Em 1917, o industrial pernambucano Delmiro Gouveia tombou alvejado em sua fazenda no sertão alagoano. Construíra ali, no meio do mato, uma das maiores fábricas de fios do Brasil. Concorria de igual para igual com a Machine Cotton, a multinacional inglesa que mandava no setor de linhas. Ninguém nunca foi condenado pelo crime. A desconfiança ficou. Em 1977, Rogério Sganzerla rodou um filme com o título da pergunta que o país jamais respondeu. Quem matou Delmiro Gouveia? Moacir Medeiros de Sant’Ana escreveu um livro com a mesma indagação. A autoria virou parte da lenda.
A morte política de Jorge Messias é caso bem mais simples. O voto foi secreto, mas o resultado contou a história sozinho.
O cara errado, no momento errado, com o Senado errado
O Planalto sabia. Não havia votos para confirmar Messias na cadeira do STF. O governo conhecia a aritmética desde o primeiro dia. A conversa de que existia um acordo costurado com o centrão para entregar a confirmação sempre foi um delírio polido, repetido em entrevista para sustentar a fachada.
E a razão é estrutural. O Senado de hoje opera com uma autonomia financeira em relação ao Executivo que não existiu em nenhum momento da história republicana brasileira. As emendas parlamentares individuais e as emendas de bancada viraram obrigatórias. O Planalto perdeu o poder de bloquear, de liberar ou de condicionar. Cada senador movimenta hoje mais dinheiro em emendas do que ministérios inteiros executam em seus programas estruturantes. Em ano eleitoral, num estado onde o governo Lula é rejeitado pela base, votar com o Planalto não rende voto, não rende emenda, não rende nada. O custo é certo. O benefício é zero.
Ninguém podia fazer o milagre que o governo pediu.
A votação que era um recado
O bolsonarismo tem um tema. Não é fome, não é educação, não é saúde pública. É o STF. É a anistia. É o controle da Suprema Corte por dentro do Senado.
Os 34 senadores do PL e satélites ideológicos votaram com esse norte. E a indicação de Messias caiu na semana errada por uma razão decisiva. A derrubada do veto à anistia entrava na pauta no dia seguinte.
Derrotar Messias na quarta era avisar o STF na quinta. Não derrubem o veto. Não declarem inconstitucional. Não passem por cima do que foi decidido aqui. O recado tinha endereço certo.
A conta da derrota
A matemática é de aço. Os 34 senadores do bloco bolsonarista, somados a 8 senadores do centro conservador eleitos em estados onde a base é antipetista, fecham a conta dos 42 votos pela rejeição. Os 34 votos a favor representam o piso da base aliada. Era o que tinha. Era o que dava.
Os 8 nomes do centro que selaram a derrota seguiram a lógica que rege hoje o Senado. Em estado de base conservadora, com emenda obrigatória já garantida na conta corrente, o senador olha para o eleitor de 2026 e vota contra o Planalto. A conta fecha sozinha. Não há margem de articulação que altere esse cálculo.
Cabra marcado para morrer
Não é mistério quem matou Jorge Messias. Foram 42 senadores que rabiscaram o nome na cédula. Mas o autor intelectual mora no andar de cima do Congresso, na cadeira que sonha com o controle do Supremo. Messias caiu não pelos méritos ou deméritos do nome. Caiu porque era a peça acessível num tabuleiro maior. O Senado conservador queria um troféu antes da votação da anistia. Conseguiu.
Para usar outra referência do cinema brasileiro, Jorge Messias era um cabra marcado para morrer no instante em que seu nome foi enviado ao Senado. Eduardo Coutinho lançou em 1984 o documentário com esse título, sobre João Pedro Teixeira, líder camponês da Paraíba assassinado em 1962. O filme se tornou um dos maiores clássicos do cinema documental brasileiro. A expressão grudou na cultura política do país justamente para nomear a fatalidade que se anuncia antes do crime.
O governo entrou na briga sem reconhecer essa fatalidade. Apostou em acordo de bastidor que nenhum operador honesto poderia entregar. Quem ignora a aritmética básica do novo Senado, esse Senado autônomo que a obrigatoriedade das emendas esculpiu, costuma sair como saiu o Planalto nesta semana. Com um indicado morto e um recado entregue.
O recado e seu destinatário
O recado tem destinatário, e ele precisa ser nomeado. Hoje, no dia seguinte à rejeição de Messias, o Congresso vota a derrubada do veto presidencial à anistia. Para a base bolsonarista, a anistia é a bandeira número um, a agenda existencial, a razão de mobilização. Está nas redes, está na rua, está no telefone dos gabinetes dos senadores. A base lulista, no momento, ocupa outras pautas, dispersa, sem o mesmo grau de coesão e foco. A pressão sobre o Senado é assimétrica.
E ela tem alvo final único, o Supremo Tribunal Federal. O Senado conservador quer demonstrar duas coisas em sequência. Primeiro, que tem músculo para derrubar o veto e impor a anistia. Depois, que tem disposição política para retaliar qualquer ministro do STF que se mova no sentido de declarar essa anistia inconstitucional. A rejeição de Jorge Messias foi a primeira sílaba dessa frase.



Tiago Silva
02/05/2026
Ultra Direita (PL + Novo) e Centrão/Direitão (União Brasil + PP + Republicanos + MDB + Podemos + Cidadania + Avante + 1/2 do PSD) apenas votaram com suas convicções de Anti-PT.
(Houve alguns do Centrão/Direitão que votaram com o governo, mas apenas um cálculo eleitoral por estarem em Estados do Nordeste que tem muita influência de Lula, assim como alguns parlamentares do PDT e PSB votaram contra o governo… já que estão em Estados de influência dos Bolsonaros, além de suas convicções elitistas).
A votação sobre a Sosimetria logo em seguida foi bem elucidativa nesse sentido.
O que se espera do governo nesse momento é que de um Limão se faça uma Limonada… e finalmente indique uma Mulher Negra de Esquerda para o STF, além de começar a se inserir com o Centrão/Direitão que só faz afundar a imagem de quem o abraça.
Ana Costa
01/05/2026
História fascinante, mas o título me parece um clickbait anacrônico — o caso é de 1917 e todo mundo sabe que a suspeita sempre recaiu sobre a Machine Cotton. Porém, o mais grave é que, passado mais de um século, o crime contra Delmiro Gouveia segue impune, o que só reforça a tese de que, no Brasil, a justiça sempre teve dois pesos e duas medidas quando o interesse de multinacionais está em jogo. Dados históricos mostram que a industrialização nacional foi sabotada sistematicamente, e esse episódio é uma peça-chave desse quebra-cabeça.
