Câmara discute privatização da Eletrobras

Crédito: Beto Barata / Estadão.

Gleisi responde ao Cafezinho

Por Miguel do Rosário

04 de setembro de 2019 : 20h27

A presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, publicou a seguinte nota no Twitter.

***
A nota tem uma agressão gratuita, e até mesmo infantil, ao blog, ao dizer que o nosso post forçava uma posição com a “intenção de criar cizânias”.

Prefiro acreditar que é um descuido infeliz, desses que as autoridades importantes não costumam ter com os grandes, mas sim com os pequenos,  até porque a assessora da deputada me procurou à tarde, mandou-me essa nota, para publicação no blog. Eu respondi “perfeitamente”, mas lhe fiz notar que havia uma pequena e desnecessária agressão ao blog; ela concordou e me mandou outro texto, sem essa coisa ridícula de me acusar de “criar cizânias”.  Outra pessoa da equipe, todavia, não esperou e publicou a nota original. 

A única coisa que eu fiz foi criar um título que, a meu ver, correspondia perfeitamente ao teor da entrevista. O resto é conteúdo do Correio Braziliense, que eu reproduzi na íntegra, dando o link para que o internauta pudesse conferir o original.  

Trecho da entrevista de Gleisi ao Correio Braziliense:

Subtítulo da entrevista:

Se esses textos não autorizam o título “Gleisi: 2022 será entre Bolsonaro e PT”, então me desculpe, estou realmente com algum problema grave para interpretar textos!

Sinceramente, não entendi porque negar o óbvio, até porque não há nada de maligno ou terrível que a presidente do PT entenda – e trabalhe para isso – que a disputa em 2022 volte a ser entre o governo Bolsonaro e o PT.  Foi com esse objetivo que o PT, sob a liderança de Gleisi, se movimentou em 2018, e não seria nenhuma surpresa que, novamente sob o comando da deputada, repetisse em 2022 os mesmos movimentos. E tudo que ela diz na entrevista ao Correio nos leva a entender que, a depender dela, assim será. 

O PSOL quer que a disputa em 2022 seja entre um candidato do PSOL X Bolsonaro. O PDT entende que Ciro é o melhor nome para derrotar o capitão. O PCdoB quer Flavio Dino.

Qualquer partido com planos de lançar uma candidatura visualiza uma disputa com Bolsonaro, e entende que o seu candidato será a melhor ideia  para vencê-lo.

Se há pessoas e correntes políticas que não desejam que essa polarização PT versus Bolsonaro se repita, por achar que ela ensejaria outra vitória da extrema direita, isso não é culpa minha. Não me responsabilize, prezada Gleisi, por uma tensão política que paira no ar, e que um blog político precisa mencionar de vez em quando.

Aliás, acho que essa tensão é salutar. Porque ela produz concorrência política, obrigando diferentes atores e partidos progressistas a exercitarem ao máximo suas ferramentas de comunicação. 

O Cafezinho está sempre aberto, de forma plural, às mais variadas posições políticas, tanto que procuramos manter um relativo equilíbrio editorial, publicando entrevistas, artigos e vídeos de todos os espectros políticos, às vezes até mesmo da direita. Até mesmo de Bolsonaro.

Aqui no Cafezinho você encontrará entrevistas de Lula (todas, sem faltar uma), lives de Bolsonaro (algumas), Boulos e Freixo, palestras de Ciro, vídeos do PT, além de todo o conteúdo interessante que eu tenho tempo e energia para publicar.  E procuro publicar esses conteúdos na íntegra, dando o link dos originais, e sem adjetivá-los. Perco muita audiência com esse meu esforço de moderação (teria mais visitas se fosse mais sensacionalista, mais agressivo), mas ganho em tranquilidade. 

O equilíbrio só não é total porque o blog tem, humildemente, a presunção de defender ideias progressistas, então a maior parte do conteúdo pesa para esse lado.

Não sou um “isentão”, todavia. Eu tenho minha própria opinião, que de vez em quando externo com a máxima transparência possível. O preço da transparência é alto, mas eu sempre fui assim, desde que fundei este blog. Estou acostumado. Não sou dono da verdade e gostaria de acreditar que posso mudar de opinião sempre que alguém me oferecer um argumento convincente. Não procuro impor, porém, minha opinião ao blog, que tem sua vida própria e visa atingir um público vasto e plural. 

