O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, retornou a Islamabad para entregar novas propostas ao governo do Paquistão, que atua como mediador nas tensões entre Teerã e Washington. O chanceler iraniano busca garantir que as condições de Teerã sejam formalmente apresentadas antes de qualquer retomada das negociações com os Estados Unidos.
Entre as exigências que o governo iraniano apresenta como pré-condição ao diálogo estão o fim das restrições navais impostas pelos EUA no Golfo Pérsico e a criação de um novo marco jurídico para a navegação no estreito de Ormuz. O governo iraniano também reivindica garantias contra novas agressões militares e deixa claro que o tema nuclear não integrará a agenda de negociações neste momento.
Durante a passagem por Islamabad, Araghchi reuniu-se com o comandante do Exército paquistanês, general Asim Munir, e com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif. As conversas giraram em torno de uma contraproposta iraniana às condições apresentadas pelos negociadores norte-americanos em rodadas anteriores.
Após a escala no Paquistão, o chanceler iraniano seguiu para Moscou, onde foi recebido pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, confirmou o encontro e destacou que a Rússia continuará oferecendo apoio político e diplomático a Teerã.
Do lado americano, o presidente Donald Trump cancelou pela segunda vez em uma semana o envio de emissários a Islamabad. A missão seria conduzida pelo assessor especial Steve Witkoff, que vinha atuando como principal interlocutor de Washington nas tratativas indiretas com o Irã, mas foi suspensa após divergências sobre pontos centrais da proposta iraniana.
Em declaração à emissora Fox News, Trump afirmou que o Irã pode procurá-lo diretamente caso queira negociar, condicionando qualquer encontro à renúncia iraniana ao desenvolvimento de armas nucleares. A Casa Branca chegou a divulgar que Teerã teria solicitado uma reunião presencial, versão prontamente negada pelo governo iraniano, que insiste na mediação multilateral e em garantias contra novas sanções unilaterais.
O estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, permanece no centro das tensões entre as duas partes. A exigência iraniana de uma nova regulação jurídica para o tráfego marítimo na região reflete a determinação de Teerã de institucionalizar sua segurança no Golfo e reduzir a exposição a incidentes provocados pela presença militar americana na região.
Com o cancelamento das viagens dos emissários norte-americanos e a ausência de avanços concretos, as perspectivas de uma nova rodada formal de negociações permanecem indefinidas. A movimentação de Araghchi entre Islamabad e Moscou evidencia que o Irã aposta na articulação com aliados e na pressão diplomática multilateral como principal instrumento para conter a escalada promovida por Washington.
Leia mais sobre o assunto na tagesschau.de.
Leia também: Chanceler iraniano viaja ao Paquistão para avançar negociações com os Estados Unidos
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Miriam
26/04/2026
Adriana, pelo tom da sua postagem parece que você leu uma notícia completamente diferente. O Irã está tentando evitar uma guerra com os EUA, não pedindo apoio pra perseguir ninguém. Mas entendo que pra quem reduz tudo a lacração, nuances geopolíticas devem soar como grego.
Adriana Silva
26/04/2026
Faz o L, Iran comunista querendo apoio dos amiguinhos pra continuar perseguindo mulher. Vai pra Cuba, Araghchi
Carlos Henrique Silva
26/04/2026
Letícia e Ricardo, vocês dois levantaram pontos importantes, mas acho que a discussão precisa de um enquadramento teórico mais preciso. O que estamos vendo não é nem desespero tático nem um jogo de potências equivalentes — é a manifestação concreta do que Gramsci chamaria de crise de hegemonia. O Irã não está simplesmente “buscando aliados”; está tentando construir uma frente contra-hegemônica num momento em que a ordem unipolar dos EUA mostra fissuras profundas. Araghchi não vai a Islamabad e Moscou como um suplicante, mas como representante de um Estado que entendeu que a correlação de forças no sistema internacional está em disputa. O Paquistão, nesse contexto, não é um mero “mediador” — é um elo numa cadeia de Estados periféricos que tentam maximizar sua autonomia relativa diante do imperialismo.
O que me incomoda no comentário do Pedro, com todo respeito, é essa visão reducionista de que “geopolítica é xadrez de ricos”. Claro que o preço do diesel afeta o trabalhador brasileiro, mas isso não invalida a necessidade de entender a lógica do sistema. Pelo contrário: é justamente porque o preço do combustível é determinado por essas disputas geopolíticas que precisamos de análises estruturais, e não de um pragmatismo tacanho que reduz tudo ao bolso. A crise do capitalismo contemporâneo é total — econômica, política, militar — e o Irã, com todos os seus defeitos internos (e são muitos, não sou ingênuo quanto à teocracia), está jogando o jogo que lhe resta: o da resistência à sanha imperialista.