João Carvalho
01/05/2026
Ana, você está certa: a justiça no Brasil sempre foi assim, protege os tubarões e esmaga os pequenos. Esse crime até hoje sem solução é a prova de que multinacional pode fazer o que quiser por aqui.
Lucas Andrade
01/05/2026
Delmiro foi eliminado porque ousou desafiar o monopólio inglês num Brasil que ainda era quintal do império. A bala que matou ele veio do mesmo cano que sempre calou vozes periféricas — a história oficial prefere o esquecimento porque o crime, na verdade, foi contra a soberania popular.
Pedro
01/05/2026
Pois é, Lucas, e a gasolina hoje tá quase 7 reais. História é igual preço de combustível: sempre tem um cartel escondido por trás.
João Augusto
01/05/2026
O assassinato de Delmiro Gouveia é um daqueles casos exemplares que mostram como a violência de classe sempre foi o recurso final do capital estrangeiro contra qualquer tentativa de desenvolvimento nacional autônomo. A Machine Cotton não precisou de mandar matar pessoalmente — o pistoleiro foi apenas a ponta visível de um sistema que prefere eliminar um concorrente incômodo a enfrentá-lo no mercado. Walter Benjamin já nos alertava que todo documento de civilização é também um documento de barbárie.
Pedro Silva
01/05/2026
Pois é, mais um crime que ficou impune nesse país. O tanto de história mal contada que tem por aí, envolvendo político grande e multinacional, não tá no gibi. Até hoje ninguém pagou por isso, e duvido que vão descobrir algo novo agora.
Silvia Ramos
01/05/2026
Pois é, Pedro, o que me entristece é ver como o pecado e a corrupção dominam este mundo, enquanto muitos viram os olhos para o que é certo. A Bíblia já diz que quem anda na verdade será justificado, mas quem ama a mentira colhe o que planta.
Marina Costa
01/05/2026
Amém, irmã Silvia! Infelizmente o mundo jaz no maligno, e os que defendem a agenda esquerdista preferem as trevas à luz. Que possamos ser sal e luz nesta geração corrompida.
Ronaldo Silva
30/04/2026
Pois é, mais um crime que ficou impune nesse Brasil. O tanto de história que a gente ouve de gente grande que se deu mal por enfrentar multinacional… Se fosse hoje, iam falar que era “fake news” e esquecer. Até quando vamos deixar esses poderosos mandarem e desmandarem sem pagar nada?
Luan Silva
30/04/2026
Para de choramingar, Ronaldo, e vai trabalhar que Brasil precisa de menos vitimismo e mais produção.
Sargento Bruno
30/04/2026
Mais um caso de impunidade que envergonha este país. Delmiro Gouveia foi um patriota que enfrentou o capital estrangeiro e pagou com a vida. Enquanto a esquerda aplaude a Machine Cotton, a história mostra que sempre foi guerra contra o Brasil.
Ana Rodrigues
30/04/2026
Sargento, aqui é o motorista de aplicativo. Essa história de guerra contra o Brasil é o que a gente vê todo dia no trânsito: uns querendo passar na frente dos outros. Agora, falar de impunidade, me diga uma coisa: cadê a multa pra quem anda na faixa exclusiva de ônibus? Isso sim me tira do sério.
João Batista Alves
30/04/2026
Mais um caso onde o poder econômico e a ganância internacional silenciaram a justiça. Delmiro Gouveia foi um homem que, com seu trabalho e visão, desafiou os interesses estrangeiros e pagou com a vida. Fica claro que, desde aquela época, os valores cristãos de honestidade e luta pelo povo são atacados pelos que só pensam no lucro, sem temor a Deus.
Tonho Patriota
30/04/2026
FAZ O L! Isso aí foi o PT que mandou matar, igual fizeram com o Celso Daniel, e a grande mídia comunista esconde até hoje!
Marina Silva
30/04/2026
Vai tomar no cu, Tonho, sua teoria da conspiração de botequim não apaga o fascismo que você defende.
Rodrigo RedPill
30/04/2026
Amigão, você é o tipo de pessoa que acredita em teoria da conspiração porque não consegue entender que o verdadeiro crime é a própria incompetência financeira do brasileiro médio. Enquanto você perde tempo com isso, eu tô aqui estudando criptomoedas e fazendo day trade pra ficar rico. Fica na sua bolha aí, loser.
Letícia Fernandes
30/04/2026
A morte de Delmiro Gouveia, em 1917, é um desses episódios que a historiografia oficial trata como “mistério insolúvel”, mas que para qualquer um que tenha o mínimo de formação materialista histórica se revela como um crime perfeitamente lógico dentro da engrenagem do capitalismo imperialista. O industrial pernambucano não foi morto por uma disputa pessoal ou por vingança de coronéis locais; ele foi executado por ousar desafiar a Machine Cotton, a multinacional inglesa que detinha o monopólio do setor de linhas no Brasil. O que está em jogo aqui não é a psique de um assassino, mas a violência estrutural de uma classe que não tolera concorrência quando seus lucros são ameaçados. A impunidade do crime, com zero condenados, é a prova cabal de que o Estado brasileiro, já na Primeira República, funcionava como comitê executivo da burguesia internacional, protegendo os interesses do capital estrangeiro acima de qualquer vida nacional.
O que me causa uma tristeza profunda, quase clínica, é ver comentaristas de direita repetindo o bordão de que “isso é coisa do passado” ou que “o Brasil sempre foi corrupto”. Eles olham para 1917 e enxergam um acidente de percurso, um desvio moral de alguns indivíduos maus. Não conseguem, por limitação teórica, enxergar que o assassinato de Delmiro Gouveia é a mesma lógica que, cem anos depois, leva à precarização do trabalho, à desindustrialização e à entrega do nosso parque produtivo para o capital estrangeiro. A Machine Cotton de hoje tem outros nomes, mas a função é a mesma: extrair mais-valia, eliminar a concorrência nacional e manter o Brasil na condição de exportador de commodities. Quando um liberal defende “abertura de mercado” sem proteção à indústria nacional, ele está, sem saber, assinando o atestado de óbito de futuros Delmiros.
É patético ver a direita tratar esse caso como “curiosidade histórica” ou “crime não solucionado digno de série da Netflix”. Não, meus caros. Isso é a materialização da luta de classes no Brasil profundo. Delmiro foi morto porque representava uma burguesia nacional que ousava competir, e isso é intolerável para o capital monopolista. Enquanto a esquerda não resgatar figuras como ele — não como mártires românticos, mas como exemplos da violência econômica que estrutura nossa sociedade —, continuaremos a repetir o ciclo. O sertão alagoano não é um palco de folclore; é o laboratório onde o imperialismo ensaia suas execuções. Fica a pergunta: quantos Delmiros foram mortos nos últimos cem anos sem que sequer soubéssemos seus nomes?
