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Como a guerra com o Irã está afetando a inflação nos EUA

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Escalada no Oriente Médio impulsiona o petróleo e aumenta a pressão sobre os preços ao consumidor nos Estados Unidos.
Conflito pressiona consumo, reduz confiança econômica e altera projeções de crescimento em diferentes países / Reprodução

A escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã começou a produzir efeitos diretos sobre a economia global. Nos Estados Unidos, o impacto mais imediato apareceu no aumento dos preços da energia. Agora, investidores, economistas e integrantes do Federal Reserve acompanham com preocupação os novos dados da inflação americana, que devem registrar o maior nível desde 2023.

Além disso, o conflito também passou a influenciar decisões monetárias em outras partes do mundo. Japão e Reino Unido enfrentam dificuldades semelhantes. O encarecimento do petróleo elevou custos, pressionou moedas e ampliou a insegurança sobre o crescimento econômico internacional.

Enquanto isso, cresce o receio de que famílias trabalhadoras sejam novamente as mais atingidas pela combinação entre inflação elevada, juros altos e desaceleração econômica.

Os números da inflação americana que serão divulgados nesta semana devem mostrar uma aceleração importante nos preços ao consumidor. Economistas consultados pela Bloomberg projetam uma inflação anual de 3,8% em abril. Em março, a taxa havia ficado em 3,3%.

Já a inflação subjacente, que exclui alimentos e energia por causa da forte volatilidade desses setores, deve subir de 2,6% para 2,7%.

Embora a inflação cheia seja altamente sensível ao preço da energia, o mercado tenta entender até que ponto o conflito no Oriente Médio começou a contaminar outros setores da economia. Desde o fim de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel intensificaram a guerra contra o Irã, o petróleo disparou no mercado internacional.

Esse aumento rapidamente chegou aos combustíveis, ao transporte e à cadeia produtiva. Como consequência, empresas passaram a operar com custos mais altos. Agora, analistas querem saber se essas despesas serão transferidas aos consumidores.

A preocupação ganhou força porque a inflação ainda não havia sido totalmente controlada após anos de juros elevados. Dessa forma, um novo choque energético pode dificultar ainda mais o cenário para trabalhadores americanos, especialmente os de renda média e baixa.

Investidores e formuladores de políticas econômicas observam principalmente os sinais vindos da inflação subjacente. Esse indicador costuma revelar se o aumento de preços está se espalhando de forma mais ampla pela economia.

Caso empresas comecem a reajustar produtos e serviços para compensar os custos mais altos de energia, o Federal Reserve poderá manter juros elevados por mais tempo. Isso encarece crédito, reduz investimentos e afeta diretamente o consumo das famílias.

Os economistas Veronica Clark e Andrew Hollenhorst, do Citi, afirmaram que a inflação subjacente deve subir. No entanto, segundo eles, o movimento não estaria ligado diretamente ao petróleo.

De acordo com os analistas, parte da pressão atual vem de distorções estatísticas causadas pela paralisação do governo americano no fim do ano passado. Eles destacaram principalmente atrasos relacionados ao setor imobiliário.

“A inflação imobiliária deve ‘recuperar’ o atraso na coleta de dados do outono passado, refletindo essencialmente dois meses de aumentos de preços em um só”, escreveram em relatório.

Mesmo assim, o mercado financeiro continua atento ao impacto político e econômico da guerra. Afinal, conflitos internacionais costumam gerar ondas de instabilidade prolongadas, especialmente quando envolvem grandes produtores de petróleo.

Antes da escalada militar contra o Irã, investidores apostavam que o Federal Reserve realizaria entre dois e três cortes de juros ao longo de 2026. O cenário, porém, mudou rapidamente.

Agora, operadores do mercado futuro enxergam chances muito pequenas de redução das taxas nos próximos meses. Além disso, parte dos investidores já considera possível até mesmo uma alta dos juros até a primavera do próximo ano.

