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Paulo Morceiro: externalidades de industrialização

Por Redação

10 de janeiro de 2020 : 13h33

No blog Valor Adicionado

Externalidades de industrialização
10 DE JANEIRO DE 2020

Por Paulo Morceiro

A manufatura é uma das precondições para o desenvolvimento econômico? Ela ainda é importante para um país em desenvolvimento? Nos últimos dias isso tem sido bastante discutido nas redes sociais. Neste post falarei brevemente qual é o papel que a indústria desempenha no desenvolvimento.

A industrialização esteve associada com o desenvolvimento socioeconômico, pois muitos países, especialmente populosos, tornaram-se industrializados e desenvolvidos simultaneamente. Chamarei de externalidades de industrialização algumas características especiais que se manifestam com maior intensidade no setor manufatureiro, a saber:

  1. Inovação. A manufatura, especialmente os setores industriais de maior intensidade tecnológica, é a principal fonte de inovação e difusão de novas tecnologias para toda a economia. Fora da manufatura só temos serviços de informação (softwares) com o mesmo protagonismo.
  2. Locomotiva do crescimento (encadeamento para trás). A manufatura possui grande capacidade de puxar o crescimento dos demais setores da economia, pois praticamente todos os setores manufatureiros possuem os maiores multiplicadores de produção (longas cadeias produtivas).
  3. Desenvolvimento regional. A manufatura possui elevada capacidade de promover o desenvolvimento regional. Localidades em que se instalam indústrias novas passam por grandes transformações.
  4. Produtividade. Contribui mais do que proporcionalmente – ao seu tamanho – para o crescimento da produtividade da economia ao apresentar elevadas economias estáticas e dinâmicas de escala, especialmente na fase de industrialização. A indústria é intensiva em capital e tecnologia incorporada, condições necessárias para o aumento da produtividade.
  5. Balanço de pagamentos. A manufatura pode aliviar pressões sobre o BP já que ela realiza cerca de 2/3 das exportações mundiais. Ao contribuir para o saldo comercial a manufatura permite que países em desenvolvimento possam gerenciar suas políticas macroeconômicas com maior autonomia.
  6. Empregos e salários. A manufatura é um dos poucos setores que empregam (formalmente) grande quantidade de pessoas e tem remuneração superior à média da economia.
  7. Qualificação da mão-de-obra. A manufatura contribui para a qualificação adicional da força de trabalho, pois exige montante expressivo de profissionais com treinamento técnico, tecnológico e superior que são intrínsecos a atividade industrial.
  8. Segurança nacional. A manufatura é importante para a segurança nacional ao produzir os avançados sistemas de defesa para fiscalizar fronteiras e riquezas domésticas. Relevante também para segurança energética, alimentar, saúde e cibernética.
  9. Duração do crescimento: a maior participação da indústria de transformação e uma estrutura de produção mais diversificada contribuem para uma maior duração temporal dos episódios de crescimento e reduz a volatilidade dos padrões de crescimento.
  10. Carregadora de serviços sofisticados: os bens industriais carregam os serviços sofisticados para outros países quando eles são exportados, transformando assim vários serviços não-comercializáveis em comercializáveis. Note que a manufatura consome inúmeros insumos de serviços no processo de produção.

As características acima não se manifestam com a mesma intensidade entre os setores manufatureiros, por exemplo, os setores manufatureiros low-tech pagam salários baixos e investem proporcionalmente menos em tecnologia. Setores fora da indústria, como os serviços sofisticados (sobretudo serviços de informação) remuneram bem, investem em tecnologia e são vitais para a segurança nacional.

Fatos históricos:

  1. As revoluções industriais têm mudado e elevado o padrão de vida da humanidade em múltiplas dimensões.
  2. As maiores taxas de crescimento econômico ocorreram na fase de industrialização.
  3. Nenhum país populoso se tornou desenvolvido sem passar por uma experiência de industrialização bem-sucedida.

As “externalidades de industrialização” se manifestam com maior intensidade no setor manufatureiro – sobretudo nos setores de alta e média-alta tecnologia –, mas algumas também são encontradas nos demais setores não-manufatureiros. Porém, dificilmente um setor não-manufatureiro reúne a maioria da lista acima.

Também vale ressaltar que os setores manufatureiros possuem contribuição diferente conforme o estágio do desenvolvimento, conforme ilustra a figura abaixo extraída deste paper.

Acima de US$ 20 mil per capita em paridade poder de compra (PPC) os setores predominantemente de alta e média-alta tecnologia — e os serviços sofisticados (não mostrados na tabela acima) — são vitais para o desenvolvimento. O Brasil está estacionado no estágio intermediário há 40 anos, na verdade, tem retrocedido prematuramente em vários setores dos estágios (2) e (3) da tabela acima.

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2 comentários

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Luiz

11 de janeiro de 2020 às 17h47

No passado, antes do neoliberalismo representar o imperialismo, foram extensos os debates sobre economias planificadas e planejadas. Seria esquerdistamente decente reintroduzir esta pauta.

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Paulo

10 de janeiro de 2020 às 19h47

Mas o Porco Guedes prometeu que aqui iria jorrar leite e mel com a Reforma da Previdência e Trabalhista…Ou será que ainda faltam a Administrativa e a tributária, bolas da vez?

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