Mariana, você tem razão ao alertar contra o “desespero tático” como categoria explicativa. Mas discordo quando você sugere que subestimamos a racionalidade do regime. A racionalidade iraniana é perfeitamente compreensível dentro dos marcos do realismo periférico: um Estado sob cerco econômico e ameaça militar permanente busca diversificar suas alianças e criar custos para qualquer agressão. O que Araghchi faz é exatamente o que teóricos como Vijay Prashad chamam de “diplomacia do Sul Global”: usar as contradições interimperialistas (EUA x Rússia, EUA x China) para ganhar espaço de manobra. Não é heroísmo nem desespero — é a arte do possível dentro de um sistema que condena países como o Irã à asfixia permanente.
Mariana Alves
26/04/2026
Letícia, você tocou num ponto que merece um desdobramento mais cuidadoso. A ideia de “desespero tático” é sedutora, mas corre o risco de subestimar a racionalidade estratégica do regime iraniano. O que Araghchi faz ao retornar a Islamabad não é um movimento de quem perdeu o rumo — é a expressão de um realismo periférico que opera em condições objetivas de assimetria. O Irã sabe que não pode enfrentar os EUA no tabuleiro militar convencional; sua aposta é na erosão da credibilidade americana através de mediações que expõem o isolamento de Washington. O Paquistão, nesse jogo, não é um mediador ingênuo: é um Estado que negocia sua própria sobrevivência geopolítica entre a pressão do FMI, a rivalidade com a Índia e a dependência energética do gás iraniano. Cobrar caro pelo serviço, como o Ricardo observou, é o mínimo.
O que me incomoda no comentário do Pedro — e peço licença para discordar com franqueza — é a redução da geopolítica a um mero reflexo do preço do diesel. Claro que a inflação dos combustíveis atinge a classe trabalhadora brasileira de forma brutal, e ninguém aqui defende que se ignore o custo humano das sanções. Mas transformar a análise de conjuntura internacional numa queixa de consumo imediato é empobrecer o debate. A alta do diesel não é causada pela visita de Araghchi a Islamabad; ela é sintoma da mesma estrutura neoliberal que subordina a política externa brasileira aos interesses do agronegócio exportador e das petroleiras. Se vamos falar de preço na bomba, que se fale também de quem lucra com a instabilidade no Oriente Médio — e não são os iranianos nem os paquistaneses.
Ricardo, você apontou com precisão que o Paquistão cobra caro. Mas acho que o preço não é apenas futuro: ele já está sendo pago em termos de legitimidade. Cada vez que Islamabad se oferece como ponte entre Teerã e Washington, ela valida a própria narrativa iraniana de que os EUA são um interlocutor que precisa de intermediários para dialogar. Isso desgasta a posição americana no Sul Global, especialmente entre países muçulmanos que já veem a hegemonia dos EUA com desconfiança. O jogo é mais sutil do que parece: o Irã não busca uma vitória diplomática imediata — busca acumular tempo e desgastar a disposição americana de sustentar sanções que já duram décadas. E nesse jogo de paciência, a mediação paquistanesa é um instrumento, não um sinal de fraqueza.
Ricardo Almeida
26/04/2026
Letícia, você capturou bem o desespero tático por trás da coreografia diplomática. Mas acho que falta um elemento: o Paquistão como mediador não é piada, Pedro — é um ator racional que cobra caro pelo serviço, seja em termos de influência ou de favores energéticos futuros. O que me incomoda é o silêncio ensurdecedor sobre o papel das monarquias do Golfo nessa equação, que seguem financiando os dois lados do tabuleiro.
Letícia Fernandes
26/04/2026
Cíntia, você tem razão ao chamar de “realismo político” o movimento de Araghchi, mas a categoria é insuficiente para descrever o que estamos testemunhando. O que o Irã faz neste momento não é um jogo de xadrez entre potências equivalentes — é a tentativa desesperada de um país periférico de sobreviver ao cerco imperialista. Quando o Paquistão aparece como mediador, não se trata de uma escolha entre iguais; trata-se de um país que, apesar de suas contradições internas e de seu próprio alinhamento com o capital financeiro internacional, ainda mantém canais com o mundo islâmico não alinhado. Mas a verdadeira questão que o artigo levanta e que ninguém aqui tocou é: por que o Irã precisa mendigar mediação? Porque o sistema interestatal burguês não oferece outra via. A ONU, a OCI, o Movimento dos Não Alinhados — todas essas instituições foram esvaziadas pela hegemonia do capital norte-americano. O Irã corre para Moscou e Islamabad porque não há tribunal internacional que julgue sanções unilaterais, não há foro multilateral que condene o assassinato de cientistas iranianos por Israel. A diplomacia, nesse contexto, é a máscara da impotência. Enquanto isso, Pedro, você tem toda razão em sentir o preço do diesel — mas não é a “novela geopolítica” que sobe o preço, é a financeirização do petróleo e a dependência estrutural do Brasil ao mercado de commodities. O Irã poderia ser um parceiro energético estratégico para o Sul Global, mas as sanções impedem. E quem impõe as sanções? O mesmo sistema que faz o diesel subir aqui. Não há separação entre o sofrimento do povo iraniano e o do povo brasileiro — ambos são faces da mesma moeda chamada imperialismo. O que me causa pena patológica é ver comentaristas reduzindo tudo a “gestão ineficiente” ou “autoritarismo”, como se o Irã fosse uma ilha de escolhas livres dentro de um oceano de constrangimentos estruturais. O regime iraniano tem suas contradições, sim, mas a crítica precisa começar pelo bloqueio econômico que asfixia qualquer possibilidade de desenvolvimento autônomo. Enquanto a esquerda brasileira não entender que a luta contra o cerco ao Irã é a mesma luta contra a carestia no Brasil, continuaremos trocando seis por meia dúzia em comentários de blog.