Meu objetivo é ajudar o internauta formar a sua opinião por si mesmo sobre os diferentes agentes políticos. Não acredito – não mais – que violências editoriais possam mudar a opinião alheia. 

O que talvez alguns leitores tenham notado de diferente, é que tenho me esforçado em furar a bolha, em escrever para fora da esquerda. Isso me leva a pesquisar ideias diferentes, a rever posições, a defender a autocrítica, a procurar expressões e argumentos que não sejam os mesmos de sempre. Nunca li tanto como nesses tempos de Bolsonaro.

Sempre acreditei que a derrota ensina mais que a vitória porque nos obriga a mudar, a crescer, a rever nossos erros e nos tornar melhores e mais fortes. Mas assim como é preciso saber ganhar, é preciso saber perder; quem perde e ainda continua arrogante, cheio de certezas, esse não aprendeu nada. 

Acho que esse vício de nos comunicarmos dentro de bolhas foi um erro que cometemos durante muito tempo. Hoje eu procuro entender como pensam todas as pessoas, inclusive aquelas que votaram em Bolsonaro, pois, entendendo-as, eu poderei, talvez, influenciá-las a não votarem novamente nele em 2022. 

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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12 comentários

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Renato

10 de setembro de 2019 às 08h56

Ótima atitude Miguel, sair da bolha petista é viver de fato a democracia e o contraditório. Fiascos como o que o 247 e a datacut criaram nas eleições, demonstram o quão burra e alienada pode ser os ditos “formadores de opinião” .É quase impossível levar a sério qualquer artigo destes blogs “esclarecidos”, figuras carimbadas da ala petista que não cedem espaço a quem de fato poderia mudar este país sem a mácula de uma investigação ou condenação por corrupção.
O Cafezinho me trás esperança que um dia teremos mais Olívios e bem menos Lullas.

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Erico Almeida

07 de setembro de 2019 às 00h14

Concordo plenamente com a Deputada Gleise, a intenção do interlocutor da deputada era criar alguma fissura entre as pretensões do PT e outras siglas, ela deixou bem claro o PT estará com uma candidatura forte, não adianta criar falsas expectativas com candidaturas como do coronel Ciro Mal educado Gomes (direitista) e seu irmão babaca Gomes ou outro projeto só para dividir a esquerda.

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José Eduardo

06 de setembro de 2019 às 17h57

Debate desnecessário. Passa pela cabeça de quem quer que seja que, para ter viabilidade, o candidato do setor progressista prescinda da presença do PT, seja com nome próprio ou compondo de forma consistente a aliança?

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Paulo

05 de setembro de 2019 às 22h52

Parabéns, Miguel! Sua filosofia política casa-se perfeitamente com a minha, no sentido de que permite, sempre, a interação, a crítica, o contraditório. Não conheci suas posições, no passado recente (e muito menos no remoto), mas espero que o presente o brinde com o destaque que merece…

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Ribamar Farias

05 de setembro de 2019 às 17h46

O Cafezinho é um dos blogs que mais indico aos amigos, tenho pautado muitas das minhas posições com base nos texto que coleto por aqui. Quero dizer que compartilho das suas opiniões aqui neste post e em muitos outros. Parabéns pelo trabalho!!!

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J Fernando

05 de setembro de 2019 às 17h41

O problema talvez seja justamente esse, não? A manchete é SEU entendimento e não o que ela realmente disse. Pode constatar que a maioria das pessoas vão pela manchete e divulgam, muitas vezes sem sequer ler seu conteúdo. Você deu os links, beleza, mas ela não se expressou literalmente da forma como está na manchete. Respeito muito sua opinião, mas o mote que você utilizou é o mesmo que muitos criticam: dar uma manchete bombástica para atrair os leitores.
Você diversificou o blog, há matérias para todos os gostos, mas seus leitores mais antigos debandaram (eu sou um, dos tempos do Óleo do Diabo, que só aparece aqui esporadicamente). A diversidade trouxe os eleitores de Bolsonaro, alguns bastante fanáticos que comentam em, praticamente, todas suas postagens envolvendo Bolsonaro (ou Lula). E os comentários não agregam nada, não argumentam. Nas vezes que tentei argumentar, só respostas toscas tipo “você confirma a tese dos esquerdalhas”.
O excesso de propaganda não facilita comentar. É difícil encontrar o formulário de comentários, pois a cada vez que rola a página, mais propaganda aparece.