Carlos Menezes
30/04/2026
Letícia, você faz uma análise consistente sobre a lógica do capital estrangeiro, mas acho que reduzir o Estado brasileiro da Primeira República a mero “comitê executivo” da burguesia internacional simplifica demais um período cheio de contradições e disputas internas entre oligarquias regionais. Será que a impunidade do crime não reflete também a fragilidade institucional de um país que mal tinha saído do Império, em vez de provar uma tese tão fechada?
Maria Antonia
30/04/2026
Letícia, seu teatro de conspiração é digno de novela das nove, mas a verdade é que Delmiro foi vítima de disputa local por poder e terra, não de um complô do imperialismo têxtil. O Estado falhou em proteger a propriedade privada, sim, mas isso não valida seu enredo marxista de que todo empresário bem-sucedido é mártir da luta de classes.
Padre Antônio Rocha
30/04/2026
Mais um caso que ficará impune, como tantos outros neste Brasil que perdeu o temor a Deus. Delmiro Gouveia foi um homem que ousou enfrentar os poderosos e pagou com a vida. Enquanto a justiça dos homens falha, a justiça divina não dorme.
Luiz Augusto
30/04/2026
Padre Antônio, respeito sua fé, mas a justiça divina não substitui a justiça terrena que o Estado de Direito deve garantir. O problema não é falta de temor a Deus, é a impunidade alimentada por um sistema penal leniente e uma esquerda que trata bandido como vítima.
Carlos Meirelles
30/04/2026
Mais um caso clássico de empreendedor que ousou competir com o establishment e pagou o preço. Enquanto o Estado brasileiro continuar sendo capturado por interesses estrangeiros e burocratas, histórias como a do Delmiro vão se repetir. Cadê a investigação séria? Impunidade que vira regra.
Julia Andrade
30/04/2026
Carlos, seu comentário toca num ponto que realmente merece ser destrinchado com cuidado, mas acho que a lente que você escolheu — a do “empreendedor contra o establishment” — acaba simplificando demais uma trama muito mais complexa e, ouso dizer, estrutural. Delmiro Gouveia não foi morto apenas porque ousou competir; ele foi morto porque desafiou as hierarquias de poder numa sociedade que ainda não havia resolvido suas contradições entre modernização econômica e arcaísmo político. Quando você reduz isso a “interesses estrangeiros e burocratas”, corre o risco de apagar o fato de que o capital estrangeiro, naquele contexto, operava em conluio com oligarquias locais perfeitamente brasileiras. A captura do Estado não é um acidente de percurso, Carlos — é um projeto histórico que articula elites econômicas nacionais e transnacionais, e Delmiro foi um nó que elas precisavam desatar. A pergunta “cadê a investigação séria?” é justa, mas ela precisa vir acompanhada de outra: quem, afinal, tinha poder para investigar e punir na Primeira República, quando o voto de cabresto e o coronelismo eram a regra?
A impunidade que você denuncia é real, mas ela não é um desvio do sistema — ela é o sistema operando em sua plenitude. O problema não é que o Estado brasileiro seja “capturado por interesses estrangeiros” como se isso fosse uma anomalia; o problema é que o Estado brasileiro foi fundado como máquina de mediação entre frações de classe que nunca precisaram prestar contas à maioria da população. Delmiro incomodou porque ele era um capitalista periférico tentando furar o bloqueio de um capitalismo central que já tinha seus representantes locais bem acomodados. A diferença entre ele e os “burocratas” que você critica é que os burocratas, muitas vezes, são apenas funcionários de um jogo que não criaram. O que me parece ausente na sua análise é a dimensão racial e regional dessa violência: Delmiro era nordestino, deslocado, e sua indústria ameaçava não só concorrentes, mas toda uma lógica de subordinação econômica do Norte/Nordeste ao Sudeste. Não foi um “empreendedor” genérico que morreu — foi um homem cujo projeto de desenvolvimento autônomo para o sertão foi visto como afronta.
Você fala em “ousadia contra o establishment”, e eu concordo que há uma narrativa heroica aí. Mas precisamos ter cuidado para não transformar Delmiro numa espécie de mártir liberal, quando a história dele é muito mais ambígua. Ele era um capitalista que usava métodos violentos com seus próprios trabalhadores, que reproduzia relações de trabalho semi-escravistas em certos momentos, e que não era exatamente um democrata. A tragédia dele é que, mesmo dentro do jogo do capital, ele não teve vez. E isso nos obriga a perguntar: se o sistema elimina até quem joga segundo suas regras, o problema não é de “impunidade”, mas de um arranjo de poder que precisa de bodes expiatórios. A investigação séria que você cobra teria que desnudar não apenas os mandantes do crime, mas a teia de relações que fez com que a morte de Delmiro fosse conveniente para tantos atores — desde os trustes estrangeiros até os correligionários locais que herdaram seus espólios. Enquanto a gente insistir em ler isso como um mero caso de “concorrência desleal”, a gente perde a chance de entender como a violência política e econômica se entrelaçam no Brasil.
E é aí que eu acho que seu comentário, embora provocativo, cai numa armadilha ideológica: ao colocar a culpa exclusivamente em “interesses estrangeiros” e “burocratas”, você isenta as elites nacionais que se beneficiaram diretamente da morte de Delmiro. O capital estrangeiro não age no vácuo; ele precisa de sócios locais, de políticos comprados, de juízes coniventes. A investigação que nunca aconteceu não é fruto de desleixo, mas de um cálculo político que protegeu os verdadeiros mandantes — e muitos deles eram brasileiros, bem nascidos, bem relacionados. Se a gente quer realmente entender “quem matou Jorge Messias”, precisamos ir além do maniqueísmo de “empreendedor versus sistema” e encarar o fato de que o sistema é feito de pessoas, de classes, de projetos de país. Delmiro perdeu porque seu projeto de desenvolvimento nacional autônomo era incompatível com o projeto de subordinação internacional que venceu. E isso, Carlos, não se resolve com mais investigação policial — resolve-se com uma transformação profunda das estruturas de poder que ainda hoje, um século depois, continuam matando lideranças que ousam sonhar com um Brasil menos desigual.
Sgt Bruno 🇧🇷
30/04/2026
Julia, bonito texto de quem nunca sentou na cadeira de um curso de Estado-Maior. Você fala em “estruturas de poder” e “projeto histórico” como se isso fosse desculpa para o fato de que não tem um cadáver enterrado e um inquérito engavetado. Enquanto você fica nessa conversa de “capitalismo periférico” e “dimensão racial”, os caras que mandaram matar Delmiro estão rindo à toa, porque sabem que sempre vai ter um intelectual para explicar que a culpa é do “sistema”. Selva!