Pedro
26/04/2026
Pois é, Cíntia, mas realismo político pra quem? Pra eles lá, que tão jogando xadrez enquanto a gente aqui sente no bolso o preço do diesel subindo por causa dessa novela geopolítica. O Paquistão mediando é piada pronta: eles mesmos vivem às turras com a Índia e têm crise energética igual a nossa. Enquanto os diplomatas passeiam, o motorista de app paga a conta.
Cíntia Ribeiro
26/04/2026
Interessante ver como a diplomacia iraniana está fazendo um movimento clássico de realismo político: buscar contrapesos. O Paquistão, como mediador, é uma escolha curiosa — Islamabad mantém canais abertos com Washington e Riad ao mesmo tempo que tem laços históricos com Teerã. Já a visita a Moscou me parece o movimento mais óbvio: a Rússia precisa do Irã para sustentar sua influência no Oriente Médio, especialmente agora que a Turquia está mais assertiva. A pergunta que fica é se esse apoio diplomático se traduzirá em algo concreto ou se será apenas mais uma rodada de declarações vazias.
Paulo Gestor RJ
26/04/2026
Carlos, você tem razão sobre o efeito das sanções no povo iraniano, mas a questão aqui é de gestão de recursos. O Irã tem uma das maiores reservas de gás do mundo e não consegue transformar isso em desenvolvimento por causa de um modelo econômico ineficiente. Enquanto eles correm atrás de aliados para manter o regime, o Rio de Janeiro precisa de um governo que saiba administrar melhor o que já tem — ferrovias, metrô, portos — sem ficar sonhando com projetos faraônicos como metrô submerso na Baía de Guanabara sem estudo de viabilidade fiscal. Pragmatismo primeiro, política depois.
Carlos Oliveira
26/04/2026
Pois é, Nadia, você tem um ponto, mas acho que simplifica demais. O Irã não corre pra Moscou e Islamabad só por autoritarismo — corre porque os EUA tão há décadas sufocando o país com sanções que matam gente comum, não só regime. Enquanto isso, aqui no Brasil a gente sente no bolso o preço do diesel, e ninguém pergunta pro povo se quer pagar a conta dessa briga de gigantes.
Nadia Petrova
26/04/2026
Ricardo, você tocou no ponto exato: um Estado que vive de renda petrolífera e sufoca empreendedorismo não precisa de “inimigo externo” para justificar o autoritarismo — mas adora ter um. O Irã corre para Moscou e Islamabad porque sabe que, sem aliados, o regime teocrático desaba sozinho, com ou sem sanção americana.
Ricardo Menezes
26/04/2026
Marta, a senhora tem razão. Mas o problema não é só religião, é que o Irã é um Estado teocrático que sufoca a iniciativa privada e vive de petróleo estatal. Enquanto isso, o Brasil paga caro no diesel porque o governo brasileiro, seja de esquerda ou direita, nunca teve coragem de abrir o refino e acabar com o monopólio da Petrobras. Parasitismo estatal é igual em qualquer língua, seja em Teerã ou em Brasília.
João Batista
26/04/2026
Pois é, Rubens, o senhor tocou num ponto que poucos enxergam. O Irã é uma nação que vive sob jugo islâmico radical e persegue cristãos, mas a política externa dos EUA também não é exemplo de moral cristã. O que vemos é o jogo de poder entre nações ímpias, enquanto a verdadeira paz, que só vem de Cristo, é ignorada. O Brasil deveria pregar o Evangelho em vez de se meter nessa medição de força entre países que oprimem seus povos.
Marta
26/04/2026
João Batista, meu filho, com todo o respeito que tenho pela sua fé — e olha que sou católica praticante, vou à missa todo domingo aqui em Contagem —, mas esse papo de que o Irã é só “jugo islâmico radical” e que a solução é pregar o Evangelho ignora a história que a gente viveu. O Brasil não precisa virar pastor de nações; precisa retomar a política externa soberana que o Lula fez, quando sentava com Ahmadinejad e com o Obama ao mesmo tempo, sem precisar benzê-los. O Irã tem seus problemas graves com direitos humanos, sim, e a perseguição a cristãos é real e condenável, mas reduzir a geopolítica a uma guerra entre “ímpios” e “crentes” é cair na mesma armadilha dos fundamentalistas que a gente critica. Lembra quando os EUA derrubaram o Mossadegh em 53 só porque ele ousou nacionalizar o petróleo? Isso não foi pecado, foi imperialismo puro, e não adianta rezar terço que não muda o fato de que a CIA treinou a SAVAK pra torturar iraniano.
