O ministro interino da Fazenda, Dario Durigan, declarou ser ‘radicalmente contra’ qualquer forma de compensação financeira às empresas caso o Congresso aprove o fim da escala 6×1. A posição foi defendida em audiência pública na Câmara dos Deputados e representa a postura oficial do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o tema.
‘Eu sou radicalmente contra a compensação. O conceito que nós debatemos é a titularidade da hora de trabalho. O titular é o trabalhador, não é o empregador’, afirmou Durigan. ‘A hora de trabalho é do trabalhador. Nunca houve indenização com o fim da escravidão, com a redução de 1988.’
A declaração ocorre em meio à pressão de deputados ligados ao empresariado, que defendem a inclusão de medidas compensatórias — como a desoneração da folha de pagamento — para as empresas afetadas pela redução da jornada semanal. O governo rejeita qualquer iniciativa nesse sentido.
Durigan argumentou que a lógica de indenizar empregadores pelo reconhecimento de direitos trabalhistas não encontra precedente histórico nem respaldo jurídico. ‘Quando a gente reconhece ganhos geracionais, isso não é só o Brasil que faz, isso é um debate mundial, outros países fazem e fizeram há muitos anos, e não coube indenização para quem não é o titular da hora de trabalho’, completou o ministro.
O auxiliar de Lula reconheceu que alguns setores terão aumento de custos com a redução da jornada semanal, mas ponderou que esse impacto não deve se disseminar pela economia como um todo. Ele também defendeu que o fim da escala 6×1 é um instrumento de redução das desigualdades entre trabalhadores de diferentes faixas de renda e escolaridade.
‘Assim como o salário mínimo forçou, por assim dizer, ganho de renda, a redução de jornada vai forçar mais produtividade’, argumentou Durigan, conforme reportagem da Carta Capital sobre a audiência. O ministro interino reforçou que o debate sobre jornada de trabalho é uma tendência global consolidada.
Tramitam simultaneamente na Câmara duas Propostas de Emenda à Constituição que tratam da redução da jornada semanal das atuais 44 horas para 36 horas. Uma foi protocolada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) e a outra pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), sendo que a proposta de Hilton institui a escala 4×3 — quatro dias de trabalho e três de descanso.
Após terem a admissibilidade aprovada na Comissão de Constituição e Justiça, os dois textos avançam para análise em uma comissão especial. A expectativa é que os trabalhos no colegiado sejam concluídos até 26 de maio.
Além de Durigan, participaram da audiência o pesquisador Felipe Pateo, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o professor José Dari Krein, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e o economista Fabio Pina, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Para a próxima sessão da comissão, está prevista a participação do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP).
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Carmem Souza
12/05/2026
Como cristã, vejo que a dignidade do trabalhador é um princípio bíblico — Deus instituiu o descanso. A escala 6×1 pesa demais na vida familiar e na espiritualidade. Mas também precisamos ter sensibilidade com os pequenos empresários que vivem na corda bamba. O caminho é equilibrar justiça e diálogo, não radicalizar de nenhum lado.
Dr. Thiago Menezes
12/05/2026
A ideia de que o fim da escala 6×1 precisa vir com indenização para o empregador só se sustenta se a gente ignorar qualquer dado de produtividade comparada. Países que reduziram jornada sem compensação patronal tiveram ganho de eficiência e queda de absenteísmo — o contrário do caos que pintam. No fim, o argumento do ‘patrão paga as contas’ é uma falácia que confunde investimento com exploração consentida.
Eduardo Nogueira
12/05/2026
Aí ele solta essa pérola enquanto o patrão paga as contas. Esquerdista adora falar bonito, mas na hora de gerar emprego de verdade, some. Escala 6×1 é a única coisa que segura esse país pra não virar uma Venezuela.
Lucas Pinto
12/05/2026
Eduardo, sua fala reproduz com perfeição o que Gramsci chamaria de hegemonia do capital: naturalizar a exploração como se fosse a única via possível de sustentação da economia. Quando você diz que “o patrão paga as contas”, está operando uma inversão ideológica clássica — o capitalista não paga nada; ele antecipa parte do valor que o trabalhador produz e embolsa o excedente. A hora de trabalho nunca pertenceu ao patrão, e o Durigan está correto ao afirmar o óbvio: a força de trabalho é uma mercadoria que o trabalhador vende, não um favor que o empresário concede. A escala 6×1 não segura país algum; ela apenas garante que a taxa de mais-valia se mantenha alta à custa da saúde física e mental de quem vende sua força de trabalho por 12 horas seguidas.
O medo da Venezuela é o espantalho favorito de quem precisa manter intacta a estrutura de exploração. Não se trata de discutir modelos econômicos abstratos, mas de enfrentar o dado concreto: o Brasil tem uma das jornadas mais longas do mundo e uma das produtividades mais baixas entre os países desenvolvidos — justamente porque o capital prefere extrair trabalho extensivo em vez de investir em tecnologia e qualificação. Reduzir a jornada não é “pauta esquerdista”, é uma pauta de racionalidade produtiva e de dignidade humana. A Finlândia, a Alemanha e a França não viraram Venezuela por terem jornadas de 35-40 horas semanais.
Seu comentário revela algo mais profundo: a crença de que o emprego existe por bondade do patrão, e não como resultado da luta histórica dos trabalhadores por direitos. A escala 6×1 é herança direta do fordismo periférico, que combinou superexploração com ausência de estado de bem-estar social. Não é “o que segura o país”, é o que adoece a classe trabalhadora e aprofunda a desigualdade. Enquanto reduzirmos o debate a “Venezuela vs. escala 6×1”, estaremos apenas repetindo o mantra que impede qualquer transformação estrutural. O discurso de “gerar emprego de verdade” sempre parte de quem nunca precisou se submeter a um turno de seis dias por semana para sobreviver.
Célia Carmo
12/05/2026
Patrão paga as contas? #AcordaEdu, quem produz a riqueza é o trabalhador, não o explorador de cueca!