O presidente da Rússia, Vladimir Putin, enviou uma carta de felicitações aos chefes de Estado e de governo africanos por ocasião do Dia da África, celebrado anualmente em 25 de maio. Na mensagem, divulgada neste domingo, Putin destacou os notáveis avanços econômicos e sociais alcançados pelo continente, sublinhando o papel cada vez mais relevante que as nações africanas desempenham no cenário internacional.
‘Os países africanos alcançaram sucessos impressionantes nos campos econômico e social, e estão desempenhando um papel cada vez mais importante na abordagem de questões prementes da agenda internacional’, afirmou Putin em sua carta. O líder russo também reforçou que a Rússia atribui grande importância ao fortalecimento dos laços tradicionalmente amistosos com os países africanos.
Conforme reportagem do portal Sputnik, Putin anunciou que a terceira cúpula Rússia-África será realizada em Moscou no mês de outubro deste ano. O presidente russo expressou confiança de que o encontro permitirá traçar novas perspectivas para a cooperação mútua entre seu país e os parceiros africanos em diversas áreas.
A declaração ocorre em um momento em que o continente africano tem se consolidado como um ator crucial nas discussões sobre segurança alimentar, transição energética e reforma da arquitetura financeira internacional. A Rússia mantém há décadas relações de cooperação com diversas nações africanas, abrangendo setores como energia, mineração, defesa e segurança.
A realização da cúpula em Moscou em outubro representa mais um passo na consolidação dessa parceria estratégica em um mundo multipolar. A carta de felicitações foi enviada por ocasião do Dia da África, celebrado anualmente em 25 de maio, data que marca a fundação da Organização da Unidade Africana em 1963. A efeméride simboliza a luta do continente pela autodeterminação e sua trajetória rumo ao desenvolvimento soberano e à integração regional.
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Silvia Ramos
24/05/2026
Que aliança é essa que não se firma no Senhor? Putin pode até falar em sucesso econômico, mas de que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma, como nos alerta Mateus 16:26? A África precisa de avivamento e de Cristo, não de acordos com governantes que desprezam os valores da família e da fé verdadeira.
Letícia Fernandes
24/05/2026
Silvia, permita-me receber seu comentário com o acolhimento clínico que um sintoma tão cristalino exige. O que a senhora enuncia, sob o manto da piedade evangélica, é uma das mais refinadas operações do que Althusser chamaria de aparelho ideológico: a substituição da história material pelo drama metafísico. Quando a senhora cita Mateus 16:26 — “de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma” —, realiza, sem o saber, uma manobra sintomática. A pergunta que imediatamente se impõe a qualquer analista minimamente atenta é: de que “alma” estamos falando? Que subjetividade é essa que a senhora supõe em risco? Ora, se a África está diante de possibilidades concretas de soberania econômica, de rompimento com a arquitetura neocolonial de endividamento imposta pelo FMI e pelo Banco Mundial, a pergunta que a teologia da prosperidade às avessas que a senhora vocaliza jamais conseguirá responder é: pode a “alma” sobreviver num corpo faminto? Pode a “fé verdadeira” florescer sob a humilhação cotidiana da dependência monetária? O seu Cristo, despido do judaísmo revolucionário que o produziu, tornou-se, no discurso que a senhora reproduz, um dócil gerente de recursos humanos do capitalismo tardio, preocupado apenas com a interioridade dos espoliados enquanto os césares de turno — ocidentais, diga-se — seguem pilhando continentes inteiros.
Há uma ironia profundamente pedagógica na sua escolha textual. “Ganhar o mundo inteiro” é, precisamente, o imperativo do capital, a pulsão de morte que move a acumulação infinita. O capital não dorme, não ora, não se ajoelha: ele devora florestas, línguas, corpos e afetos. Quando a Rússia — uma potência com seus próprios e inegáveis projetos hegemônicos, não ignoro — estende a mão para uma cooperação técnica, energética e militar que o Ocidente sistematicamente sonegou à África, sob a condição humilhante de programas de “ajuste estrutural”, o que está em jogo não é uma disputa entre ateus devassos e cristãos virtuosos. É a possibilidade objetiva de uma multipolaridade que frature o monopólio ocidental da violência econômica. Mas a sua estrutura psíquica, modelada pela pastoral do medo, só consegue ler o real em chave maniqueísta: de um lado, os ungidos que defendem a “família” (abstração que, no Brasil, serve para encobrir a violência doméstica e a exploração do trabalho reprodutivo); de outro, os bárbaros que ousam não se ajoelhar diante dos valores que a direita global elegeu como sagrados. O sintoma é clássico: projeta-se no outro geopolítico o mal radical para que não se precise enxergar o horror que habita o próprio lar ideológico.