Você fala em “verdadeira paz que só vem de Cristo”, e eu concordo que a paz é um valor cristão central. Mas, meu filho, paz sem justiça social é hipocrisia. O mesmo Cristo que pregou o amor ao próximo também virou a mesa dos vendilhões do templo. O Brasil pregar o Evangelho enquanto vira quintal de base americana é o mesmo que os missionários faziam no Brasil Colônia: catequizar enquanto roubavam ouro. A política externa brasileira nunca foi sobre converter ninguém, foi sobre dialogar com todos — e foi assim que a gente conseguiu mediar a questão nuclear iraniana em 2010, junto com a Turquia, e evitar mais uma guerra no Oriente Médio. O Rubens ali lembrou bem: no governo Lula, o diesel baixava porque o Brasil não se curvava a sanção de ninguém. Isso é amor ao povo, não é pregação.
Agora, sobre o “jogo de poder entre nações ímpias”: você tem razão em dizer que EUA e Irã não são santos. Mas daí a achar que o Brasil deve se omitir e só orar é um erro. O Brasil tem 200 milhões de almas pra cuidar, e oração não põe arroz no prato do trabalhador. O que o Brasil precisa é de um governo que defenda os interesses do povo brasileiro, não que escolha lado numa guerra santa. O Irã tem petróleo, o Paquistão tem gás, a Rússia tem grãos — e o Brasil precisa negociar com todos, sem joelho no chão. Se o Lula estivesse no poder hoje, ele estaria ligando pro Araghchi e pro Putin ao mesmo tempo, e ainda mandando um abraço pro Biden, porque estadista não é padre, é pai de família que põe comida na mesa. No mais, João, continue na sua fé, mas não confunda devoção com política externa. O Evangelho manda amar o próximo, e amar o próximo é garantir que ele não morra de fome por causa de sanção de menino mal-educado em Washington.
Rubens O Pescador
26/04/2026
Pois é, Rodrigo, e o pior é que enquanto esses caras ficam nesse toma-lá-dá-cá de chancelaria, quem paga o pato é o povo trabalhador. Lá no meu sítio a gente via na época do Lula que quando o Brasil sentava pra conversar de igual pra igual com esses países, o preço do diesel baixava e a comida chegava na mesa do pobre. Esse papo de “mediador” é tudo teatro de poder, o que resolve mesmo é soberania e respeito entre as nações.
Rodrigo Meireles
26/04/2026
Mariana, você foi certeira. O Irã corre atrás de aliados porque sabe que, no fim das contas, cada um puxa a sardinha pro seu lado. Rússia vende petróleo iraniano com desconto e ainda negocia com Israel pelos bastidores. Paquistão então é piada: quer ser mediador enquanto aceita dólar americano e drone matando em solo deles. Diplomacia no Oriente Médio é jogo de pôquer, não de boa vontade.
Mariana Santos
26/04/2026
Luizinho, é isso mesmo. A “mediação” do Paquistão é uma farsa quando se lembra que o país abriga bases americanas e há décadas serve de ponte para os drones dos EUA bombardearrem o Baluchistão. Rússia e Irã são aliados táticos, mas Moscou já mostrou que negocia os interesses iranianos como moeda de troca com Washington sempre que lhe convém. O impasse nuclear só se resolve quando o Sul Global parar de aceitar o papel de coadjuvante e construir uma alternativa real à hegemonia do dólar e das sanções.
Luizinho 16
26/04/2026
Pois é, Cecília, e o pior é que esses mesmos países que “mediam” a crise são os que tão cheios de bases militares dos EUA no quintal. Paquistão e Rússia tão pouco se fodendo pro povo iraniano, tão só jogando o jogo deles. Enquanto isso, quem sofre é quem sempre sofre: o trabalhador que não tem culpa de nada.
Cecília Ramos
26/04/2026
Tiago, você tocou no ponto central. Sanção econômica é guerra, só que sem tanque e sem bomba, mas com o mesmo resultado: gente morrendo por falta de medicamento e comida. E o pior é que a mídia hegemônica vende isso como “pressão diplomática”. O Irã não é santo, longe disso, mas enquanto a gente não questionar de verdade quem lucra com esse isolamento, vamos continuar repetindo o discurso do império.
Tiago Mendes
26/04/2026
José dos Santos, você foi direto ao ponto. Enquanto a gente discute se o Irã é “eixo do mal” ou não, o povo iraniano comum paga a conta com remédio faltando e inflação nas alturas. Sanção econômica é arma de destruição em massa disfarçada de diplomacia. O que me entristece como cristão é ver o silêncio de muitas igrejas sobre isso — parece que o “amai ao próximo” tem exceção quando o próximo é muçulmano.
José dos Santos
26/04/2026
Pois é, Renata, você levantou um ponto que muita gente ignora. Sanção não derruba governo, só quebra o povo. Enquanto isso, o cara que tá no poder continua andando de jatinho e a dona de casa que não consegue comprar remédio. O Irã erra em tanta coisa, mas aí fica difícil defender que essa pressão toda é “pelos direitos humanos” quando o resultado prático é mais sofrimento de quem já não tem voz.
