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A pesquisa Ipespe e o otimismo exagerado do economista

O professor e economista Nelson Marconi, um dos mais prestigiados especialistas em desenvolvimento no país, fez um pequeno fio de duas postagens em seu Twitter, sobre uma pesquisa Ipespe divulgada no início deste mês.  Suas postagens nos dão o ensejo de fazer um comentário sobre uma questão importante que sempre gera confusão em quem analisa […]

4 comentários
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O professor e economista Nelson Marconi, um dos mais prestigiados especialistas em desenvolvimento no país, fez um pequeno fio de duas postagens em seu Twitter, sobre uma pesquisa Ipespe divulgada no início deste mês. 

Suas postagens nos dão o ensejo de fazer um comentário sobre uma questão importante que sempre gera confusão em quem analisa pesquisas.

Como devemos olhar para os números estratificados?

Em seu livro O Brasil dobrou à direita, que analisa as eleições de 2018, o pesquisador da FGV, Jairo Nicolau, explica esse ponto:

“Por exemplo, em uma sondagem com mil entrevistas a margem de erro é de cerca de três pontos percentuais, mas quando analisamos apenas um segmento (os eleitores com curso superior, digamos) o número de casos para duzentas entrevistas, o que produz uma margem de erro muito maior (cerca de 7 pontos percentuais). Por isso, as margens de erro não são fixas para todos os percentuais de preferência: a de um candidato que tem 5% de preferência é diferente da observada para um que tem 45%.

O professor Marconi é um entusiasta apoiador de Ciro Gomes, então é compreensível que procure examinar uma pesquisa sob uma ótica favorável a seu candidato.

O próprio Ciro, a propósito, compartilhou a postagem de Marconi, com grandes elogios, dizendo que o pesquisador “tem olhos de água também para ver os números mais determinantes em algumas pesquisas”.

Entretanto, o rigor com que devemos tratar questões de interesse nacional, como reaprendemos dramaticamente durante a pandemia, e como o próprio Ciro Gomes defende quando fala da necessidade de um projeto nacional de desenvolvimento baseado em preceitos científicos, também devemos aplicar à análise política.

A política não é propriamente uma ciência. O pensar e o fazer políticos envolvem toneladas de emoção, sentimento, intuição. Mas exatamente por isso devemos nos esforçar sempre para manter uma postura objetiva e científica diante dos problemas e desafios que a política nos oferece.

Antes de passar para a análise dos pontos levantados por Marconi, é relevante notar que a pesquisa da Ipespe foi paga pelo XP, um banco de investimento, e custou exatamente R$ 42 mil, conforme nota protocolada no site do TSE.

O candidato Ciro Gomes tem repetido, em suas entrevistas e sabatinas (voltou a fazê-lo dias atrás, em sua participação na Brazil Conference, em Boston), que as pesquisas no Brasil custam em torno de R$ 1 milhão.

A pesquisa nacional mais cara feita este ano, conforme dados abertos disponíveis no TSE, foi a Datafolha, que custou R$ 474 mil. A última Quaest nacional, que também é presencial, custou R$ 269 mil.

Diante de pesquisas de tanta qualidade, presenciais, embora nenhuma chegue a R$ 1 milhão, é interessante que Ciro Gomes tenha chamado atenção para uma de R$ 42 mil.

Abaixo, a nota fiscal da última pesquisa nacional da Ipespe.

Passemos aos pontos que os “olhos de águia” do professor Marconi destacaram na pesquisa Ipespe, para saber se ele tem razão ao comentar se, realmente, “é nítida a subida de Ciro”.

Marconi insinua que a maioria dos analistas não tem enxergado o avanço de de Ciro nas pesquisas por razões obscuras:  “só não vê quem não quer, e quem não quer divulgar estes números”.

Ele observa, enfim, que Ciro saltou de 7% para 15% entre os mais escolarizados, ou seja, entre os eleitores com ensino superior, e avançou de 5% para 8% entre aqueles com menos instrução, ou até o ensino fundamental.

É um salto sensacional, de fato. Mas o entusiasmo deve ser contido, sobretudo porque, entre eleitores com ensino médio, que formam o maior grupo do país, Ciro oscilou para baixo na mesma pesquisa, de 8% para 7%.

Reiterando, o eleitor com ensino médio, segundo estimado na própria pesquisa Ipespe, corresponde a 43% do eleitorado brasileiro, contra 22% daqueles com ensino superior e 36% para os que tem até o ensino fundamental.

Como lembrou o professor Jairo Nicolau, a margem de erro das intenções de voto de um segmento de eleitores com ensino superior é superior a 7%, quiçá mais que isso, no caso de candidatos com baixo percentual.