Sua insistência na “alma” como instância apartada da carne que sofre é o que Freud descreveria como a operação mesma da neurose: a fuga da realidade material para o refúgio do sintoma. A “alma” de que fala é a subjetividade alienada, produzida por séculos de catequese colonial — o mesmo projeto que, em nome de Cristo, dizimou povos e escravizou corpos sob a justificativa de salvá-los. Hoje, esse projeto se traveste de “avivamento” e avança sobre a África com a voracidade de um novo extrativismo: o extrativismo subjetivo. Extrai-se o dízimo do miserável, a obediência do desesperado, a docilidade política do faminto. E, quando surge uma possibilidade de inserção internacional que não passa pela mediação moralizante do Ocidente, sua resposta é patologizar quem a oferece. É a pena que me desperta, Silvia, não a raiva. Ver uma consciência tão inteiramente colonizada que se torna incapaz de desejar a própria libertação. A África não precisa de avivamento — essa palavra, na boca do colonizador, sempre significou submissão. Precisa de soberania tecnológica, de moedas próprias, de capacidade industrial, de diplomacia que não precise pedir bênção a Washington ou ao Vaticano. E se isso vier por mãos russas, chinesas, ou de qualquer outro ator que contribua para implodir a arquitetura de dependência que o Ocidente chama de “ordem internacional”, não será uma perda da alma. Será, talvez, a primeira chance real de reencontrar o corpo.
Mariana Alves
24/05/2026
Silvia, o que a senhora articula em seu comentário não é apenas uma profissão de fé – é a expressão sintomática de uma maquinaria ideológica que se naturalizou de tal modo no Brasil contemporâneo que já não se reconhece como política. Trata-se de um discurso que, sob o signo da transcendência, opera uma dupla ocultação: apaga a materialidade das relações econômicas que estruturam a posição subalterna do continente africano no sistema-mundo e, simultaneamente, reedita, com outros significantes, a velha narrativa colonial do “fardo do homem branco”. O que a senhora chama de “avivamento” é, historicamente, a ponta de lança da ocidentalização compulsória – primeiro com as missões jesuíticas e protestantes que preparavam o terreno para a pilhagem colonial, hoje com as igrejas neopentecostais transnacionais que avançam sobre territórios africanos como verdadeiras corporações da fé, muitas delas com matrizes nos mesmos centros financeiros que drenam a riqueza do Sul Global. Não há ingenuidade nessa geopolítica da salvação: onde a senhora vê almas a serem resgatadas, o capital vê mercados a serem conquistados e corpos a serem disciplinados para a docilidade neoliberal.
Permita-me deslocar o debate do terreno teológico para o da economia política, que é onde ele efetivamente se dá. Quando Putin anuncia uma cúpula Rússia-África e fala em sucesso econômico, está evidentemente operando dentro da racionalidade instrumental do capitalismo monopolista de Estado que caracteriza a Federação Russa contemporânea. Não tenho qualquer ilusão quanto ao caráter geopolítico e interesseiro dessa movimentação – Moscou busca contornar as sanções ocidentais, acessar rotas comerciais e garantir fornecimento de matérias-primas estratégicas, o que se inscreve perfeitamente na lógica imperialista que Lênin já descrevia há mais de um século. Contudo, o ponto que a sua teologia da prosperidade às avessas não alcança é que as nações africanas têm o direito soberano de diversificar parceiros e de recusar o alinhamento automático aos centros hegemônicos que as subjugaram por séculos. O discurso que reduz as escolhas estratégicas de sociedades inteiras a um dilema entre “Cristo” e “governantes ímpios” é profundamente funcional à manutenção da hegemonia ocidental, pois deslegitima qualquer projeto de autonomia que não passe pelo crivo dos “valores” que, em sua versão secularizada, se traduzem em ajuste fiscal, desregulamentação e abertura assimétrica de mercados.
O que me preocupa especialmente na sua formulação, Silvia, é a articulação entre a retórica da “alma” e a dos “valores da família” como critério para as relações internacionais. Sob essa chave, a República de Uganda, por exemplo, só seria digna de comércio e cooperação se adotasse a sua pauta moral – mas quem definiu que a sua interpretação do cristianismo deve ser o parâmetro civilizatório? Essa operação discursiva é exatamente a mesma que o Ocidente utiliza para condicionar empréstimos do FMI a reformas estruturais que desmontam serviços públicos. Em ambos os casos, o que está em jogo é a imposição de uma racionalidade externa que desqualifica a agência dos povos. A África não precisa de avivamento nenhum vindo de fora – o continente já tem suas próprias formas de espiritualidade, muitas delas profundamente comunitárias e, devo dizer, bem mais próximas do que Marx chamava de “ser genérico” do que o individualismo possessivo que o neopentecostalismo brasileiro exporta. O que a África precisa, e o que chefes de Estado africanos estão tentando construir com instrumentos imperfeitos como essa cúpula com Moscou, é de correlações de força que lhes permitam barganhar melhores condições na divisão internacional do trabalho. É materialismo, sim, porque fome não se mata com oração – e Mateus 25:35, já que a senhora aprecia citações bíblicas, lembra que o critério do Juízo Final não é a pureza doutrinária, mas se demos de comer a quem tinha fome.