Pesquisadores de diversas instituições internacionais utilizam tecnologia digital para ampliar o acesso a alguns dos registros escritos mais antigos da humanidade.
O projeto Acesso aos Textos Cuneiformes — CDLI-ACT — cria uma interface em árabe que permite a novos públicos explorar os textos gravados em tabuletas de argila na antiga Mesopotâmia. A iniciativa reúne a Universidade de Al-Qadisiyah no Iraque, a Universidade de York no Reino Unido e a Universidade de Lund na Suécia.
As instituições lançaram a versão em árabe da Iniciativa de Biblioteca Digital de Cuneiformes, um recurso desenvolvido ao longo de 25 anos. O acervo cataloga obras como o Épico de Gilgamesh e o Código de Hamurabi.
O professor Haider Aqeel Al-Qaragholi, da Universidade de Al-Qadisiyah, ressaltou o papel fundamental do projeto para manter viva a herança cultural do Oriente Médio. Ele apontou que a iniciativa destaca a contribuição histórica dos países da região para o desenvolvimento da escrita e forma novas gerações de pesquisadores.
A pesquisadora Dra. Émilie Pagé-Perron, do Serviço de Dados Arqueológicos da Universidade de York, comparou a importância desses textos à dos hieróglifos egípcios. Pagé-Perron enfatizou como eles oferecem uma visão detalhada sobre leis, literatura, ciência e a vida cotidiana das primeiras civilizações humanas.
A predominância de traduções em línguas europeias criou barreiras de acesso para as comunidades do Oriente Médio, onde esses artefatos foram originalmente produzidos. Muitas tabuletas cuneiformes se encontram preservadas em museus ocidentais como o Museu Britânico e o Museu do Louvre, após expedições dos séculos XIX e XX.
O Código de Hamurabi, que remonta a quase 4 mil anos, estabeleceu princípios legais que moldaram as bases das sociedades antigas. O documento é conhecido especialmente pelo princípio de talião, que serviu de fundamento para sistemas jurídicos posteriores.
O projeto CDLI-ACT planeja traduzir cerca de 70 mil linhas de textos cuneiformes, abrangendo mitos, códigos legais, correspondências, textos médicos e registros astronômicos. As traduções serão apresentadas em múltiplos formatos, de versões acadêmicas detalhadas a narrativas acessíveis para o público geral.
Os dados serão arquivados a longo prazo no Serviço de Dados Arqueológicos para garantir sua disponibilidade em pesquisas futuras. O pesquisador da Universidade de Lund Rune Rattenborg destacou que a iniciativa preserva os sistemas de escrita mais antigos conhecidos pela humanidade.
Rattenborg explicou que o projeto reconecta as comunidades com seu patrimônio cultural e corrige desequilíbrios históricos no acesso ao conhecimento. A interface em árabe já está disponível online, conforme reportado pelo portal Phys.org.
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Sargento Bruno
08/05/2026
É sempre assim: dinheiro público torrado para digitalizar tablete de barro em árabe, enquanto nossos jovens mal sabem escrever o próprio nome em português e ainda acham que cantar o Hino é caretice. Depois essa garotada aí com hashtag de lacração reclama quando a nação desaba na falta de disciplina e amor à pátria. Prioridades completamente podres, típicas de quem quer desconstruir o Brasil.
Maura Santos
08/05/2026
Sargento, o senhor fala em disciplina e amor à pátria, mas quando vocês estavam no comando foi apagão de energia em São Paulo por quase 24 horas e transporte público caindo aos pedaços – a verdadeira desconstrução do Brasil é essa prioridade que deixou o povo no escuro enquanto vocês trocavam a lâmpada do gabinete.
Major Ricardo Silva
08/05/2026
Gastam recursos com textos de 4 mil anos em árabe, mas não querem ensinar o Hino Nacional nas escolas. Prioridades totalmente invertidas, típico da esquerda cultural.
