O mito nórdico do kraken, criatura colossal capaz de arrastar navios e marinheiros para as profundezas, pode ter encontrado seu equivalente real nos oceanos do Cretáceo. Fósseis de mandíbulas descobertos no Japão e no Canadá revelam que polvos gigantes, com até 19 metros de comprimento, reinaram como predadores supremos durante o auge dos dinossauros.
O paleontólogo Yasuhiro Iba, da Universidade de Hokkaido em Sapporo, no Japão, explica que estudar fósseis de cefalópodes é um desafio, pois seus corpos moles se decompõem rapidamente, restando apenas estruturas duras como as mandíbulas. Segundo uma pesquisa publicada na revista Science News, essas mandíbulas fossilizadas, datadas entre 72 milhões e 100 milhões de anos atrás, pertenciam a duas espécies: Nanaimoteuthis jeletzkyi e a muito maior N. haggarti.
A análise de 15 fósseis de mandíbulas permitiu aos cientistas reconstruir digitalmente outros 12 espécimes incrustados em rochas japonesas. A técnica envolveu o desgaste camada por camada das rochas, fotografando cada etapa para criar modelos tridimensionais precisos de fósseis frágeis demais para serem extraídos manualmente.
A N. haggarti, em particular, impressiona pela magnitude: sua mandíbula inferior, capaz de acomodar uma toranja, era 50% maior que a do atual calamar-gigante, que atinge 12 metros. Quando incluídos os tentáculos, estima-se que o animal pudesse medir entre 7 e 19 metros, tornando-o um dos maiores invertebrados já registrados na história da Terra.
Esses polvos ancestrais, parentes distantes dos atuais polvos-de-aletas como o dumbo, provavelmente competiam com os maiores predadores marinhos da época, como mosassauros e plesiossauros. O desgaste consistente nas mandíbulas fósseis sugere que eram predadores vorazes, capazes de triturar conchas e ossos, ocupando o topo da cadeia alimentar.
O paleontólogo Christian Klug, da Universidade de Zurique, na Suíça, destaca que, embora as estimativas de tamanho possam variar devido à escassez de fósseis completos, não há dúvida de que esses animais estavam entre os predadores dominantes do Cretáceo. Já Adiël Klompmaker, da Universidade do Alabama em Tuscaloosa, nos Estados Unidos, espera que futuras descobertas revelem conteúdos estomacais preservados.
Tais achados poderiam esclarecer se esses gigantes se alimentavam de invertebrados como amonites ou se caçavam vertebrados marinhos. A descoberta reescreve a compreensão dos ecossistemas marinhos antigos, mostrando que invertebrados também desempenhavam papéis cruciais no topo da cadeia alimentar.
Para Yasuhiro Iba, o estudo prova que os oceanos do Cretáceo eram muito mais complexos do que se imaginava. A diversidade de predadores desafia as narrativas tradicionais sobre a supremacia exclusiva de répteis marinhos, revelando um mundo onde criaturas como o kraken ancestral reinavam absolutas.
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