçadas por Sergio Moro. Aceitou-as, incensou-o, procurou tornar o menos legíveis e menos audíveis as deformações violadoras da ordem legal e da ética judiciária. Os episódios de transgressão sucederam-se, ora originários de Moro, ora do ambiente de fanatismo imperante entre os procuradores.

Jânio de Freitas, “Delinquência múltipla” (A imprensa e a Justiça aceitaram e incensaram as condutas de Moro e Deltan)

Ou seja, Folha e Veja, ao não permitirem o pluralismo de ideias foram cruciais para o surgimento de Lava Jato autoritária. Justamente esses veículos, agora, vão entregar a população uma visão sobre a Vaza Jato. É complicado, convenhamos.

Pegamos, por exemplo, a matéria da Veja sobre a Vaza Jato, aparentemente a primeira da série. Juntamente com seu furo, a revista escreve:

VEJA não faz parte dessa polarização que tanto empobrece a discussão política no país. Nosso objetivo é justamente buscar o equilíbrio, a razão, elevar o nível do debate

Revista Veja, carta ao Leitor: Sobre princípios e valores

Depois de anos de antijornalismo, inclusive para sustentar a Lava Jato, ver a Veja utilizar os holofotes da própria Vaza Jato para mentir que é isenta é um sapo difícil engolir.

Para ilustrar: em 2013, a revista dos Civita (uma das vozes monocráticas que pautavam o país segundo relatório do Repórteres Sem Fronteiras daquele ano), escolhia um jovem das ruas como “cara” das jornadas de junho. Maycon Freitas, um jovem apolítico que era adepto da frase “Bandido bom é bandido morto” e achava que “Direitos humanos é o caralho”, como bem lembrou o saudoso Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo.

A revista Veja, que semeou esse conservadorismo protofascista que sustenta ideologicamente a Lava Jato, agora tem em mãos o dever social de informar o país contra essa mesma operação. Duvidar dela é o mínimo que podemos fazer.

Além disso, pelo o que entendo da nossa realpolitk, nesse momento Folha e Veja estão planejando passo a passo os próximas cenas do cenário nacional. Vão participar diretamente do enfrentamento à crise política e econômica que vivemos, tendo em mão um acervo que pode mudar a história da República.

Gostaria reiterar aqui meu respeito ao trabalho realizado pelo The Intercept Brasil. Apresento essa opinião aqui de boa, sem a intenção de ofender ninguém e com o máximo de respeito às pessoas que estão realizando esse feito histórico.

Até aqui, a minha percepção é de que a verdade profunda por trás da Lava Jato, aquela que fez de Moro um popstar e um alucinado como presidente da República, não será analisada pela mídia tradicional. A confiança no Intercept, apesar de suavizar bem essa treta não é suficiente para suprimir essa dúvida.

No mais, um abraço a todos e todas que ficaram até o final! :)

E para aqueles que têm a mania de pular o texto todo e procurar uma conclusão no final – tipo eu – queria deixar aqui de novo meu respeito ao trabalho do Intercept e dizer a Vaza Jato por si só é um alento, uma suspiro de democracia num país caminhando para o autoritarismo. Entretanto, penso que o problema da Lava Jato tem raízes bem mais profundas e o Brasil merece analisá-las com isenção. Acredito, também, que Veja e Folha não têm prestígio para conduzir uma investigação verdadeiramente democrática, afinal, até outro dia eram devotas incondicionais da operação, a ponto de serem complacentes com as ilegalidades agora provadas. Por fim, externo preocupação com a democratização das informações sobre a Vaza Jato.

Tadeu Porto

Colunista do Cafezinho e diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

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4 comentários

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João

09 de julho de 2019 às 11h15

Concordo com você, tenho medo agora do país em convulsão

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Paulo

08 de julho de 2019 às 17h24

Veja mudou de mãos. Não pertence mais aos Civita. Isso deve ter tido alguma influência. Em que pese agora estar nas mãos de um “homem do mercado”.

Folha tem uma tradição de abrir espaço para vozes divergentes, mesmo que utilizasse isso para tentar legitimar seu partidarismo. Além disso, o falecimento do Otávio Frias Filho pode ter representado alguma mudança editorial.

Como disse o Edson, no comentário anterior, também deve haver um baita oportunismo desses veículos, que tentam pular do barco do bolsonarismo. E Moro era a estrela desse barco.

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Alan C

08 de julho de 2019 às 16h12

1) Já disse isso aqui e vou repetir, Monica Bergamo é uma bate/assopra do ca*alho, ela tá em todas, quando é pra massacrar Lula ela tá lá, quando é pra entrevistá-lo, ela tá lá, quando é pra endeusar o marreco, ela tá lá, quando é pra detoná-lo, ela tá lá…. PQP!!!;

2) Não vi ninguém dizer isso ainda, nem sequer os melhores analistas políticos, mas sem comprovação oficial do material vai ser difícil ganhar terreno nesse front, pois vai ser a opinião de um contra a do outro;

3) Veja e “Falha” de SP são inimigos do campo progressista, da pluralidade de ideias, da democracia (Falha de SP apoiou e enriqueceu na ditadura militar apoiando torturas e mortes), sempre foram e sempre irão ser, não é possível que haja alguém do nosso campo que ainda não tenha entendido isso…

4) O segundo trecho em negrito é simplesmente uma mentira absurda e muito cara de pau da Veja, que é simplesmente a rainha da polarização política, com 465 capas contra uma mesma pessoa. Se fazendo assim ela não estiver em um dos lados deste pólo então vamos refazer o mundo pq alguma coisa saiu errada;

5) Veja e Falha de SP estão para a extrema direita chucra e ignorante da mesma forma como lulistas estão para ciristas. Entendedores, entenderão. Um Dória da vida vem aí, e quando esta hora chegar, Veja e Falha irão varrer (junto com a Globo, podem apostar!) via bombardeio midiático, qualquer um que estiver no front, seja a bozolândia, sejam lulistas, sejam ciristas…

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edson tadeu

07 de julho de 2019 às 21h08

olha garoto eu estou vendo apenas o oportunismo da Folha de Sao Paulo Veja para vender seus jornais e revistas. e isso nao é de todo o mal, porque tanto uma como o outro entram em milhares de lares brasileiros. De uma certa forma apesar do oportunismo deles quem sai ganhando é a democracia e a verdade que vem chegando em muitos lares antes impedidos porque eles nao publicavam nada.
Seja como for Gleen nao é bobo, é um jornalista experiente e sabe que precisa contar com toda midia possivel e tambem nao vai se deixar manipular por eles.

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