No caso do avanço de três pontos entre eleitores com ensino fundamental, de 5% para 8%, não só é uma variação abaixo da margem de erro, como na realidade representa uma queda em relação ao desempenho de Ciro no mesmo segmento em meses anteriores, pois o pedetista já chegou a pontuar 11% junto a estes eleitores menos educados, na mesma pesquisa, na primeira quinzena de março deste ano.

Ou seja, o comentário entusiástico de Marconi, ao responder os elogios de Ciro à sua análise, de que seria “evidente a ascensão”, talvez seja um pouco exagerado.

Passemos a outros pontos levantados pelo economista.

Ele observa que Ciro cresceu de 6% para 12% entre eleitores com renda familiar acima de 5 salários, e de 8% para 11% entre eleitores com renda entre 2 e 5 salários.

Vamos lá.

A subida de Ciro entre eleitores de maior renda merece ser comemorada pela campanha do candidato.

O voto de classe média é sempre estratégico, por se tratar de um eleitorado “barulhento”, que agita as redes sociais e as domina. Um dos segredos da vitória de Bolsonaro foi ter se tornado o grande campeão da classe média e ter, com isso, hegemonizado as redes.

Mas é bom lembrar que as margens de erro deste segmento em particular são bastante altas, porque ele representa apenas 18% dos entrevistados.

Além disso, Bolsonaro também cresceu no mesmo segmento, eleitores com renda familiar superior a 5 salários,  de 31% para 35%.

No caso de Ciro, o crescimento neste segmento de eleitores de maior renda é neutralizado por seu fraco desempenho junto ao eleitorado mais pobre, que corresponde a 47% dos entrevistados da Ipespe (e do eleitorado brasileiro): neste segmento gigante, onde Ciro já chegou a 10% na segunda quinzena de fevereiro deste ano, ele pontuou apenas 7% em abril.

O mais dramático, para Ciro, no entanto, é que ele está ficando cada vez mais distante de Bolsonaro e Lula junto ao eleitorado pobre.

Na pesquisa anterior, da segunda quinzena de março, Ciro estava 12 pontos atrás de Bolsonaro junto a eleitores com renda familiar até 2 salários. Em abril, a vantagem de Bolsonaro salta para 18 pontos!

Difícil inferir destes números, portanto, que a candidatura de Ciro Gomes experimenta “nítida subida” ou que seria “evidente a ascensão”, como observou o economista Nelson Marconi.

Marconi envereda para análise dos números por região, destacando o forte crescimento de Ciro no Sudeste (de 5% para 10%) e no Sul (3% para 10%).

O crescimento no Sudeste e Sul, de 5 e 7 pontos respectivamente, é deveras impressionante. Mas observe o que está escrito na parte inferior da tabela onde Marconi pegou esses números: “as margens de erro máximo variam (…) até aproximadamente 8,2 para o menor segmento de região, Centro-Oeste + Norte e Sul”.

Ou seja, essas oscilações em determinados segmentos, por mais maravilhosas que pareçam, devem ser vistas com parcimônia pelo analista, em virtude das altíssimas margens de erro.

Além do mais, o crescimento de Ciro no Sul e no Sudeste deve ser contraposto a um fato muito negativo para sua candidatura, que é o avanço ainda maior de Bolsonaro nessas mesmas regiões.

No Sudeste, Bolsonaro avançou de 25% para 31%, e no Sul, de 31% para 39%.

Ou seja, a distância entre Bolsonaro e Ciro, nessas duas regiões, que já era monstruosa, de 20 (!) pontos no Sudeste e 28 (!) pontos no Sul na segunda quinzena de março, saltou para 21 pontos e 29 pontos em abril!

Importante observar que a distância entre Bolsonaro e Ciro é a mesma que separa o pedetista do segundo turno, já que sua única esperança de chegar lá seria tomar a vaga do atual presidente.

Outro ponto que neutraliza em parte as boas notícias observadas pelo otimista pesquisador, é que Ciro Gomes oscilou para baixo no Norte-Centro Oeste (de 8% para 7%) e no Nordeste (10% para 9%).

Tudo abaixo da margem de erro, importante enfatizar. Mesmo assim, isso não é, naturalmente, boa notícia para Ciro.

Por fim, o último ponto trazido por Marconi é a variação (5% para 9%) de Ciro na coluna de eleitores na faixa etária entre 35 e 54 anos.

À propósito, aqui os “olhos de águia” do pesquisador nublaram-se um pouco e ele errou as idades, escrevendo “34 a 45” anos. Ele queria dizer, repito, 35 a 54 anos.

O problema é que, novamente, Bolsonaro cresceu mais que Ciro.

Na segunda quinzena de fevereiro, Bolsonaro tinha 27% entre eleitores com 35 a 54 anos, e hoje tem 31%. A distância de Ciro para Bolsonaro neste segmento, que era de 21 pontos na pesquisa anterior, agora subiu para 22 pontos, o que constitui mais um obstáculo no caminho de Ciro para ocupar da vaga de Bolsonaro no segundo turno.