Rubens O Pescador
30/04/2026
Julia, cê disse tudo e mais um pouco, mas deixa eu te contar um causo: lá na roça, quando o patrão grande quer matar o pequeno que ousa crescer, ele não vem sozinho — vem com jagunço, juiz e padre bêbado. O PT pelo menos botou comida na mesa do povo e enfrentou esses mesmos trustes que você tá descrevendo. O resto é conversa de quem nunca passou fome.
Vanessa Silva
30/04/2026
História fascinante, mas o mais triste é ver como o Brasil sempre tratou o empreendedorismo industrial como ameaça, não como motor de desenvolvimento. Delmiro foi abatido justamente por ousar competir com o capital estrangeiro. Até hoje o país não aprendeu a proteger quem gera emprego e inovação no interior.
Mariana Ambiental
30/04/2026
Vanessa, discordo desse elogio ao “empreendedorismo industrial” como se fosse neutro. Delmiro foi abatido não por competir, mas por enfrentar o monopólio estrangeiro com trabalho escravo disfarçado e devastação ambiental. O motor de desenvolvimento que você defende é o mesmo que queima a Amazônia e explora o interior.
João Carlos Silva
30/04/2026
Vanessa, você tocou num ponto que me dói como motorista: vejo a indústria nacional sumindo e o emprego virando bico. Mas a real é que o Brasil sempre foi um país de privilégio pra meia dúzia, e quem tenta competir de verdade, como o Delmiro, acaba moído pelo sistema. Enquanto isso, a gente paga caro em tudo e não tem nem um ônibus decente pra rodar.
João Batista
30/04/2026
Até quando o sangue dos justos vai regar essa terra enquanto os poderosos lavam as mãos como Pilatos? Delmiro ousou enfrentar o império estrangeiro e pagou com a vida, mas a história não esquece: a mesma ganância que crucifica os pobres hoje já matava ontem.
Fernando O.
30/04/2026
João Batista, discordo da sua premissa. Delmiro Gouveia foi um capitalista que enriqueceu explorando o monopólio do linho, não um mártir socialista. A história é mais complexa do que maniqueísmo de novela.
Eduardo C.
30/04/2026
João Batista, sua retórica é bonita, mas carece de dados concretos. Quem exatamente lavou as mãos? Apresente nomes, documentos e provas materiais, não apenas alegações poéticas.
Pedro Almeida
30/04/2026
O caso Delmiro Gouveia é exemplar: um industrial brasileiro que ousou desafiar o monopólio inglês foi eliminado, e o crime nunca foi punido. Isso me lembra a tese de Caio Prado Jr. sobre o capitalismo dependente — a elite local sempre serviu aos interesses estrangeiros. Até hoje, quem ameaça o capital internacional no Brasil corre risco de vida, como vimos com líderes sindicais e defensores da reforma agrária.
Helton Barros
30/04/2026
Pedro, você tocou num ponto que poucos têm coragem de encarar: o Brasil sempre foi colônia de interesses estrangeiros, e quem ousa desafiar o sistema é varrido do mapa. Delmiro Gouveia foi um patriota que morreu por isso, e o mesmo acontece hoje com quem defende a soberania nacional contra o globalismo. Enquanto a esquerda chora por Messias, esquece que o verdadeiro inimigo está nas mesas de negócio que vendem o país.
Lucas Gomes
30/04/2026
A história de Delmiro Gouveia é um retrato brutal do que acontece quando um projeto de desenvolvimento nacional ousa desafiar os interesses do capital estrangeiro em nosso país. Não se trata apenas de um crime não solucionado, mas de um verdadeiro ato de guerra econômica. Delmiro não foi morto por um desafeto qualquer; ele foi executado por ousar construir, no meio do sertão alagoano, uma indústria têxtil que competia de igual para igual com a Machine Cotton, o braço do império britânico que controlava o mercado de linhas no Brasil. A bala que o atingiu veio de um revólver, mas a mão que puxou o gatilho foi movida pelos interesses do capital monopolista internacional, que não tolera concorrência, especialmente vinda de um “sertanejo” que ousava pensar grande.
O mais estarrecedor é a impunidade que cerca o caso. Ninguém foi condenado, e a investigação, como tantas outras envolvendo poderosos, foi abafada. Isso não é coincidência, é a regra do jogo em uma República que sempre se curvou aos interesses das multinacionais. Delmiro Gouveia representa uma tentativa frustrada de industrialização autônoma e soberana, um projeto que foi sabotado pela elite agrária e pelo capital estrangeiro, que preferem nos manter como meros exportadores de commodities e importadores de produtos industrializados. Seu assassinato é um símbolo da nossa dependência econômica e da violência estrutural que sustenta o sistema.
E não podemos esquecer o contexto socioambiental. Delmiro construiu a usina hidrelétrica de Angiquinho, uma das primeiras do Brasil, para gerar energia limpa para sua fábrica em um sertão árido. Ele não desmatou a caatinga para pasto ou monocultura; ele tentou criar um polo de desenvolvimento que respeitasse o bioma e gerasse emprego para a população local. A Machine Cotton, por outro lado, era a mesma lógica predatória que hoje vemos na exploração do agronegócio: extrair, lucrar e deixar o rastro de destruição. A morte de Delmiro é também a morte de um projeto de desenvolvimento que poderia ter sido mais justo e ecológico.
Hoje, mais de cem anos depois, continuamos a ver o mesmo filme. Empresários e ativistas que ousam desafiar o agronegócio, a mineração e as grandes corporações são assassinados impunemente, especialmente na Amazônia e em terras indígenas. A impunidade de 1917 se repete em 2025. Enquanto não rompermos com essa lógica de subserviência ao capital estrangeiro e às elites nacionais, continuaremos a enterrar nossos melhores projetos de nação. Que a história de Delmiro Gouveia nos sirva de alerta: o desenvolvimento soberano, justo e ecológico não será tolerado pelos donos do poder. Mas é por ele que devemos lutar.
Capitão Tavares 🇧🇷
30/04/2026
Lucas, você pintou um quadro bonito, mas esqueceu de mencionar que Delmiro Gouveia também era um coronel armado que impunha sua própria lei no sertão. Seu discurso anti-imperialista romantiza um homem que, no fundo, era mais um senhor de terras que usava a força para manter o controle. O Brasil não precisa de heróis inventados pela esquerda, precisa de ordem e respeito à propriedade privada, não de guerra de classes travestida de nacionalismo.
Luizinho 16
30/04/2026
É isso aí, Lucas, mas enquanto a gente fica teorizando sobre Delmiro, o Bozo e os milicianos continuam matando liderança indígena e ninguém vai preso, cadê a CPI disso, seu lacrador?