Renata Oliveira
26/04/2026
Maria Silva, você tocou num ponto que me faz pensar como cristã: será que o Ocidente que se diz defensor dos direitos humanos não está, na prática, jogando as mulheres iranianas no colo de um regime ainda mais radical? Sanções que sufocam a população civil nunca são ferramentas éticas — e aí fica o impasse moral que ninguém quer enfrentar.
Maria Silva
26/04/2026
Julia Andrade, você trouxe uma perspectiva importante. Essa dimensão de gênero e raça é realmente pouco discutida quando se fala de sanções e diplomacia no Oriente Médio. As mulheres iranianas sofrem duplamente com o autoritarismo interno e com o isolamento internacional que agrava a crise econômica. É bom ver alguém lembrando que geopolítica não é só jogo de xadrez entre homens de terno.
Julia Andrade
26/04/2026
Mariana e Bia, vocês duas fizeram um trabalho excelente ao desmontar a armadilha retórica do “eixo do mal”. Mas eu quero puxar a discussão para um lugar que me parece ainda mais invisível nesse debate: a dimensão de gênero e raça que atravessa essa geopolítica toda. Não é coincidência que o Irã, um país de maioria persa com uma história milenar de resistência anti-imperialista, seja tratado como “irracional” e “fanático” enquanto Israel, um Estado colonial de assentamento, é vendido como “a única democracia do Oriente Médio”. Essa dicotomia não é inocente — ela opera dentro de uma lógica orientalista que feminiza e infantiliza o “outro” muçulmano, enquanto masculiniza e racionaliza o poder ocidental e seus aliados regionais.
O que me incomoda profundamente é como, mesmo em comentários progressistas como os de vocês, a gente ainda trata a diplomacia iraniana como uma espécie de “jogo de xadrez” frio e calculista, como se o Irã estivesse apenas reagindo a pressões externas. Claro que está, mas há uma dimensão interna que a esquerda brasileira frequentemente ignora: o Irã é um dos países com maior taxa de mulheres em cursos de engenharia e ciências no mundo, e ao mesmo tempo tem uma das legislações mais repressivas contra a liberdade feminina. Como feminista, não posso romantizar o regime iraniano só porque ele enfrenta os EUA. A luta das mulheres iranianas — de Mahsa Amini à greve geral de 2022 — é contra um sistema que usa o discurso anti-imperialista como escudo para manter o patriarcado teocrático. Isso não invalida a crítica ao imperialismo, mas exige que a gente olhe para o Irã com a mesma lupa que usamos para criticar o Brasil: um Estado que oprime internamente enquanto negocia externamente.
E é aí que o comentário do Francisco acerta em cheio ao lembrar de 1953, mas falta um passo: a Revolução Iraniana de 1979 não foi apenas uma reação ao Ocidente, foi também uma disputa interna sobre que tipo de modernidade o Irã teria. As mulheres iranianas estavam na linha de frente da revolução e foram as primeiras traídas pelo novo regime. Hoje, quando vemos o governo iraniano se aproximar do Paquistão e da Rússia, não podemos esquecer que esses dois países também têm históricos brutais contra mulheres e minorias étnicas — o Paquistão com suas leis de blasfêmia e os assassinatos de “honra”, a Rússia com a guerra na Chechênia e a perseguição a ativistas feministas. Uma aliança entre três Estados que compartilham um profundo déficit democrático de gênero não é uma aliança progressista, por mais que se vista de “resistência anti-imperialista”.
Dito isso, não estou fazendo o jogo do Rick e seu “livre mercado mágico”. O problema não é o Irã ser estatista, é o Irã ser um Estado teocrático que usa o petróleo para financiar tanto a repressão interna quanto a projeção regional. A solução não é transformar o Irã numa Singapura (que, aliás, também tem suas próprias violências estruturais), mas sim apoiar as forças democráticas e feministas iranianas que lutam por um país que seja ao mesmo tempo soberano e livre para suas mulheres, suas minorias étnicas e religiosas. Enquanto a esquerda internacional não fizer essa autocrítica, a gente vai continuar repetindo o erro de apoiar “o inimigo do meu inimigo” sem perguntar quem está sendo pisoteado dentro desse “inimigo”. A diplomacia iraniana pode ser habilidosa, mas não podemos esquecer que ela negocia com as mesmas mãos que sufocam o movimento Mulher, Vida, Liberdade.
Rick Ancap
26/04/2026
Cecília, a real é que a culpa é do Estado iraniano mesmo, que gasta bilhões financiando milícia no Oriente Médio em vez de criar um ambiente de livre mercado pra população. Se o Irã fosse uma Singapura com petróleo, ninguém tava ligando pra sanção. O problema é que eles escolheram o caminho do estatismo e da teocracia, aí depois choram de “imperialismo”.