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Marcos Videira

05 de setembro de 2019 às 12h26

Eu penso que os atuais dirigentes do PT negam-se a aprender com a lição política dada por Cristina Kirchner e com a vitória de Bolsonaro. Sim, Gleisi revelou ou expressou sua vontade de que haja uma reedição de 2018 em 2022.
Einstein já refletiu sobre esse tipo de pessoa e cunhou uma frase famosa: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

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    Tiago

    06 de setembro de 2019 às 09h45

    Ainda é muito cedo para dizer que a experiência Argentina já deu certo. Esperamos que sim, mas só o tempo dirá. Também não devemos nos esquecer da experiência do Equador em que a esquerda apostou na eleição de um “aliado” do Rafael Correia e acabou elegendo um traidor chamado Lenin Moreno, que extraditou o Assange, colocou seu vice na cadeia e está fazendo a política do imperialismo.

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Tiago

05 de setembro de 2019 às 11h00

Gleisi apostar que a polariazação vai continuar não significa dizer que será obrigatoriamente entre PT e Bolsonaro. Ela se referiu a uma polarização entre campos políticos. Durante seis eleições a polarização foi entre PT e PSDB e em 2018 o PSDB deu lugar ao Bolsonaro. Ninguém está afirmando quem serão os protagonistas da possível polarização de 2022. Essa é a minha interpretação.

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NeoTupi

05 de setembro de 2019 às 10h33

A nota do PT estava errada ao atribuir intenção ao blog e foi corrigida. Será que o blog não está de fato valorizando demais a cizânia ao enfatizar demais a nota anterior a correção? Com todo respeito, Miguel, você pode não ter percebido, mas manifestou uma antipatia gratuita à Gleisi.

O blog de fato errou ao colocar palavras na boca de Gleisi que ela não disse. Ter opinião sobre o que acha que ela quis dizer é diferente de afirmar que ela disse.
O que ela afirmou inclusive nos trechos achurados pelo blog é que ela não acredita em chances de candidato fora da política tradicional, que haverá comparação pelo eleitor na economia durante os governos atual e o petista, e que haverá polarização sem definir escopo de quem estará nos dois pólos. Eu concluí que pode ser qualquer um que apoiou os governos petistas (Flávio Dino, por exemplo, ou o próprio Ciro se deixasse de hostilizar o passado que ele apoiou), e que foi contra o golpe, contra qualquer um que defenda as políticas de Guedes aplicadas por Bolsonaro.
O cafezinho avançou o sinal ao definir escopo saindo da boca dela sem que ela tenha dito. Quando jornalões fazem isso a gente crítica. Blogs progressistas também não devem fazê-lo.

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Alan C

05 de setembro de 2019 às 08h35

Não sei se foi apenas um descuido na redação da nota, se foi o chamado ato falho ou se foi proposital para fugir do rótulo, mas a nota cita “fora da política nacional”, o que evidentemente está errado, enquanto no Correio Brasiliense o termo é “fora da política TRADICIONAL”.

Será que a presidenta do PT propositalmente não quis citar política tradicional? Qual seria a política tradicional petista? Conluios com o que havia de pior na politica TRADICIONAL?? Parcerias nefastas com figuras como Collor, Sarney, Maluf, Temer, Calheiros, Eunício, Jucá e etc?? Dar o controle do Banco Central ao Bank of Boston e a fazenda ao Bradesco??

A presidenta do PT quis dizer o que disse e que o Cafezinho muito corretamente interpretou, simples assim. Qualquer coisa diferente disso é, digamos, política TRADICIONAL petista…

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Luiz Carlos

04 de setembro de 2019 às 20h57

Vejo como um mal entendido que pode ter ocorrido pela desatenção de qualquer parte. Que isto não prejudique ambos os lados, representantes da esquerda guerreira.

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