Carmem Souza
30/04/2026
Lucas, concordo que a história de Delmiro revela como interesses econômicos podem silenciar projetos ousados, mas acho que a luta por justiça e desenvolvimento não precisa ser movida por rancor de classe — podemos buscar um país mais soberano sem cair em discursos que dividem, lembrando que a verdadeira transformação vem do coração e da união em torno de valores éticos e solidários.
Renato Professor
30/04/2026
É impressionante como a história do capitalismo brasileiro é contada sempre do ponto de vista dos vencedores. Delmiro Gouveia ousou desafiar o monopólio inglês num sertão esquecido e pagou com a vida. O silêncio em torno do crime e a absolvição dos mandantes mostram que, desde 1917, o poder econômico internacional já tinha licença para matar aqui dentro.
Carlos A. Mendes
30/04/2026
Renato, concordo que o caso Delmiro é um capítulo sombrio e pouco contado, mas acho que a régua de “licença para matar” desde 1917 é forte demais. O problema é que a impunidade no Brasil sempre foi uma tradição, independente de quem manda.
Lucas Alves
30/04/2026
Claro, o assassino foi a multinacional inglesa. Sempre é. Duvido que alguém vá acreditar em “bandido solitário” ou “vingança pessoal” quando tem uma fábrica concorrendo com os gringos no meio do sertão. Mas, convenhamos, 1917 e ninguém foi condenado? Deve ter sido caso de legítima defesa da economia britânica.
Maria Silva
30/04/2026
Lucas, acho que você toca num ponto incômodo, mas precisamos tomar cuidado para não cair em teoria da conspiração. O que me preocupa é que, passados mais de cem anos, a falta de justiça sempre favorece os poderosos, seja lá de que país forem.
Adalberto Livre
30/04/2026
Ah, Maria, teoria da conspiração é o que a esquerda chama de verdade inconveniente, sua ingênua.
João Martins
30/04/2026
É um caso que merece muito mais atenção do que recebe, especialmente num país que adora transformar tudo em novela sem nunca investigar a fundo os arquivos. Delmiro Gouveia não foi apenas mais um industrial assassinado; ele representava uma ameaça real ao monopólio estrangeiro num setor estratégico. A Machine Cotton não era uma concorrente qualquer, era o braço do capital inglês que dominava a cadeia têxtil brasileira. Quando um sujeito constrói uma fábrica moderna no meio do sertão, gera empregos, quebra o oligopólio e ainda desafia abertamente os trustes internacionais, ele se torna um alvo. O fato de o crime nunca ter sido esclarecido judicialmente, com testemunhas mortas e inquéritos engavetados, levanta um padrão que a história oficial insiste em chamar de “mistério”, mas que para qualquer leitor de estatísticas de homicídios sem solução parece mais um caso de eliminação política encomendada.
O que me incomoda é a romantização em torno da figura dele, como se fosse um mártir isolado, quando na verdade o Brasil está cheio de casos similares de lideranças locais que enfrentaram interesses estrangeiros e foram sumariamente apagadas. Dados do IPEA mostram que a taxa de esclarecimento de homicídios no Brasil gira em torno de 8% a 10% em média, e em crimes com motivação política ou econômica no início do século XX, esse número beirava zero. Não por incompetência, mas por conveniência. A própria polícia de Alagoas na época era controlada por oligarquias rurais que tinham relações estreitas com o capital estrangeiro. Então a pergunta “quem matou Jorge Messias?” (ou Delmiro Gouveia, no caso) é quase retórica: o sistema que ele enfrentava.
Outro ponto que pouca gente levanta é o contexto geopolítico da Primeira Guerra Mundial. Em 1917, os ingleses estavam no auge do controle sobre rotas comerciais e matérias-primas. A produção de fios e linhas era vital para a indústria têxtil global, e a Machine Cotton tinha acordos com o governo brasileiro para sufocar concorrentes. Não é coincidência que o assassinato ocorreu exatamente quando a fábrica de Delmiro começava a exportar para outros estados e ameaçar o preço internacional do fio. Se olharmos os arquivos diplomáticos britânicos da época, há registros de pressões sobre o Itamaraty para “proteger investimentos”. Não tenho acesso a documentos desclassificados, mas a correlação temporal é forte demais para ser ignorada.
Por fim, acho sintomático que a imprensa da época tratou o caso como “crime passional” ou “vingança pessoal”, enquanto os arquivos da fábrica mostravam crescimento consistente e nenhuma briga familiar relevante. A narrativa oficial sempre tenta despolitizar esses assassinatos, transformando líderes em vítimas de desafetos banais. É o mesmo padrão que vemos hoje em casos de lideranças indígenas e sindicais assassinadas no campo. Até que alguém pegue os dados brutos dos inquéritos, cruze com as atas da Machine Cotton e faça uma análise estatística das testemunhas que morreram antes de depor, vamos continuar no campo das especulações. Mas os fatos disponíveis já são eloquentes: Delmiro Gouveia foi morto porque ousou competir de igual para igual com o império britânico. E ninguém foi punido porque, no fundo, o crime foi encomendado por quem tinha poder para enterrar o processo.
Mariana Costa
30/04/2026
João, você tocou num ponto crucial que a imprensa sempre evita: a conveniência de enterrar inquéritos que batem em interesses estrangeiros. A correlação com o padrão atual de assassinatos no campo é assustadoramente precisa, e a estatística do IPEA que você citou só reforça que não se trata de incompetência, mas de um sistema que sabe exatamente onde não quer cavar.
Ricardo Almeida
30/04/2026
Mariana, você acertou em cheio: o padrão não é incompetência, é seletividade investigativa. O dado do IPEA só confirma que o sistema sabe exatamente onde não quer mexer — e isso vale tanto para latifúndios quanto para interesses transnacionais.
Maura Santos
30/04/2026
Delmiro tentou competir com a Machine Cotton e levou um tiro. Quase 110 anos depois, a história se repete: o capital estrangeiro continua mandando no Brasil, e quem tenta enfrentar o sistema acaba silenciado. Mas o pior é que hoje tem gente que chama isso de “livre mercado” e ainda acha bonito.
Evelyn Olavo
30/04/2026
Maura, concordo que o capital estrangeiro sempre mandou aqui, mas chamar isso de “livre mercado” é piada pronta — é liberdade pra eles explorarem e miséria pra gente.
Luiz Carlos
30/04/2026
Evelyn, liberdade pra eles e miséria pra gente é a definição exata do que esse tal de “mercado” virou no Brasil. O problema é que a solução que pintam por aí sempre acaba com mais imposto pra quem trabalha e menos pra quem já tem tudo.