A mudança mostra como guerras e disputas geopolíticas seguem influenciando diretamente a vida econômica mundial. Quando o petróleo sobe, os bancos centrais costumam agir com mais cautela. Isso acontece porque inflação elevada reduz o poder de compra e amplia tensões sociais.

Ao mesmo tempo, juros altos dificultam o crescimento econômico. Esse equilíbrio delicado preocupa governos e trabalhadores. Nos EUA, sindicatos e movimentos sociais já alertam para o risco de uma nova perda de renda real caso os salários não acompanhem o aumento do custo de vida.

A guerra no Oriente Médio também passou a afetar fortemente o Japão. O país depende da importação de energia e sofreu impacto direto da alta do petróleo.

Nos últimos meses, autoridades japonesas realizaram intervenções bilionárias para tentar fortalecer o iene. Segundo estimativas de analistas do MUFG e do Bank of America, o governo pode ter gasto cerca de ¥10 trilhões, equivalente a aproximadamente US$ 60 bilhões.

Mesmo assim, especialistas ainda têm dúvidas sobre a eficácia da estratégia.

O iene chegou a ultrapassar a marca de ¥160 por dólar no fim de abril. Depois das intervenções, a moeda japonesa voltou a operar abaixo de ¥157 por dólar. Ainda assim, analistas avaliam que a recuperação pode ser temporária.

Derek Halpenny, do MUFG, lembrou que uma operação semelhante ocorreu entre abril e maio de 2024. Naquele momento, o efeito também foi limitado.

Segundo ele, apenas uma combinação entre redução das tensões no Oriente Médio e uma postura mais dura do Banco do Japão poderia garantir valorização mais duradoura da moeda japonesa.

“Uma combinação de desescalada no Oriente Médio e uma postura mais agressiva do Banco do Japão é o caminho mais plausível para que a recente intervenção do Ministério das Finanças tenha qualquer efeito sustentado”, afirmou.

No Reino Unido, o cenário mistura crescimento econômico moderado e aumento das incertezas. Os próximos dados do Produto Interno Bruto devem mostrar expansão relativamente forte no primeiro trimestre.

O Banco da Inglaterra projeta crescimento de 0,5%, enquanto economistas ouvidos pela Reuters esperam resultado ainda maior, de 0,6%.

Apesar disso, analistas alertam que parte desse desempenho pode não se sustentar nos próximos meses. O aumento dos custos de energia provocado pela guerra já começou a pressionar empresas e famílias britânicas.

Além disso, investidores monitoram os impactos do conflito sobre consumo e atividade industrial.

O Banco da Inglaterra afirmou recentemente que alguns indicadores empresariais apontam desaceleração mais intensa do que os números oficiais sugerem. A instituição calcula que o crescimento subjacente da economia tenha sido de apenas 0,2% no primeiro trimestre.

A economista Sandra Horsfield, do Investec, destacou que os efeitos iniciais da guerra começaram justamente em março.

“O impacto inicial do conflito na economia do Reino Unido tinha acabado de começar a ser sentido, com o aumento dos preços da gasolina e a crescente incerteza para empresas e famílias”, afirmou.

As previsões para o crescimento britânico em 2026 também pioraram. Antes da guerra, economistas consultados pela Consensus Economics esperavam expansão de 1%. Agora, a estimativa caiu para 0,6%.

A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel já ultrapassou os limites militares e diplomáticos. O conflito passou a afetar diretamente inflação, moedas, juros e crescimento econômico em diferentes regiões do planeta.

Embora governos e bancos centrais tentem controlar os danos, o cenário continua cercado de incertezas. Enquanto isso, trabalhadores enfrentam aumento do custo de vida, crédito mais caro e maior insegurança econômica.

Além disso, cresce a percepção de que crises geopolíticas seguem sendo usadas como justificativa para políticas monetárias duras, mesmo quando os impactos recaem principalmente sobre a população comum.

Dessa maneira, os próximos meses devem ser decisivos para entender até onde a guerra conseguirá pressionar a economia global e quais serão os custos sociais dessa nova turbulência internacional.

Com informações de Financial Times*

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Rhyan de Meira

Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com

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