Lucas Pinto
08/05/2026
Caro Major, sua indignação com a “inversão de prioridades” é sintomática de uma visão de mundo que reduz a cultura a um punhado de símbolos oficiais e trata qualquer investigação do passado como luxo desnecessário ou, pior, conspiração da “esquerda cultural”. O problema começa exatamente neste ponto: quando alguém acredita que o acesso público a textos cuneiformes de quatro mil anos – um arquivo monumental das primeiras formas de Estado, exploração econômica e luta de classes – é antagônico a ensinar o Hino Nacional, essa pessoa já está completamente capturada pela armadilha ideológica que separa artificialmente “cultura útil” de “cultura inútil”. O hino, como todo aparato simbólico do Estado-nação, serve para inculcar uma lealdade afetiva que disfarça relações materiais de dominação – exatamente como a escola tradicional, nas palavras de Louis Althusser, funciona como Aparelho Ideológico de Estado por excelência. Já os tabletes cuneiformes, quando traduzidos e disponibilizados em plataformas digitais, não são meras antiguidades exóticas: eles escancaram a historicidade radical de instituições que você talvez considere eternas e naturais, como a propriedade privada, o exército profissional e a hierarquia burocrática. É por isso que a direita despreza esse tipo de iniciativa – não por ser “inútil”, mas porque é profundamente desestabilizadora.
Aprofundemos: Gramsci nos ensinou que a hegemonia se constrói no terreno da cultura, e que toda disputa política é também uma batalha pela memória e pelo significado do passado. Quando você lamenta que se gaste com textos antigos “em árabe” em vez de ensinar o Hino, está implicitamente defendendo um monopólio sobre o que merece ser lembrado – e, claro, o que merece ser esquecido. O sistema cuneiforme registra contratos de trabalho, dívidas, revoltas de escravos, correspondências diplomáticas dos primeiros impérios: material explosivo, que mostra como a exploração econômica e a concentração de poder não são falhas recentes, mas marcas de nascença da civilização urbana. Uma plataforma digital que traduz esses textos para o árabe – uma língua frequentemente orientalizada e associada ao “atraso” pelo discurso ocidentalista – subverte dupla camada de dominação: tanto a colonialidade do saber que trata o Oriente Médio como eterno receptor passivo de conhecimento quanto a tentativa de pasteurizar a história para que ela sirva apenas de cenário neutro para a exaltação nacionalista. O Hino Nacional, em contraste, é pura liturgia secular: foi composto, no nosso caso, para celebrar um golpe republicano conduzido por elites agrárias, e até hoje sua função primordial é produzir unidade fictícia enquanto as divisões de classe seguem operando silenciosamente.
A verdadeira inversão de prioridades, Major, está em achar que o Estado deve empregar seu poder coercitivo e simbólico para forçar crianças a cantar versos ufanistas, enquanto o acesso a arquivos milenares segue sendo visto como luxo acadêmico. A esquerda cultural – se é que esse termo tem algum valor analítico além de xingamento – sempre soube que a transformação social passa por romper com a temporalidade rasa do presente. Foucault, ao analisar a arqueologia do saber, mostrou que todo arquivo é um feixe de relações de poder: decidir o que fica acessível, para quem, em qual idioma e com qual mediação é um ato político de primeira ordem. A digitalização desses textos em árabe arranca o monopólio interpretativo das mãos de pequenas elites ocidentais e coloca o discurso sobre as origens do Estado diretamente ao alcance de comunidades que hoje sofrem as consequências mais brutais do imperialismo contemporâneo. Você gostaria que a lição fosse substituída por um cerimonial cívico. Eu entendo: o gesto de mão no peito garante obediência; o contato com a tábua de argila de um escriba sumério perguntando sobre a distribuição de grãos pode gerar perguntas inconvenientes sobre as desigualdades de hoje.
Encerro com uma provocação que não é retórica: por que o mesmo nacionalismo que você defende se incomoda tanto com a arqueologia, a filologia e a tradução, enquanto trata generais torturadores como heróis nacionais? A resposta, do ponto de vista materialista, é clara. O Hino Nacional se canta em uníssono para simular uma comunidade sem conflitos; os textos cuneiformes revelam os conflitos desde o alvorecer da urbanização. Um serve ao capital, que precisa de trabalhadores dóceis e “patriotas” dispostos a apertar o cinto em nome da pátria; os outros servem a qualquer um que queira compreender como a dominação se organiza e, portanto, como pode ser desmontada. Não se trata, pois, de descuidar do ensino público – exigimos, aliás, muito mais investimento e criticamos a escola tecnicista tanto quanto a escola doutrinadora. Trata-se de recusar a oposição falsa que você criou, na qual o verdadeiro patrimônio da humanidade precisa ser sacrificado em nome do culto ao Estado. Isso não é “prioridade invertida”; é pânico diante da possibilidade de que as massas aprendam a ler o mundo em vez de apenas cantá-lo.
Luisa Teens
08/05/2026
Vai estudar a Mesopotâmia em vez de cantar musiquinha patriótica, seu dinossauro! #ForaBolsonaro