No cenário político atual, com o avanço de direitas populistas e reacionárias, virou hábito da esquerda lamentar a força dos adversários. Por todo o lado, o mesmo chororô sobre o crescimento da direita nas urnas, nas redes sociais.
A história, porém, conta outra coisa. A esquerda mundial atravessou os últimos séculos com vitórias espetaculares em todos os campos, em revoluções, em eleições, em ampliação dos direitos democráticos, na consolidação de uma imagem extremamente poderosa.
A direita sofre de um complexo de inferioridade profundo. Falta-lhe música, literatura, cultura — falta-lhe a tradição que organiza a trajetória humana há séculos.
A direita tem suas raízes no egoísmo. A esquerda nasce da luta pela liberdade, pela democracia e pelo coletivo. E sua maior virtude é crescer na adversidade.
“Bella Ciao” é o exemplo perfeito. De onde nasceu sua melodia? Das profundezas do sofrimento, da derrota, da opressão. Foi nas condições mais sombrias que a resistência italiana — e, por extensão, a classe trabalhadora — encontrou voz.
Historiadores rastreiam suas raízes até a Idade Média. Isso nos obriga a uma pergunta: melodias carregam uma mensagem política? Possivelmente sim. Trazem consigo séculos de revolta acumulada das maiorias trabalhadoras.
O que de fato existe no mundo são boas e más ideias. O princípio organizador da direita é o egoísmo — um instinto que, sem cultura e empatia para calibrá-lo, destrói qualquer civilização.
O amor familiar tem raízes genéticas. O amor à humanidade, não. É construção cultural, lapidada por milênios. Os livros que lemos, as músicas que cantamos, as conquistas sociais que herdamos — abolição da escravidão, sufrágio universal, jornada de oito horas — não caíram do céu. Foram arrancadas a duras penas pelo campo progressista.
Vivemos, no entanto, uma crise de autoestima. Na militância, virou hábito repetir que “a esquerda é chata”, “a esquerda é burra”. Em momentos de recuo — que muitas vezes são freios necessários da própria história — esquecemos o passado grandioso.
Recuar, às vezes, é preciso. Correr demais abre flancos para os inimigos reais: a fome, a crise, o caos. Mas o legado permanece.
“Bella Ciao” não nasceu num dia de sol, depois da vitória. Nasceu numa resistência refugiada nas montanhas, asfixiada por mais de vinte anos de fascismo. E mesmo ali, cantou.
As vitórias transitórias da extrema direita não matam a esquerda. O que pode matá-la é o esquecimento de si mesma.
É hora de rever “Bella Ciao” e reaprender o próprio legado.
—
Serviço: sessão especial Bella Ciao
Sexta-feira, 8 de maio, 19h — Cine Arte UFF
Rua Miguel de Frias, 9 — Icaraí, Niterói, RJ
A sessão. Documentário de Giulia Giapponesi sobre a força política do maior hino de resistência do mundo.
O debate. Logo após a exibição, a Sessão O Cafezinho — parceria entre a Fênix Filmes e o portal O Cafezinho — com mediação de Miguel do Rosário e a presença de:
- Mayra Goulart, cientista política da UFRJ
- Rogério Dultra, professor titular da UFF
- Axel Grael, pré-candidato a deputado federal e ex-prefeito de Niterói
O after. Vinho e cantoria coletiva, em celebração à liberdade.
Ingressos: bilheteria do cinema ou em ingressosuff.com.br


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!