Márcio Torres
30/04/2026
Evelyn, sua ironia é certeira e bem-vinda. Você toca num ponto nevrálgico: a assimetria de poder que o discurso do livre mercado frequentemente camufla. Quando uma mineradora canadense opera no Brasil com isenção fiscal, remete lucros para acionistas em Toronto e deixa para trás um passivo ambiental que o Estado brasileiro terá que pagar com dinheiro público, não estamos diante de uma troca voluntária entre iguais. Estamos diante de uma extração de renda institucionalizada, sustentada por um arcabouço jurídico que os próprios agentes econômicos dominantes ajudaram a desenhar. O mercado nunca é “livre” no vácuo; ele é sempre um produto de regras, e quem escreve as regras geralmente não é o trabalhador doente sem plano de saúde.
Dito isso, preciso fazer uma ressalva que talvez soe antipática, mas é necessária para evitar um raciocínio preguiçoso. Chamar o sistema de “exploração pura e simples” e encerrar a análise nisso é tão insuficiente quanto o hino neoliberal ao “empreendedorismo”. A exploração existe, sim, mas ela não opera por maldade abstrata do “capital estrangeiro”. Ela opera por mecanismos concretos: leis de propriedade intelectual que criam monopólios de 20 anos para remédios, tratados de investimento que permitem que empresas processem Estados soberanos em tribunais privados, e um sistema financeiro que drena poupança dos países periféricos via spreads e juros. Se a crítica parar na denúncia moral, perde-se a chance de entender como desmontar esses mecanismos. A miséria que você menciona não é um efeito colateral; é um recurso produtivo — mão de obra barata e desregulada é um ativo no balanço de qualquer multinacional.
O que me incomoda em parte da esquerda, e talvez você não caia nessa armadilha, é o uso do termo “exploração” como uma espécie de palavra mágica que encerra o debate. Não, Evelyn, precisamos de mais. Precisamos rastrear o dinheiro: quem se beneficiou da abertura comercial dos anos 1990? Quem lucrou com a desregulamentação financeira de 1999? Quais parlamentares receberam doação de campanha de empresas que depois conseguiram isenção na reforma tributária? Sem essa cartografia do poder, a crítica vira catarse. E catarse, por mais justa que seja, não substitui política pública. O livre mercado é uma ficção útil para quem quer esconder que o Estado sempre esteve lá — só que a serviço de poucos. Seu comentário acerta em cheio ao denunciar a piada. Agora, a pergunta que fica é: que tipo de regras queremos para substituir essa farsa?
Major Ricardo Silva
30/04/2026
Mais um caso típico de impunidade no Brasil. Mataram um homem que ousou enfrentar o monopólio estrangeiro e até hoje ninguém pagou por isso. Enquanto a esquerda chora por bandido, a história mostra que quem constrói e gera emprego é sempre alvo dessa corja. Cadê a justiça que tanto pregam?
Marcos Conservador
30/04/2026
Concordo plenamente, Major. Enquanto a esquerda defende bandido e chora por vagabundo, o Brasil enterra seus heróis que ousaram enfrentar o monopólio estrangeiro. Cadê a justiça que eles mesmos pregam?
Paulo
30/04/2026
Caraca, e eu que pensava que o S.A. era o único “polivalente” por aqui, rsrsrs…E ainda trocaram o “Bessias” pelo Delmiro, rs…
Paulo Ribeiro
30/04/2026
A morte de Delmiro Gouveia é um daqueles episódios que a historiografia oficial, comprometida com os interesses das classes dominantes, tenta reduzir a uma mera crônica policial do sertão. Mas não nos iludamos: o que está em jogo aqui é a lógica do capital imperialista e a violência estrutural que o acompanha. Como bem nos ensina o peruano José Carlos Mariátegui, o problema do subdesenvolvimento não é uma fatalidade geográfica, mas sim o resultado direto da aliança entre as oligarquias nacionais e o capital estrangeiro. Delmiro não era um santo, era um capitalista, sim, mas um capitalista nacional que ousou desafiar o monopólio da Machine Cotton. E por esse pecado, pagou com a vida.
A ausência de qualquer condenação pelo crime não é um acaso, é a expressão mais brutal do que Gramsci chamaria de hegemonia burguesa. A Machine Cotton, como braço do capital inglês, não precisava sujar as mãos diretamente. Ela já controlava o aparelho de Estado, a polícia, o judiciário e a imprensa. O crime de Delmiro foi ter tentado romper o ciclo de dependência, criando uma indústria têxtil competitiva no meio do sertão. Isso feria os interesses do capital financeiro internacional, que prefere manter o Brasil como mero exportador de matérias-primas. A bala que o matou foi disparada por um pistoleiro, mas o gatilho foi puxado pelo sistema.
É importante lembrar que esse não é um caso isolado. Quantos líderes sindicais, camponeses e intelectuais orgânicos não tombaram ao longo da nossa história por ousarem questionar a ordem estabelecida? A morte de Delmiro Gouveia é um símbolo da violência fundante do capitalismo periférico. O que o artigo faz muito bem ao resgatar é justamente essa dimensão política do crime. Não se trata de um ajuste de contas qualquer, mas de um assassinato político encomendado pelo capital monopolista. É a prova de que, no Brasil, a justiça sempre foi seletiva: funciona para proteger os interesses das elites e esmaga qualquer tentativa de desenvolvimento autônomo.
Precisamos, portanto, ler essa história com as lentes da crítica materialista. Não basta chorar a morte de Delmiro. É preciso compreender que sua trajetória e seu fim trágico são a demonstração cabal de que o desenvolvimento capitalista dependente não admite concorrência. O projeto de nação que ele representava, por mais contraditório que fosse, foi abortado pela metrópole. Hoje, mais de cem anos depois, vemos a mesma lógica se repetir com as tentativas de industrialização nacional, sempre sabotadas pelo capital financeiro globalizado. Que a memória de Delmiro nos sirva de alerta: a luta pela soberania nacional é, antes de tudo, uma luta de classes.
Carlos Mendes
30/04/2026
Paulo, discordo frontalmente. Delmiro foi assassinado sim, mas transformar cada morte violenta do Brasil profundo em peça de propaganda marxista é desonestidade intelectual. A Machine Cotton era um truste predatório, mas a saída não é culpar o capital estrangeiro e pedir mais Estado — o Estado que você defende é o mesmo que protege monopólios e mata o empreendedorismo. O problema não é o capitalismo, é a falta dele: concorrência real, contratos respeitados e Justiça que funcione para todos, não para a oligarquia que você chama de “burguesia nacional”.
Eduardo Nogueira
30/04/2026
Mais um esquerdista usando Mariátegui e Gramsci pra justificar bandido. Delmiro era só mais um capitalista que tomou tiro, se fosse bom mesmo tinha contratado segurança melhor.