Francisco de Assis
26/04/2026
Rick, tu tá falando como se o Irã tivesse escolhido ser bombardeado e sufocado por sanção desde 1953, quando os EUA derrubaram o Mossadegh porque ele ousou nacionalizar o petróleo. Não é “estatismo”, é resistência — e enquanto a gente não entender que o “livre mercado” deles sempre veio na ponta da bota da CIA, esse papo de culpar a vítima é só repetir manual de imperialista.
Bia Carioca
26/04/2026
Mariana, você foi cirúrgica ao desmontar essa narrativa de “eixo do mal”. O que me irrita é ver gente como o Carlos usando o mesmo manual da Guerra ao Terror pra justificar qualquer intervenção ocidental. O Irã está correndo atrás de apoio porque os EUA apertam o cerco econômico há décadas — e o Paquistão, mesmo com seus próprios problemas, pelo menos tenta mediar. Mas claro, pra quem acha que política externa se resume a “nós contra eles”, qualquer movimento diplomático é tratado como conspiração.
Carlos Meirelles
26/04/2026
Mais um capítulo da novela “como o eixo do mal se articula para sugar o contribuinte ocidental”. Enquanto isso, o Brasil importa gasolina subsidiada da Rússia e o governo finge que é uma grande vitória diplomática. Se o Irã e o Paquistão são tão bons mediadores, por que não mediam a própria conta de luz deles?
Mariana Oliveira
26/04/2026
Carlos, você tocou num ponto que merece um aprofundamento maior do que o deboche permite, e eu vou entrar nessa porque acho que a discussão merece sair do lugar-comum do “eixo do mal”. Primeiro, a expressão “eixo do mal” não é um conceito analítico, é um slogan da era Bush que serviu para justificar invasões e bombardeios seletivos — o mesmo Bush que invadiu o Iraque com base em mentiras sobre armas de destruição em massa, matando centenas de milhares de civis. Usar esse termo hoje, sem contextualizar, é repetir acriticamente a propaganda do Departamento de Estado americano, que trata qualquer país que desafie a hegemonia dos EUA como “inimigo da humanidade”. Isso não significa defender regimes autoritários — longe disso — mas sim recusar a simplificação maniqueísta que transforma geopolítica em filme de super-herói.
Sobre a “conta de luz” do Irã e do Paquistão: você está misturando alhos com bugalhos de forma deliberada. O Irã sofre sanções econômicas multilaterais há décadas, que afetam diretamente a capacidade do país de importar tecnologia para geração de energia, refino de petróleo e manutenção de infraestrutura civil. Não é “incompetência” iraniana — é um bloqueio econômico que a comunidade internacional, liderada pelos EUA, impõe ao país justamente para sufocar sua economia e gerar descontentamento popular. O Paquistão, por sua vez, vive uma crise energética crônica agravada por dívidas externas, corrupção interna e um modelo de desenvolvimento dependente de combustíveis fósseis importados — problemas que não se resolvem com mediação diplomática, mas com reformas estruturais profundas. Comparar a capacidade de mediação internacional de um país com a eficiência do seu setor elétrico é como perguntar por que o Brasil, que tem apagões históricos, não consegue mediar a paz no Oriente Médio. Não faz sentido.
Agora, sobre a importação de gasolina russa pelo Brasil: você tem razão em questionar a narrativa de “vitória diplomática”, mas falta contexto. O Brasil importa derivados de petróleo da Rússia porque o mercado global de commodities funciona assim — compramos de quem oferece o melhor preço no momento, e a Rússia, sob sanções, tem vendido com descontos para não perder market share. Isso não é “subsídio” russo ao Brasil, é uma estratégia comercial russa para escoar excedente. O problema real não é a importação em si, mas a falta de uma política energética soberana que reduza nossa dependência externa de derivados — e isso é culpa de sucessivos governos brasileiros, não de uma conspiração do “eixo do mal”. Se você quer criticar a dependência do Brasil, critique a Petrobras que refina menos do que consome, critique a falta de investimento em biocombustíveis e energia renovável, critique a política de preços atrelada ao dólar. Agora, transformar uma transação comercial corriqueira em prova de alinhamento ideológico com regimes autoritários é um salto lógico que só serve para alimentar o pânico moral de quem acha que todo aperto de mão entre países é uma ameaça à civilização ocidental.
No fim das contas, Carlos, acho que a pergunta que você deveria fazer não é “por que o Irã não resolve a conta de luz”, mas sim “por que o Brasil, que se diz país pacífico e mediador, continua importando a lógica belicista dos EUA ao classificar países como ‘eixo do mal’ sem questionar os interesses por trás dessa classificação?”. A geopolítica é mais complexa do que um meme de WhatsApp, e reduzir a articulação entre Irã, Paquistão e Rússia a uma “novela” é um desserviço à compreensão do mundo real — onde sanções matam, onde guerras são travadas por recursos, e onde a diplomacia, por mais imperfeita que seja, ainda é o único antídoto contra o próximo bombardeio.
Zé do Povo
26/04/2026
ISSO É O QUE ACONTECE QUANDO O MUNDO VIROU UMA FESTA DO COMUNISMO! 😡 IRÃ E RÚSSIA JUNTOS? SÓ FALTA CONVIDAR O LULA PRA DANÇAR! VOLTA VALORES TRADICIONAIS E ACORDA BRASIL!
