A ministra em visita extraordinária para causas de violações aos direitos humanos da Corte de Apelações de San Miguel, Marianela Cifuentes, ditiou acusação contra o oficial do Exército na reserva Luis Rodrigo Albornoz Costa pelo sequestro qualificado de dois trabalhadores agrícolas sem militância política, desaparecidos desde outubro de 1973 na comuna de Maipú. A decisão judicial representa mais um passo na longa jornada chilena por memória, verdade e justiça diante dos crimes cometidos durante o regime militar que assolou o país.
As vítimas, Luis René Lobos Gutiérrez, de 25 anos, e Carlos Germán Maldonado Torres, de 41 anos, eram trabalhadores rurais sem qualquer filiação partidária ou atividade política conhecida. O caráter absolutamente arbitrário da detenção e posterior desaparecimento evidencia a lógica repressiva que marcou os primeiros meses do golpe contra o governo constitucional de Salvador Allende, quando a simples condição de trabalhador já configurava suspeita aos olhos dos militares golpistas.
Segundo a investigação conduzida pela ministra Cifuentes, em 11 de setembro de 1973, soldados do Regimento de Infantaria de Montanha Reforçado nº 18 ‘Guarda Vieja’, da cidade de Los Andes, deslocaram-se até a comuna de Maipú sob o comando do então tenente-coronel Luis Víctor José Prussing Schwartz. Na ocasião, os militares instalaram-se nas dependências da Feira Internacional de Santiago e do posto policial de Padre Hurtado, onde estabeleceram um ponto de controle que ficou sob o comando do então subtenente Albornoz Costa, conforme relatado pelo portal Resumen Latinoamericano.
O episódio decisivo ocorreu na noite de 21 de outubro de 1973, quando um incidente envolvendo um cabo da Força Aérea Chilena, Juan de Dios Leyton Contreras, que portava arma de fogo e estava acompanhado das duas futuras vítimas, todos em estado de embriaguez, levou à intervenção da patrulha militar instalada no local. Por volta das 22 horas, os três foram detidos por soldados do posto de controle no restaurante ‘La Estrella’, em Santa Ana de Chena, e conduzidos às dependências do posto policial ocupado pela tropa. Enquanto Leyton Contreras, por sua condição de funcionário da Força Aérea, foi transferido ao quartel da FISA no veículo de um civil, os trabalhadores Lobos e Maldonado foram levados à Tenência de Carabineros de Malloco.
Os registros judiciais indicam que a unidade policial de Malloco recusou-se a receber os dois detidos, que permaneceram então sob custódia direta dos soldados do posto de controle comandado por Albornoz Costa. A partir desse momento, perdeu-se completamente o paradeiro de Luis René Lobos Gutiérrez e Carlos Germán Maldonado Torres, configurando o crime de sequestro qualificado pelo qual o oficial da reserva agora responde como autor direto.
A decisão da ministra Cifuentes, no âmbito da causa rol 33-2012, qualifica Albornoz Costa como autor do delito consumado de sequestro qualificado, crime que pela sua natureza continuada mantém-se em execução enquanto os restos mortais das vítimas não forem localizados. O caso expõe a engrenagem repressiva que se articulou entre diferentes ramos das Forças Armadas e a polícia chilena nas semanas seguintes ao golpe, demonstrando como o terror de Estado se disseminou capilarmente.
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