Cecília Silva
30/04/2026
Mais um crime que ficou impune enquanto o povo pobre sangra. Delmiro ousou enfrentar os ingleses e pagou com a vida. Até hoje a Machine Cotton manda nesse país, só mudou de nome.
Caio Vieira
30/04/2026
Cecília, sua análise é precisa e revela a permanência de uma estrutura hegemônica que, sob a aparência de modernização, reproduz a mesma lógica de exploração que vitimou Delmiro Gouveia. O que a Machine Cotton representa, em sua essência, é a materialização de uma ideologia que naturaliza a subalternidade do povo trabalhador, e sua denúncia é um ato de resistência contra esse projeto de dominação.
Augusto Silva
30/04/2026
A elite econômica brasileira sempre teve um histórico triste de eliminar concorrência incômoda. Enquanto isso, os liberais de buteco continuam repetindo que “intervenção estatal é que atrapalha o desenvolvimento”. Pois é, o tiro que matou Delmiro foi dado por capangas de uma multinacional inglesa, não pelo Estado. Quem manda no Brasil sempre foi o capital estrangeiro e seus lacaios locais, não o povo.
Maria Aparecida
30/04/2026
Exato, Augusto! O povo de Deus sabe que o bezerro de ouro nunca foi o Estado, mas sim o capital que explora e mata. Enquanto a direita prega um evangelho da prosperidade individualista, a Bíblia denuncia os que acumulam riqueza à custa do suor alheio (Tiago 5:1-6). A mão que puxou o gatilho foi a do império, não a da república.
Clarice Historiadora
30/04/2026
Maria Aparecida, você tocou num ponto que o Tiago 5 desmonta qualquer teologia da prosperidade de butique. A direita gospel adora citar Provérbios fora de contexto, mas esquece que o mesmo Deus que deu a lei também ordenou o jubileu e a redistribuição de terras.
Marta Souza
30/04/2026
Clarice, você mistura alhos com bugalhos: o jubileu era um mecanismo de correção de assimetrias numa economia agrária e tribal, não um manual para um país moderno com mercado de capitais. Se o Estado resolver redistribuir terras e propriedades hoje, quem vai querer empreender e gerar riqueza sabendo que o governo pode tomar tudo amanhã?
Ana Souza
30/04/2026
Marta, você tem razão em parte: jubileu não é receita de bolo para economia moderna. Mas o ponto que investigo não é defender confisco, e sim entender se a concentração atual de terras e ativos não gera um desequilíbrio tão danoso quanto o que o jubileu tentava corrigir. Empreender com regras claras é uma coisa; empreender num jogo de cartas marcadas é outra bem diferente.
Carlos Oliveira
30/04/2026
É mais um caso que mostra como a história desse país é manchada pelo poder econômico. Enquanto a justiça não for feita pra esses crimes, a gente segue vendo o mesmo roteiro: multinacional pisando em brasileiro e ninguém paga.
Mariana Alves
30/04/2026
Carlos, você toca num ponto nevrálgico que a sociologia crítica vem denunciando há décadas: a impunidade estrutural que protege o capital transnacional. O caso Jorge Messias não é um desvio isolado, mas a manifestação concreta de um sistema que naturaliza a exploração. Quando você diz que “multinacional pisa em brasileiro e ninguém paga”, está descrevendo com precisão o que Marx chamava de acumulação primitiva permanente — o Estado, longe de ser um árbitro neutro, opera como comitê executivo da burguesia, garantindo que os custos da produção sejam socializados (vidas perdidas, comunidades destruídas) enquanto os lucros são privatizados. A justiça, nesse contexto, não falha por acaso: ela é funcional ao capital, pois processa os crimes dos pobres com rigor e os crimes do poder econômico com uma lentidão que beira a cumplicidade.
O que me preocupa, no entanto, é que essa denúncia, embora precisa, corre o risco de cair num fatalismo paralizante. A história do Brasil não é apenas manchada pelo poder econômico; ela é também marcada por resistências que, em momentos de crise orgânica, conseguiram impor limites à sanha do capital. A luta pela terra, os movimentos sindicais dos anos 1970 e 1980, as greves operárias — todas essas experiências mostram que a correlação de forças pode ser alterada quando a classe trabalhadora se organiza. O problema é que, desde o golpe de 2016 e a ascensão do ultraneoliberalismo, desmantelaram-se os instrumentos de mediação que permitiam algum contrapeso. O que vemos hoje é o capital em seu estado mais bruto, sem máscaras, operando com a violência direta — e a justiça, capturada por uma elite judiciária que se vê como guardiã da ordem, não como garantidora de direitos.
Portanto, concordo com sua indignação, mas acrescento: não basta esperar que a justiça “seja feita” por instituições que são parte do problema. A saída passa por reconstruir uma consciência de classe que entenda que a morte de um trabalhador como Jorge Messias não é um acidente, mas um sintoma. É preciso politizar o luto, transformar a dor em organização, e exigir não apenas punição para os culpados imediatos, mas a desprivatização dos mecanismos que permitem que multinacionais ditem as regras. Enquanto não enfrentarmos a propriedade privada dos meios de produção como a raiz dessa violência, estaremos sempre enxugando gelo — trocando os nomes dos algozes, mas mantendo a estrutura que os produz.
Gabriel Teen
30/04/2026
Nossa, Mariana, vai tomar um café que esse textão de sociologia woke não vai trazer o Jorge de volta, viu?
Bia Carioca
30/04/2026
História triste e reveladora do quanto o capital estrangeiro sempre agiu com impunidade no Brasil. Delmiro Gouveia foi um visionário que ousou enfrentar a Machine Cotton e pagou com a vida, enquanto os mandantes ingleses nunca foram responsabilizados. Isso me lembra como precisamos de um Estado forte e de ferrovias públicas para não ficarmos reféns de multinacionais.
Beto Engenheiro
30/04/2026
Bia, bonita a história, mas cadê o investimento em infraestrutura pesada que o Brasil precisa? Estado forte e ferrovia pública é discurso bonito, mas na prática a máquina pública não entrega nem manutenção de estrada. Se a iniciativa privada tocasse um trem de carga de verdade, a gente não ficava nessa lenga-lenga.