Conclusão

A Ipespe divulgou dois gráficos com os “evolutivos” das pesquisas espontânea e estimulada. A partir deles, podemos ter, de fato, uma visão mais realista de quem está avançando ou recuando ao longo do tempo.

Na espontânea, vemos o presidente Lula se mantendo firme num patamar bastante alto, de 36%, do qual não cai desde o final do ano passado.

Bolsonaro, por sua vez, está com 26% a 27% há alguns meses.  A distância de Bolsonaro para todos os outros candidatos somados (incluindo Ciro) aumentou bastante. No início deste ano, era menor que 15 pontos (o que já era uma distância expressiva), e hoje cresceu para 18 pontos.

Na estimulada, igualmente vemos Lula se mantendo firme com seus 44% desde o final do ano passado, o que corresponde a um percentual muito próximo de uma vitória no primeiro turno.

Bolsonaro, por sua vez, tem 30% na estimulada, o que não é muito diferente dos 28% que já tinha em meados do ano passado.

Ciro Gomes, por sua vez, parece ter herdado dois pontinhos de Sergio Moro, que saiu da disputa, mas a sua distância para Bolsonaro, que já era enorme na segunda quinzena de fevereiro (19 pontos), agora é ainda maior (21 pontos).

Além disso, Ciro Gomes ainda não deu nenhuma mostras de romper decididamente a barreira invisível dos dois dígitos.

Desde o início do histórico dessa pesquisa, em janeiro de 2020, o pedetista oscila entre 6% e 11%. Ou seja, os 9% de Ciro hoje é, na verdade, uma queda em relação aos 11% que já chegou a exibir em alguns momentos do passado.

De qualquer forma, cumprimento o nobre economista pelo otimismo, pois sem este sentimento muitos de nós teriam dificuldade de enfrentar os terríveis momentos que atravessamos.

Ao final de Cândido, ou o Otimismo, o grande clássico de Voltaire, o doutor Pangloss explicava a Cândido que “todos os acontecimentos estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivesses sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro, por amor da senhorita Cunegundes, se a Inquisição não te houvesse apanhado, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesses mergulhado a espada no barão, se não tivesses perdido todos os teus carneiros da boa terra do Eldorado, não estarias aqui agora comendo doce de cidra e pistache”.

A resposta de Cândido, que fecha o livro, todavia, é o único momento em que o personagem demonstra uma ligeira impaciência com o otimismo de seu mentor.

“Tudo isso está muito bem dito – respondeu Cândido, – mas devemos cultivar nosso jardim”.

Ou seja, independente das análises otimistas, realistas ou pessimistas que fazemos das pesquisas, o dever de todos nós, cidadãos preocupados com a possibilidade de reeleição do atual presidente, é cultivar o jardim onde florescem os valores democráticos, a fraternidade mútua e a esperança de dias melhores!

O relatório completo da pesquisa Ipespe da primeira quinzena de abril pode ser baixado aqui.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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Comentários

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carlos

14/04/2022 - 09h57

Será que o bolsonaro⁹⁸ sabe calcular 4% no universo de 29 milhões de votos em 2018? Nos estamos e 2022 o número aumentou vamos lá a nível de 2018 seriam 11,5 milhões de votos e hoje seriam 13,5 milhões já pensou o Lula sair de São Paulo com essa votação e imagine no rio de Janeiro, no Ceará, Pernambuco, Minas Gerais terra do saudoso Tancredo Neves do saudoso Rubem de Azevedo Alves? Bahia de Castro Alves de Jorge amado d saudoso Rui Barbosa e tantos outros minas gerais do saudoso Darcy Ribeiro? Vou parar por aqui

Tiago Silva

13/04/2022 - 17h16

Excelente explicação, Miguel!

Se possível, você poderia apresentar mais destes gráficos de evolução das pesquisas (inclusive estratificado, por índice de rejeição, por popularidade nas redes sociais, além das intenções de voto espontânea e estimulada)… Vai que os “Olhos de Águia” funcione melhor nas “cabeças de planilha”.

Galinzé

13/04/2022 - 15h13

Quais terríveis momentos vc está atravessando Miguel do Rosário…? Tá com algum problema de saúde ?

Ou é só hipocrisia mesmo ?

EdsonLuiz.

13/04/2022 - 14h10

Sobre o que dizem os números das pesquisas, a análise feita neste post está mais em pé! Mas, a Nelson Marconi eu dedico minha admiração interesseira pelo seu otimismo.

Outra coisa : a ilustração do post é inspiradora! E ainda bem que a foto não está em uma página que chama indevidamente defensores de ditaduras e de autocratas de progressistas, em desrespeito a François-Marie Arouet, o nosso progressista ‘Volter’.


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