Cecília Silva
26/04/2026
Zé do Povo, você acha que o mundo virou uma festa do comunismo porque dois países que sofrem sanção dos EUA resolveram se falar? O problema é que pra quem vive na favela, a “volta dos valores tradicionais” nunca significou emprego, saúde ou segurança — só significa mais polícia na nossa porta e menos direitos. Enquanto você xinga Lula no sofá, o povo iraniano e russo morre por causa de sanção que o seu “Ocidente” impõe. Acorda você.
Evelyn Olavo
26/04/2026
Luan Silva, “aliados naturais contra o imperialismo americano” é discurso bonito, mas na prática o Irã enforca manifestantes e a Rússia invade vizinhos. Se isso é modelo pro Brasil, melhor continuarmos sendo a piada que somos.
Fernanda Oliveira
26/04/2026
Evelyn, você tem razão em não romantizar regime nenhum, mas aí que tá: a esquerda brasileira precisa parar de achar que todo inimigo do EUA é automaticamente amigo do povo — a gente pode denunciar o imperialismo e criticar o autoritarismo iraniano ao mesmo tempo, isso não é contradição, é coerência.
Luan Silva
26/04/2026
Sargento Bruno, você é muito inocente. Irã e Rússia são aliados naturais contra o imperialismo americano, e o Brasil deveria aprender com eles em vez de ficar de joelhos pros EUA. Faz o L nunca mais.
Mariana Lopes
26/04/2026
Alice T., você tocou no ponto crucial: o que é pragmatismo e o que é cumplicidade? Não acho que o Irã esteja errado em buscar aliados — qualquer país faria o mesmo. O problema é quando a esquerda brasileira romantiza regimes que não hesitariam em prender um sindicalista ou calar uma jornalista. Apoio diplomático não precisa vir com apologia a autocracia.
Gabriel Teen
26/04/2026
RodrigoRedPill falou tudo e ainda assim não falou nada, parece o Lula discursando sobre paz mundial enquanto o PT faz aliança com quem bate em gay.
Rodrigo RedPill
26/04/2026
Ah, lá vêm os moralistas de plantão achando que podem dar lição de diplomacia internacional. Enquanto vocês ficam nessa conversa fiada de “teoria crítica” e “Evangelho”, o Irã tá expandindo alianças estratégicas com Paquistão e Rússia — países que sabem fazer jogo geopolítico de verdade. O Brasil devia era aprender com eles em vez de ficar nessa palhaçada de “diálogo” com regimes que claramente tão pouco se lixando pra direitos humanos. Mas é isso, cada um colhe o que planta: enquanto a esquerda chora, os países sérios tão movimentando suas peças no tabuleiro.
Laura Silva
26/04/2026
Rodrigo, seu comentário tem o mérito de reconhecer que existe um jogo geopolítico em andamento, o que já é um avanço em relação à visão moralista e ingênua do Sargento Bruno. Mas você cai no erro oposto: transformar a realpolitik em um fetiche, como se a capacidade de mover peças no tabuleiro fosse um fim em si mesma, descolada de qualquer avaliação sobre os custos humanos e sociais dessas alianças. Não se trata de “chorar” ou de ser ingênuo — trata-se de perguntar: a que interesses serve essa movimentação? O Irã e a Rússia não estão fazendo “jogo geopolítico de verdade” por esporte; estão reagindo ao cerco imperialista que os sufoca há décadas. O Paquistão, por sua vez, é um Estado que nasceu da partilha colonial e vive até hoje sob a tutela militar-pastoral de uma elite que joga com o fundamentalismo como instrumento de controle interno e barganha externa. Chamar isso de “país sério” é ignorar que a “seriedade” deles é a seriedade do capitalismo dependente e armado até os dentes.
Você diz que o Brasil deveria “aprender” com eles. Aprender o quê, exatamente? A trocar autonomia por alinhamento automático a potências que também têm seus próprios projetos de hegemonia? O Irã e a Rússia não são “alternativas” ao Ocidente — são potências que disputam fatias do mesmo sistema-mundo capitalista. A diferença é que, enquanto os EUA usam a OTAN e as sanções, Teerã e Moscou usam o xadrez da OPEP, o gás e as rotas da seda. O resultado, para os povos, é o mesmo: mais miséria, mais guerra, mais exploração. O Brasil não precisa aprender a ser mais um jogador nesse cassino. Precisa, isso sim, entender que o único jogo que vale a pena é o da ruptura com a lógica imperialista — o que significa não se submeter nem a Washington, nem a Pequim, nem a Moscou, mas construir uma política externa soberana que priorize a integração sul-americana e a solidariedade entre os povos oprimidos.