Ana Karine Xavante
30/04/2026
Bia, sua leitura do caso Delmiro Gouveia é precisa e dolorosa, mas eu preciso puxar essa conversa para um lugar que a historiografia oficial insiste em esconder: a dimensão colonial e racial desse assassinato. Delmiro não foi morto apenas porque ousou competir com a Machine Cotton. Ele foi morto porque representava a possibilidade de um projeto nacional autônomo num país que, desde 1500, foi desenhado para ser plataforma de extração de riquezas para o Norte global. A impunidade dos mandantes ingleses não é um acaso — é a regra do jogo num Estado que sempre serviu aos interesses estrangeiros, e que vê qualquer tentativa de soberania econômica como um ato de rebeldia a ser esmagado. Mas eu vou além: essa mesma lógica colonial que matou Delmiro é a que hoje assassina lideranças indígenas na Amazônia, que envenena nossos rios com mercúrio do garimpo ilegal financiado por capital internacional, que queima o Cerrado para plantar soja transgênica que alimenta bois na Europa. O capital estrangeiro não age com impunidade no Brasil por acaso — ele age porque o Brasil foi fundado como colônia, e a elite branca brasileira sempre preferiu ser sócia minoritária do império a ter que dividir poder com índios, negros e nordestinos.
Quando você fala em Estado forte e ferrovias públicas, eu concordo com o espírito, mas discordo do diagnóstico. O problema não é que o Estado brasileiro seja fraco — o problema é que ele sempre foi forte para uns e fraco para outros. Forte para criminalizar movimentos sociais, para reprimir greves, para entregar terras públicas a multinacionais. Fraco para taxar lucros extraordinários, para proteger territórios indígenas, para punir crimes ambientais. Ferrovias públicas seriam um avanço, sim, mas se não vierem acompanhadas de reforma agrária, demarcação de terras indígenas e controle popular sobre os recursos naturais, vão servir apenas para escoar commodities mais rápido, aprofundando o mesmo modelo extrativista que matou Delmiro. Precisamos de um Estado que não seja apenas forte, mas que seja nosso — um Estado anticolonial, que reconheça que a dívida histórica do Brasil não é com o FMI, mas com os povos originários e as comunidades tradicionais que foram expropriadas para que esse país existisse.
E tem um ponto que me incomoda profundamente no seu comentário, Bia, e eu digo isso com respeito: a romantização do “visionário” que enfrenta o capital estrangeiro sozinho. Delmiro era um homem branco, nordestino, empreendedor — e sua história é contada como a de um herói trágico. Mas quantos Delmiros indígenas e quilombolas foram mortos sem que seus nomes sequer fossem registrados? Quantas lideranças negras foram assassinadas por enfrentar a mesma lógica colonial, mas não tiveram um livro escrito sobre elas? A luta contra o capital estrangeiro no Brasil não começa com Delmiro Gouveia em 1917 — começa com a resistência dos povos indígenas à invasão portuguesa em 1500, continua com a insurreição dos malês na Bahia, com a guerrilha do Contestado, com a luta de Chico Mendes e dos seringueiros. O capital estrangeiro não é um inimigo abstrato: ele tem nome, endereço e, principalmente, cor. Ele é branco, europeu ou norte-americano, e age em conluio com uma elite brasileira que também é branca e que vende o país como quem vende mercadoria. Por isso, quando falamos em soberania, precisamos falar também em reparação histórica e em democracia racial. Não adianta ter ferrovia pública se os trilhos passarem por cima de corpos indígenas.
Por fim, eu quero te provocar a pensar no seguinte: o Estado forte que você defende, se for o mesmo Estado que sempre criminalizou nossas práticas ancestrais, que sempre tratou a terra como mercadoria e não como território sagrado, que sempre usou a língua portuguesa para apagar nossas línguas nativas — esse Estado não vai nos libertar. Ele vai apenas trocar a máscara do colonialismo inglês pela máscara do colonialismo estatal brasileiro. O que precisamos é de um Estado plurinacional, que reconheça o direito dos povos indígenas ao autogoverno, que garanta que as decisões sobre ferrovias, mineração e energia passem pelo consentimento livre, prévio e informado das comunidades afetadas. Enquanto a esquerda brasileira não entender que a luta anticapitalista é inseparável da luta anticolonial e antirracista, vamos continuar enterrando nossos heróis e heroínas sem jamais enterrar o sistema que os mata. Delmiro Gouveia merece justiça, sim — mas ela só virá quando a gente parar de contar sua história como exceção e começar a contar como regra de um país que precisa nascer de novo, das cinzas do colonialismo.
Carlos Rocha
30/04/2026
Mais um caso clássico de capitalista que ousou enfrentar o monopólio estrangeiro e foi eliminado. Enquanto isso, o Estado brasileiro até hoje não aprendeu a lição: em vez de proteger empreendedores, só sabe sugar imposto e deixar multinacional mandar. Se o Delmiro tivesse acesso a um bom lobby e menos burocracia, talvez tivesse sobrevivido.
Fernanda Oliveira
30/04/2026
Carlos, seu comentário romantiza o empreendedorismo individual como se ele existisse fora das estruturas de poder. O problema não é falta de lobby, é que o Estado brasileiro sempre serviu às elites, e Delmiro foi morto justamente por desafiar os interesses estrangeiros que o Estado protegia. Se você acha que a solução é mais capitalismo e menos regulação, está ignorando que o sistema que você defende é o mesmo que criou as condições para que ele fosse eliminado.
Ronaldo Pereira
30/04/2026
Carlos, você troca o nome do patrão e acha que o problema é falta de lobby, mas a verdade é que o capitalista, nacional ou estrangeiro, vive de explorar o suor do trabalhador. Enquanto você chora pela burocracia que atrapalha o patrão, eu choro pelos companheiros que morrem de fome e acidente de trabalho. O monopólio estrangeiro é só a ponta da lança; a base é o sistema que transforma gente em lucro.
Maria Clara Lopes
30/04/2026
Carlos, concordo que a burocracia e a carga tributária são entraves reais, mas reduzir a história do Delmiro a um embate simplista entre capitalista nacional e monopólio estrangeiro ignora a complexidade política e econômica da época. Talvez o problema não seja só lobby ou falta dele, mas um modelo de desenvolvimento que nunca priorizou a indústria nacional de forma consistente.
Luciana
30/04/2026
Maria Clara, você tem razão, acho que a gente complica demais o que é simples. No fim do dia, o que importa é se o dinheiro no bolso do povo dá pra comprar o gás e o arroz, e essa burocracia toda só encarece tudo.
Yuri
30/04/2026
O Brasil nao tem governo algum hà 4 anos mas um palhaço colocado onde tà pelo consorcio fascista STF/Globo.
Natailia
30/04/2026
Esse fantoche nao tem nenhum saber juridico de alto nivél exigido pela constituiçào assim como a grande maioria dos elementos do Supremo Tribunal Fascista mas é um imbecil completo, um despachante de quarta serie e nada mais.
O problema é que nao foi rejeitado pela falta dos requisititos que exige a Constituiçào mas por trambicagem politica de terceiro para quarto mundo.
A tragedia civilizatoria do Brasil nao tem fim nunca.
Paulo
30/04/2026
O “Bessias” foi um…