E por fim, Rodrigo, essa sua obsessão em chamar os outros de “moralistas” enquanto você mesmo opera com uma moralidade de fundo — a de que “países sérios” são os que têm tanques e bombas — revela o quanto o seu discurso de “realismo” é, na verdade, profundamente ideológico. Você naturaliza a guerra e a coerção como se fossem a essência da política, quando na verdade são apenas a forma mais brutal que o capitalismo encontrou para se reproduzir. O “jogo geopolítico” que você admira é o mesmo que já matou milhões no Vietnã, no Iraque, na Síria e na Ucrânia. Se a esquerda “chora”, é porque ainda tem a dignidade de não tratar cadáveres como estatísticas de um tabuleiro. O dia em que a esquerda parar de chorar e começar a achar bonito esse jogo, aí sim estaremos perdidos.
Alice T.
26/04/2026
Rodrigo, adoro como você chama os outros de moralistas enquanto aplaude alianças com países que executam minorias e sufocam a imprensa — o cinismo é a verdadeira religião do “jogo geopolítico”. Se o Brasil virar piada por tentar diálogo, o que dirá de quem bajula regimes que enforcam adolescentes por blasfêmia?
João Silva
26/04/2026
Rodrigo, você descreveu direitinho o jogo — mas confundiu realpolitik com ausência de princípios. O Irã está ampliando alianças justamente porque entende que isolamento é suicídio, e o erro do Brasil não é buscar diálogo, é achar que pode negociar sem ter poder de barganha concreto.
Sargento Bruno
26/04/2026
Enquanto isso, o Brasil faz malabarismo diplomático com regimes que desrespeitam direitos humanos básicos. O Irã já mostrou a que veio — apoiar terrorismo e enriquecer urânio às escondidas. E agora o Paquistão, que abriga talibãs, serve de “mediador”? Só lamento ver nosso Itamaraty se meter nesse vespeiro em vez de defender claramente os interesses do Ocidente.
Samara Oliveira
26/04/2026
Sargento Bruno, com todo respeito, mas essa visão de “interesses do Ocidente” esquece que o Evangelho nos manda buscar a paz, não alinhamento automático com potências que também têm sangue nas mãos. O Itamaraty pode estar errando, mas condenar o diálogo em si é fechar portas que Deus ainda pode usar para evitar mais guerras e sofrimento de inocentes.
Cristina Rocha
26/04/2026
Sargento Bruno, sua análise reproduz exatamente o que a teoria crítica chama de “universalismo abstrato do Ocidente” — aquela crença de que os valores liberais e a política externa das potências centrais seriam neutros e universais, quando na verdade servem a interesses geopolíticos e econômicos muito concretos. Você fala em “defender claramente os interesses do Ocidente”, mas isso pressupõe que o Brasil, como nação periférica e dependente, deva subordinar sua política externa aos ditames de Washington e Bruxelas. Isso é exatamente o que a teoria da dependência e os estudos pós-coloniais denunciam há décadas: a reprodução de uma lógica colonial onde o Sul global serve de capacho para os interesses do Norte. O Irã comete violações de direitos humanos? Sem dúvida. Mas e a Arábia Saudita, aliada histórica dos EUA, que bombardeia o Iêmen e decapita dissidentes? E Israel, que mantém um regime de apartheid contra os palestinos com apoio incondicional americano? O problema não é condenar violações — é a seletividade hipócrita com que o “Ocidente” as julga.
Você menciona o enriquecimento de urânio iraniano como se fosse uma ameaça existencial, mas esquece que o Irã assinou o TNP e que a AIEA jamais encontrou provas de que o programa tenha desviado para fins militares após 2003. Enquanto isso, os EUA e o Reino Unido acumulam arsenais nucleares, e Israel possui entre 80 e 90 ogivas sem nunca ter assinado o TNP — e ninguém chama isso de “terrorismo”. A narrativa de que o Irã “apoia terrorismo” é o mesmo discurso que justificou a invasão do Iraque em 2003 com base em mentiras sobre armas de destruição em massa. O Paquistão, por sua vez, é um Estado nuclear que abriga o talibã afegão? Sim, mas também foi aliado crucial dos EUA na “guerra ao terror” por décadas, recebendo bilhões em ajuda militar. A hipocrisia é estrutural.
O Itamaraty, ao buscar diálogo com Irã e Paquistão, não está fazendo “malabarismo” — está exercendo o que a diplomacia brasileira sempre fez de melhor desde Rio Branco: autonomia relativa em um sistema internacional assimétrico. O Brasil não tem exército nuclear nem poder de veto na ONU; sua única moeda de troca é a capacidade de falar com todos os lados. Condenar o diálogo em si é um erro teórico grave. Como diria Edward Said, o orientalismo que reduz o Irã a “regime terrorista” e o Paquistão a “abrigo de talibãs” é a mesma lógica que justificou o colonialismo. Se o Brasil se alinhar cegamente ao Ocidente, vira mais uma peça no tabuleiro do império — e perde qualquer chance de construir uma ordem multipolar que, ao menos em tese, poderia ser mais justa para o Sul global. A questão não é se o Irã ou o Paquistão são regimes exemplares — não são — mas se a política externa brasileira deve ser subordinada ou autônoma. Prefiro uma diplomacia incômoda que tenta construir pontes a um alinhamento automático que só serve aos interesses de quem já manda no mundo.